José Gomes Ferreira "Continuamos a pagar muito a lóbis que nos escravizam"

Um dos jornalistas que sigo há vários anos e continuo a apreciar.

“Por Margarida Vaqueiro Lopes

O jornalista admite vir a ser deputado, mas nunca na actual conjuntura e nunca nos partidos actuais

É um dos mais ouvidos jornalistas económicos da actualidade, conhecido por explicar de forma simples alguns conceitos complexos e pelo estilo opinativo. José Gomes Ferreira acabou de editar o seu segundo livro – “Carta a Um Bom Português” – , o que deu o mote a uma conversa alargada com o i.

As pessoas não estão um bocado fartas de livros de economia e política?

Se a pergunta se refere à eventualidade de o livro se vender mais ou menos, acho que as pessoas estão cheias de informação mas continuam a tentar ligar factos, acontecimentos e por aí fora. As pessoas querem respostas. Nesse sentido, podemos continuar a dar contributos para se orientarem nesta selva de informação, de declarações de vontade, de ambições, de tricas políticas e económicas. Mais strictu sensu , se me disseres que este livro sai numa altura em que saem não um mas dezenas de livros sobre o BES, o Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado, livros sobre se a austeridade resultou ou não resultou, livros sobre as consequências sociais da austeridade… Estamos cheios desse tipo de informação, mas acho que é sempre possível encontrar um ângulo diferente. Agora se o consegui ou não, os leitores dirão.

O jornalista admite vir a ser deputado, mas nunca na actual conjuntura e nunca nos partidos actuais

É um dos mais ouvidos jornalistas económicos da actualidade, conhecido por explicar de forma simples alguns conceitos complexos e pelo estilo opinativo. José Gomes Ferreira acabou de editar o seu segundo livro – “Carta a Um Bom Português” – , o que deu o mote a uma conversa alargada com o i.

As pessoas não estão um bocado fartas de livros de economia e política?

Se a pergunta se refere à eventualidade de o livro se vender mais ou menos, acho que as pessoas estão cheias de informação mas continuam a tentar ligar factos, acontecimentos e por aí fora. As pessoas querem respostas. Nesse sentido, podemos continuar a dar contributos para se orientarem nesta selva de informação, de declarações de vontade, de ambições, de tricas políticas e económicas. Mais strictu sensu , se me disseres que este livro sai numa altura em que saem não um mas dezenas de livros sobre o BES, o Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado, livros sobre se a austeridade resultou ou não resultou, livros sobre as consequências sociais da austeridade… Estamos cheios desse tipo de informação, mas acho que é sempre possível encontrar um ângulo diferente. Agora se o consegui ou não, os leitores dirão.

É uma das pessoas mais ouvidas em Portugal nos últimos anos.

Ouvidas e criticadas. Já tenho uns críticos profissionais [risos].

Estava à espera deste boom de popularidade?

Não quero parecer imodesto, e ninguém se deve pôr acima do que verdadeiramente é. Mas há uma percepção do que digo ou do que tenho dito nos últimos anos que deriva do facto de as pessoas estarem mais preocupadas. Porque o meu trabalho sempre existiu, e sempre tive o mesmo nível de intervenção. Se calhar em quantidade até tive alturas com mais actividade. Recordo sempre o período entre 2000 e 2001, em que falava sobre os problemas do país em directo, entrevistava políticos, especialistas, falava, perguntava… Nessa altura havia uma questão sociológica muito interessante e ao mesmo tempo muito complicada: há alturas em que os povos não querem ouvir. Não querem saber. E esse momento resultou no incumprimento do défice, depois na mudança de governação.

Foi o que aconteceu nessa altura?

Entrou um governo socialista a prometer que ia combater o défice. E ressurgiu uma esperança. Legítima. Todos nós tínhamos uma esperança. No final de 2006, início de 2007, já havia demasiados sinais de que se queria reduzir o défice mas a prática era favorecer amigos. Não há outra forma de dizer isto. Favorecer amigos e fazer despesa fora dos balanços do Estado. Os bancos sabiam, a União Europeia sabia, toda a gente sabia. E alguns jornalistas começaram a dizer “isto não pode ser, isto vai dar mau resultado”. Eu, pessoalmente, disse muitas vezes em 2007 que ia haver uma tragédia com a Estradas de Portugal.

Mas não me respondeu. Convive bem com essa popularidade?

Sim, convivo bem. Tanto com as pessoas que elogiam como com as que criticam. Vivo bem com isso porque sou um cidadão do país, que tem de andar na rua, e isso dá-me muito prazer. Aliás, a história do livro “Carta a Um Bom Português” começa precisamente no supermercado, porque eu gosto de lá ir. Gosto de ver as pessoas. Não posso andar escondido [risos].

As escolas de jornalismo ensinam que o jornalista não deve fazer opinião. A sua opinião é contrária?

Acho que não tem mal nenhum. Só acho que a separação do exercício tem de ser clara. Eu faço notícias. De vez em quando tenho informação e escrevo notícias ali na redacção ao lado dos meus colegas. Notícias simples. Não ponho lá opinião. Depois posso fazer uma análise que implica ligar factos, calcular intenções que há por trás e transformar isso em opinião.

É um dever do jornalista?

É, uma vez que, sobretudo para julgamento exterior, os jornalistas são tidos como tendo mais informação. É um dever porque as pessoas não só não têm tempo, como muitas vezes não têm bases para fazer esse trabalho. E não têm culpa disso. Não têm acesso a meios de informação. Nós somos pagos para isto. Eu também faço o exercício da notícia pura e simples; o exercício da entrevista também o faço – e aí sinto mais dificuldade em fazer entrevistas e evitar dar opinião. Às vezes não resisto e dou mesmo. Há pessoas que às vezes acham que isso já é passar uma fronteira, e eu compreendo. Mas a verdade é que as pessoas já estão à espera que eu faça isto, já é legítimo.

É tudo uma questão de fixar bem os limites.

Esses exercícios são legítimos e mais do que isso são úteis, as pessoas precisam deles. Porque chegámos a um ponto em que o próprio exercício da política está desacreditado, e não estou a dizer nada de novo. É um facto traduzido em abstenção. As pessoas precisam de alguém que as ajude a entender as coisas. Se me disseres “ah, mas o jornalista para fazer uma carreira não devia transpor essa barreira”, eu respondo “há jornalismo e jornalismo. Há jornalistas e jornalistas”. Se eu na minha opinião usar factos verídicos, põe-se apenas uma questão de selecção: “pois, mas só seleccionou os factos que quis”. Optei. Eu sou pago para optar. Não tenho a verdade absoluta, longe de mim, mas penso que tenho opiniões que são úteis para algumas pessoas, pelo menos para as que me ouvem [risos].

É formado em Comunicação Social, mas apaixonou-se pelos números.

Sempre vi, desde pequeno, os políticos dizerem coisas e o seu contrário no espaço de pouco tempo. Sempre vi formarem-se opiniões com base em estados de espírito. Em política é terrível: vejo colegas da área política serem desmentidos constantemente quando aquela produção de informação foi verdade, muitas vezes dada a coberto de anonimato das fontes, e depois são desmentidos, sobretudo na imprensa escrita, onde os jornalistas funcionam mais com fontes.

Os números funcionam como uma âncora, uma segurança?

São referências mais concretas, embora possam ser utilizados de diferentes maneiras. Digamos que numa escala de objectividade não há objectividade 100% pura nem há subjectividade a 100% – excepto no caso dos artistas, nas telas e na música [risos]. O discurso político é muito menos objectivável que o discurso económico. Dou-te o exemplo da discussão sobre o desemprego: a esquerda tem razão quando diz que o desemprego baixou porque houve gente que se foi embora e não está à procura de emprego. Porque emigrou ou porque desistiu ou porque estão ocupados com cursos de formação. Agora os 14% de desemprego de hoje que contrastam com os 17% de há uns anos foram calculados na mesma base… a esquerda não pode desmentir que o desemprego desceu. São coisas objectivas.

Difíceis de contrariar.

Sim. E portanto eu gosto dessa área. De perceber como se chegou a um certo ponto e tentar perceber como se pode evoluir para uma situação melhor.

É um workaholic?

Sim. A família queixa-se, mas sim.

E a família ajuda-o a escrever estes livros, a pensar?

Oiço a minha mulher, as minhas filhas… dou muita importância ao senso comum. Porque são as pessoas para quem falo. Às vezes resolviam-se problemas tão fáceis na economia e na política se se seguisse o senso comum. Tudo o que aconteceu com a banca… senso comum.

Quer influenciar a política?

Sim, decididamente.

Há uma petição pública chamada “José Gomes Ferreira a primeiro-ministro”. Gostava de ter um cargo político?

Neste quadro político partidário, jurídico-constitucional, não. Não vale a pena! Prefiro ter uma voz absolutamente desligada de qualquer projecto partidário e de qualquer projecto de poder, porque não vale a pena. Primeiro precisamos de ser todos nós cidadãos para desbloquear isto tudo.

Como é que se “desbloqueia” isto tudo?

Só há uma forma, introduzindo concorrência na economia, e isso não se consegue sem se introduzir concorrência no parlamento. Com independentes a gritar alto e bom som “vocês não estão a fazer o vosso trabalho”. É preciso alterar o sistema eleitoral, partidário, e mudar as regras da democracia, integrando as vozes de quem não está contente com o sistema. É por isso que temos tido esta abstenção!

Temos de ir para a rua gritar?

Por mim, acho que todos os empresários deste país, que nunca vejo a gritar na rua “deixem-nos trabalhar”, deviam juntar-se e fazer uma manifestação. Deviam. E dizer aos políticos “desculpem lá, ou nos deixam trabalhar ou vocês morrem todos e nós também”. Nada de violência. O mínimo de agressividade. Imagino o que seria a Avenida da Liberdade cheia de empresários em silêncio, cada um com um cartaz a dizer: “Eu tinha dez postos de trabalho para criar mas a burocracia não me deixa. Eu tinha 15 postos de trabalho para criar e os ministérios não me deixam”. Se desfilarem em silêncio pelas ruas de Lisboa em direcção ao parlamento, nesse dia alguma coisa muda.

E nesse contexto? Consideraria entrar para política?

Num momento seguinte, permitindo-se concorrência no parlamento, com independentes, se houver um projecto independente – não serei eu a liderá-lo! – é que há um problema. Eu sou jornalista e não quero ser político. Não quero ser um líder político que faça um projecto para assumir o poder e liderar o país. Não é nada disso. Primeiro temos de desbloquear a forma como funciona a política, porque está mal. Depois, se aparecer um projecto independente, com pessoas credíveis do ponto de vista técnico, e com vontade de governar olhando ao interesse do país e não olhando a ideologias e se me disseram “precisamos de ti”, no futuro poderei pensar duas vezes e dizer “sim senhor”. Mas nunca nesta conjuntura político-partidária e nunca em algum dos partidos actuais. Nunca!

Admite vir a ser deputado?

Lá está. No tal quadro não vou dizer que não. Têm é de ser de independentes. Ou se achar que tenho alguma competência em termos de ajuda… não do ponto de vista técnico, que eu não sou economista! É do ponto de vista da análise de razoabilidade de alguns pontos de vista, tendências económicas, ligação entre empresários e a massa que são as populações e aquilo que é a relação com exterior. Se aparecer algum projecto ou algum convite, não nego.

Nasceu em Tomar, onde não havia televisão, o que não deixa de ser curioso.

Até 1978 não houve televisão. Até aos meus 14 anos.

Telefonou aos seus pais a primeira vez que apareceu na televisão?

Não! Não teria essa imodéstia [risos]. Sabes que quando a pessoa aparece na televisão a primeira vez, ou das primeiras vezes, as pessoas que a conhecem não ouvem. É o princípio da comunicação. Hoje em dia há famílias que me conhecem e às vezes dizem-me: “Vi-te na televisão.” E eu pergunto “então e o que é que eu disse?”, e a resposta é “Ah, não tomei atenção”. E a regra é esta [risos]. Às vezes, não sempre!

Vem de uma família humilde e trabalhava com os seus pais nos campos. Isso ajudou-o?

É bom ter um bocadinho de experiência de vida de tudo o que é menos bom, mais difícil, de uma infância em que não havia muitas comodidades nem muitas facilidades – mas atenção que nunca passei fome. Os meus pais sempre trabalharam muito para termos o que precisávamos, mas não havia comodidades nem aqueles mimos de quem vive na cidade.

Ajuda-o a sentir-se mais próximo das pessoas?

Talvez facilite a empatia de nos pormos no lugar do outro, que é mais pobre, que não tem meios, que perdeu o emprego, que vive em meios mais desfavorecidos. Acho que não é imodéstia dizer que tenho essa facilidade, de ter essa empatia. Tento sempre ver as coisas do lado de quem está a partir do zero para ter coisas, porque também é o meu percurso. Acho que isso dá bagagem para poder pensar a política e a organização da sociedade tendo em atenção essas pessoas. Porque às vezes vejo a política centrada na protecção dos direitos, e depois a protecção dos direitos são sempre os dos mesmos: uma classe média ou média-alta, das cidades, intelectual ou ligada ao intelectual…

Sempre quis ser jornalista?

Por acaso, no início pensei em ser escritor. Gostava muito de ler. Li as obras quase todas de Dostoievsky, Sartre, Camus… por aí fora. Li muito na minha juventude – tinha amigos que estudavam em Tomar ou em Lisboa e estava sempre a pedir- -lhes livros. Só que na altura não conseguia perceber verdadeiramente tudo o que lia, e portanto mais tarde acabei a redescobrir muita coisa. Enfim. Mas queria ser escritor. Ainda hoje tenho o sonho de escrever ficção. E história. Adoro história. Mas não na perspectiva do cientista, na do divulgador. Fazer uma carta aberta aos portugueses a explicar porque é que a história é muito maior do que se diz. Escrever uma carta aos portugueses sobre “A tua história foi muito maior do que te dizem”, por exemplo. É que nós somos mesmo bons.

Como percebeu que queria ser jornalista?

Por aproximação. Ganhar a vida como escritor logo no início era difícil. E depois ganhei o gosto, obviamente. Fiz jornalismo ainda no 12.o ano. Quando acabei o 12.o ano candidatei-me a Comunicação Social no Instituto de Ciências Sociais e Políticas e entrei. Não era um curso de Jornalismo, mas também não era preciso ser, que a prática jornalística apanha–se depois, no terreno. Eu chamo ao meu curso um Curso de Cultura Geral muito Aprofundada com muita Economia, muito Direito, muita História, muito Direito Constitucional…

Mas também já escreve livros.

Comecei a sentir necessidade de escrever para sistematizar o que dizia, porque às tantas dizia uma determinada coisa e depois outra, que não era diferente da primeira mas era um outro ângulo. Escrevi o primeiro livro – “O Meu Programa de Governo” – e depois escrevi este, para enquadrar o pensamento. Porque há pessoas que me vêem por critério partidário, e então dizem: “Lá está este tipo a defender o governo.” Depois vêm os do governo que acham que sou de esquerda quando falo da Segurança Social e digo “nem pensar no plafonamento da Segurança Social”, ou quando falo dos cheques do Estado para o sector privado na educação. Portanto isto é complexo [risos].

O que quer fazer no futuro?

Quero ser jornalista e continuar a escrever uns livros para continuar a partilhar aquilo que acho que sei. Quero ser um cidadão que ajude a desbloquear este país. E depois, quando chegar ao fim da vida, pensar que contribui um bocadinho. Pelo menos que as pessoas tenham ficado a saber um bocadinho mais. Sentir-me-ei realizado.

Está preparado para o dia em que a popularidade acabar?

Absolutamente! Preparadíssimo. Eu gosto tanto de ir à minha aldeia, onde as pessoas já me conhecem, e falar sobre coisas triviais: sobre o tempo, sobre as culturas…

Quem é que o inspira?

[Silêncio.] Aqui há uns anos encontrei um senhor muito velhinho, belga, que ia num avião comigo para Dakar. Íamos lado a lado. O senhor ofereceu-me um livro de orações que apreciei muito – não sendo propriamente um católico que vá sempre à missa, respeito muito e sou católico -, agradeci e perguntei-lhe para onde ia. “Vou para Tambacounda”, que é uma cidadezinha perto do Senegal. “Vou vender a minha casa.” Vai vender a sua casa? “Vou. Sou missionário, tenho uma casa lá mas agora já não consigo ajudar os meus semelhantes.” O senhor estava de facto muito debilitado e ia vender a casa para depois distribuir o dinheiro pelos seus semelhantes, pelas obras que iam ser continuadas por outros. Era um senhor muito humilde, sem projecção pública, ninguém o conhecia. E eu fiquei a pensar: Realmente há seres maravilhosos neste mundo. Eu sei que isto parece contraditório, porque eu tenho muita exposição. Mas cada um contribui à sua maneira. Se calhar eu contribuo através da exposição que tenho.

Acredita na igualdade?

Acredito na necessidade de a política atribuir iguais oportunidades. Não somos iguais, de modo nenhum. As pessoas são radicalmente diferentes: uns nascem com mais destreza física e mental que outros; uns com mais capacidade de ver o conjunto, outros com mais capacidade de ver o detalhe; uns com mais capacidade de trabalhar numa empresa e aturar chefes e hierarquias e outros muito mais criativos e que se dão muito mal em empresas, mas depois criam por si sós. Somos todos diferentes, não há hipótese. No ser humano a origem animal está muito presente – nascemos egoístas, nascemos selvagens, com instintos destrutivos, anti-sociais… isso tem de ser educado. E essa educação nunca chega ao fim. A organização social e política melhor é aquela que interpreta esse egoísmo para o pôr ao serviço da sociedade. Aproveitando o egoísmo, a ganância, a ambição para produzir riqueza. Liberalismo a sério. Com regras claras e a possibilidade de todos concorrerem. Depois o que tem de existir é uma distribuição com sistemas de democracia cristã, social–democracia, socialismo moderado, até comunismo, desde que integrado em coligações. Todas essas formas de distribuição são legítimas e úteis à sociedade.

Então não há nada a fazer? Somos mesmo desiguais.

Somos. Temos é de aproveitar essa desigualdade para favorecer os que têm menos capacidades. E claro que os estados e as organizações sociais devem ser orientados para dar oportunidades minimamente equivalentes, para que aqueles que não tendo tido aquilo que é o adquirido – educação, meios económicos, computadores para trabalhar – tenham condições para florescer. Se depois provarem que são bons, tanto melhor. Que ultrapassem os que nasceram ricos.

Essa é uma das questões que aborda no novo livro…

A história é a de uma pessoa da classe média que tinha possibilidade de comprar uma boa garrafa de vinho para celebrar com os amigos no fim-de-semana e deixa de poder fazê-lo. E a mulher deixa de poder ter acesso aos produtos de cosmética de que tanto gosta e aos quais toda a gente deveria ter direito, na verdade. É um ponto de partida para dizer que isto toca a vida das pessoas e não é preciso começar pela figura do desempregado, porque isso era demasiado óbvio, um cliché. Essas situações existem, são referidas no livro. Mas tentei pegar numa pessoa da classe média, de um bairro normal, da periferia.

Para as pessoas perceberem que isto acontece em todas as casas?

Tal e qual. No fundo é uma obra que parte desse ponto de vista para depois evoluir para aquilo que é a luta política, para o ‘afinal a austeridade resultou ou não?’. Porque há uns que dizem que resultou, outros dizem que não resultou e a minha resposta é: é óbvio que resultou no que diz respeito ao aspecto financeiro da vida do Estado, porque senão não estávamos em condições de ter acesso ao mercado com juros mais baixos. Se não tivéssemos feito o trabalho de casa isso não acontecia. Do ponto de vista financeiro e das contas do Estado a austeridade resultou: reduziu despesa e permitiu voltar ao mercado. Não resultou naquilo que são os maiores constrangimentos do país. Continuamos a pagar muito a lóbis que nos escravizam, a pagar preços exagerados de produtos de bens e serviços, a ter de sustentar um Estado que é insustentável, o que tem um efeito duplamente pernicioso: pagamos muito e temos em troca serviços a menos.

Aponta dedos a vários governos e governantes. Acha que são corruptos?

Em pequena escala sim. Há um problema com a política que é estarem desfocados. Fazem muitas sardinhadas e muitas febras assadas, andam nesses eventos, mas não sabem o que é o país. Vão lá mas querem voltar rapidamente para o conforto do ar condicionado. Não sabem o que é pagar salários ao fim do mês. Não sabem o que é ter dificuldade em arranjar dinheiro para a Segurança Social, para o fisco, para os fornecedores e por aí fora. E isso é um drama. Porque se soubessem mudavam as leis.

Nós, portugueses, somos bons.

Somos muito bons. Os portugueses quando querem são focados. E não é só lá fora. Há muita gente que trabalha muito bem, com método, com eficiência, com altos níveis de produtividade e de qualidade no nosso pais. Só que têm de fazer o dobro, ou o triplo do esforço dos seus colegas alemães ou austríacos para ter os mesmos objectivos.

Somos pouco corajosos para mudar?

Sim. Temos pouca coragem para resolver os problemas e muito desfocados em relação às prioridades. Por isso é que a revolução de cidadania tem de começar em cada um de nós. É que gritamos muito no café e no grupo de amigos, mas quando se passa para aquilo que é protestar veementemente contra coisas que efectivamente nos prejudicam não vejo ninguém.

Temos de fazer implodir o sistema para reconstruir do zero?

Tal e qual. É que se não fizermos essa renovação completa do nosso edifício legislativo nas várias áreas, e o edifício legislativo por excelência, a AR, se não fizermos esta mudança, é como aquele princípio das placas tectónicas que estão sob pressão. Se não houver libertação de energia, parte de repente. O que é que isso quer dizer? Tumultos, violência, vítima nas ruas. Ninguém quer isso. Isso era uma desgraça. E portanto o regime tem de abrir. Permitir outras ideias e vozes, independentes. Perceber que o exercício da política tem de ser focado no que interessa, que é desbloquear a economia. Para a sociedade poder ter bases para funcionar melhor. É uma tarefa gigantesca, mas acho que seremos capazes.

É uma das pessoas mais ouvidas em Portugal nos últimos anos.

Ouvidas e criticadas. Já tenho uns críticos profissionais [risos].

Estava à espera deste boom de popularidade?

Não quero parecer imodesto, e ninguém se deve pôr acima do que verdadeiramente é. Mas há uma percepção do que digo ou do que tenho dito nos últimos anos que deriva do facto de as pessoas estarem mais preocupadas. Porque o meu trabalho sempre existiu, e sempre tive o mesmo nível de intervenção. Se calhar em quantidade até tive alturas com mais actividade. Recordo sempre o período entre 2000 e 2001, em que falava sobre os problemas do país em directo, entrevistava políticos, especialistas, falava, perguntava… Nessa altura havia uma questão sociológica muito interessante e ao mesmo tempo muito complicada: há alturas em que os povos não querem ouvir. Não querem saber. E esse momento resultou no incumprimento do défice, depois na mudança de governação.

Foi o que aconteceu nessa altura?

Entrou um governo socialista a prometer que ia combater o défice. E ressurgiu uma esperança. Legítima. Todos nós tínhamos uma esperança. No final de 2006, início de 2007, já havia demasiados sinais de que se queria reduzir o défice mas a prática era favorecer amigos. Não há outra forma de dizer isto. Favorecer amigos e fazer despesa fora dos balanços do Estado. Os bancos sabiam, a União Europeia sabia, toda a gente sabia. E alguns jornalistas começaram a dizer “isto não pode ser, isto vai dar mau resultado”. Eu, pessoalmente, disse muitas vezes em 2007 que ia haver uma tragédia com a Estradas de Portugal.

Mas não me respondeu. Convive bem com essa popularidade?

Sim, convivo bem. Tanto com as pessoas que elogiam como com as que criticam. Vivo bem com isso porque sou um cidadão do país, que tem de andar na rua, e isso dá-me muito prazer. Aliás, a história do livro “Carta a Um Bom Português” começa precisamente no supermercado, porque eu gosto de lá ir. Gosto de ver as pessoas. Não posso andar escondido [risos].

As escolas de jornalismo ensinam que o jornalista não deve fazer opinião. A sua opinião é contrária?

Acho que não tem mal nenhum. Só acho que a separação do exercício tem de ser clara. Eu faço notícias. De vez em quando tenho informação e escrevo notícias ali na redacção ao lado dos meus colegas. Notícias simples. Não ponho lá opinião. Depois posso fazer uma análise que implica ligar factos, calcular intenções que há por trás e transformar isso em opinião.

É um dever do jornalista?

É, uma vez que, sobretudo para julgamento exterior, os jornalistas são tidos como tendo mais informação. É um dever porque as pessoas não só não têm tempo, como muitas vezes não têm bases para fazer esse trabalho. E não têm culpa disso. Não têm acesso a meios de informação. Nós somos pagos para isto. Eu também faço o exercício da notícia pura e simples; o exercício da entrevista também o faço – e aí sinto mais dificuldade em fazer entrevistas e evitar dar opinião. Às vezes não resisto e dou mesmo. Há pessoas que às vezes acham que isso já é passar uma fronteira, e eu compreendo. Mas a verdade é que as pessoas já estão à espera que eu faça isto, já é legítimo.

É tudo uma questão de fixar bem os limites.

Esses exercícios são legítimos e mais do que isso são úteis, as pessoas precisam deles. Porque chegámos a um ponto em que o próprio exercício da política está desacreditado, e não estou a dizer nada de novo. É um facto traduzido em abstenção. As pessoas precisam de alguém que as ajude a entender as coisas. Se me disseres “ah, mas o jornalista para fazer uma carreira não devia transpor essa barreira”, eu respondo “há jornalismo e jornalismo. Há jornalistas e jornalistas”. Se eu na minha opinião usar factos verídicos, põe-se apenas uma questão de selecção: “pois, mas só seleccionou os factos que quis”. Optei. Eu sou pago para optar. Não tenho a verdade absoluta, longe de mim, mas penso que tenho opiniões que são úteis para algumas pessoas, pelo menos para as que me ouvem [risos].

É formado em Comunicação Social, mas apaixonou-se pelos números.

Sempre vi, desde pequeno, os políticos dizerem coisas e o seu contrário no espaço de pouco tempo. Sempre vi formarem-se opiniões com base em estados de espírito. Em política é terrível: vejo colegas da área política serem desmentidos constantemente quando aquela produção de informação foi verdade, muitas vezes dada a coberto de anonimato das fontes, e depois são desmentidos, sobretudo na imprensa escrita, onde os jornalistas funcionam mais com fontes.

Os números funcionam como uma âncora, uma segurança?

São referências mais concretas, embora possam ser utilizados de diferentes maneiras. Digamos que numa escala de objectividade não há objectividade 100% pura nem há subjectividade a 100% – excepto no caso dos artistas, nas telas e na música [risos]. O discurso político é muito menos objectivável que o discurso económico. Dou-te o exemplo da discussão sobre o desemprego: a esquerda tem razão quando diz que o desemprego baixou porque houve gente que se foi embora e não está à procura de emprego. Porque emigrou ou porque desistiu ou porque estão ocupados com cursos de formação. Agora os 14% de desemprego de hoje que contrastam com os 17% de há uns anos foram calculados na mesma base… a esquerda não pode desmentir que o desemprego desceu. São coisas objectivas.

Difíceis de contrariar.

Sim. E portanto eu gosto dessa área. De perceber como se chegou a um certo ponto e tentar perceber como se pode evoluir para uma situação melhor.

É um workaholic?

Sim. A família queixa-se, mas sim.

E a família ajuda-o a escrever estes livros, a pensar?

Oiço a minha mulher, as minhas filhas… dou muita importância ao senso comum. Porque são as pessoas para quem falo. Às vezes resolviam-se problemas tão fáceis na economia e na política se se seguisse o senso comum. Tudo o que aconteceu com a banca… senso comum.

Quer influenciar a política?

Sim, decididamente.

Há uma petição pública chamada “José Gomes Ferreira a primeiro-ministro”. Gostava de ter um cargo político?

Neste quadro político partidário, jurídico-constitucional, não. Não vale a pena! Prefiro ter uma voz absolutamente desligada de qualquer projecto partidário e de qualquer projecto de poder, porque não vale a pena. Primeiro precisamos de ser todos nós cidadãos para desbloquear isto tudo.

Como é que se “desbloqueia” isto tudo?

Só há uma forma, introduzindo concorrência na economia, e isso não se consegue sem se introduzir concorrência no parlamento. Com independentes a gritar alto e bom som “vocês não estão a fazer o vosso trabalho”. É preciso alterar o sistema eleitoral, partidário, e mudar as regras da democracia, integrando as vozes de quem não está contente com o sistema. É por isso que temos tido esta abstenção!

Temos de ir para a rua gritar?

Por mim, acho que todos os empresários deste país, que nunca vejo a gritar na rua “deixem-nos trabalhar”, deviam juntar-se e fazer uma manifestação. Deviam. E dizer aos políticos “desculpem lá, ou nos deixam trabalhar ou vocês morrem todos e nós também”. Nada de violência. O mínimo de agressividade. Imagino o que seria a Avenida da Liberdade cheia de empresários em silêncio, cada um com um cartaz a dizer: “Eu tinha dez postos de trabalho para criar mas a burocracia não me deixa. Eu tinha 15 postos de trabalho para criar e os ministérios não me deixam”. Se desfilarem em silêncio pelas ruas de Lisboa em direcção ao parlamento, nesse dia alguma coisa muda.

E nesse contexto? Consideraria entrar para política?

Num momento seguinte, permitindo-se concorrência no parlamento, com independentes, se houver um projecto independente – não serei eu a liderá-lo! – é que há um problema. Eu sou jornalista e não quero ser político. Não quero ser um líder político que faça um projecto para assumir o poder e liderar o país. Não é nada disso. Primeiro temos de desbloquear a forma como funciona a política, porque está mal. Depois, se aparecer um projecto independente, com pessoas credíveis do ponto de vista técnico, e com vontade de governar olhando ao interesse do país e não olhando a ideologias e se me disseram “precisamos de ti”, no futuro poderei pensar duas vezes e dizer “sim senhor”. Mas nunca nesta conjuntura político-partidária e nunca em algum dos partidos actuais. Nunca!

Admite vir a ser deputado?

Lá está. No tal quadro não vou dizer que não. Têm é de ser de independentes. Ou se achar que tenho alguma competência em termos de ajuda… não do ponto de vista técnico, que eu não sou economista! É do ponto de vista da análise de razoabilidade de alguns pontos de vista, tendências económicas, ligação entre empresários e a massa que são as populações e aquilo que é a relação com exterior. Se aparecer algum projecto ou algum convite, não nego.

Nasceu em Tomar, onde não havia televisão, o que não deixa de ser curioso.

Até 1978 não houve televisão. Até aos meus 14 anos.

Telefonou aos seus pais a primeira vez que apareceu na televisão?

Não! Não teria essa imodéstia [risos]. Sabes que quando a pessoa aparece na televisão a primeira vez, ou das primeiras vezes, as pessoas que a conhecem não ouvem. É o princípio da comunicação. Hoje em dia há famílias que me conhecem e às vezes dizem-me: “Vi-te na televisão.” E eu pergunto “então e o que é que eu disse?”, e a resposta é “Ah, não tomei atenção”. E a regra é esta [risos]. Às vezes, não sempre!

Vem de uma família humilde e trabalhava com os seus pais nos campos. Isso ajudou-o?

É bom ter um bocadinho de experiência de vida de tudo o que é menos bom, mais difícil, de uma infância em que não havia muitas comodidades nem muitas facilidades – mas atenção que nunca passei fome. Os meus pais sempre trabalharam muito para termos o que precisávamos, mas não havia comodidades nem aqueles mimos de quem vive na cidade.

Ajuda-o a sentir-se mais próximo das pessoas?

Talvez facilite a empatia de nos pormos no lugar do outro, que é mais pobre, que não tem meios, que perdeu o emprego, que vive em meios mais desfavorecidos. Acho que não é imodéstia dizer que tenho essa facilidade, de ter essa empatia. Tento sempre ver as coisas do lado de quem está a partir do zero para ter coisas, porque também é o meu percurso. Acho que isso dá bagagem para poder pensar a política e a organização da sociedade tendo em atenção essas pessoas. Porque às vezes vejo a política centrada na protecção dos direitos, e depois a protecção dos direitos são sempre os dos mesmos: uma classe média ou média-alta, das cidades, intelectual ou ligada ao intelectual…

Sempre quis ser jornalista?

Por acaso, no início pensei em ser escritor. Gostava muito de ler. Li as obras quase todas de Dostoievsky, Sartre, Camus… por aí fora. Li muito na minha juventude – tinha amigos que estudavam em Tomar ou em Lisboa e estava sempre a pedir- -lhes livros. Só que na altura não conseguia perceber verdadeiramente tudo o que lia, e portanto mais tarde acabei a redescobrir muita coisa. Enfim. Mas queria ser escritor. Ainda hoje tenho o sonho de escrever ficção. E história. Adoro história. Mas não na perspectiva do cientista, na do divulgador. Fazer uma carta aberta aos portugueses a explicar porque é que a história é muito maior do que se diz. Escrever uma carta aos portugueses sobre “A tua história foi muito maior do que te dizem”, por exemplo. É que nós somos mesmo bons.

Como percebeu que queria ser jornalista?

Por aproximação. Ganhar a vida como escritor logo no início era difícil. E depois ganhei o gosto, obviamente. Fiz jornalismo ainda no 12.o ano. Quando acabei o 12.o ano candidatei-me a Comunicação Social no Instituto de Ciências Sociais e Políticas e entrei. Não era um curso de Jornalismo, mas também não era preciso ser, que a prática jornalística apanha–se depois, no terreno. Eu chamo ao meu curso um Curso de Cultura Geral muito Aprofundada com muita Economia, muito Direito, muita História, muito Direito Constitucional…

Mas também já escreve livros.

Comecei a sentir necessidade de escrever para sistematizar o que dizia, porque às tantas dizia uma determinada coisa e depois outra, que não era diferente da primeira mas era um outro ângulo. Escrevi o primeiro livro – “O Meu Programa de Governo” – e depois escrevi este, para enquadrar o pensamento. Porque há pessoas que me vêem por critério partidário, e então dizem: “Lá está este tipo a defender o governo.” Depois vêm os do governo que acham que sou de esquerda quando falo da Segurança Social e digo “nem pensar no plafonamento da Segurança Social”, ou quando falo dos cheques do Estado para o sector privado na educação. Portanto isto é complexo [risos].

O que quer fazer no futuro?

Quero ser jornalista e continuar a escrever uns livros para continuar a partilhar aquilo que acho que sei. Quero ser um cidadão que ajude a desbloquear este país. E depois, quando chegar ao fim da vida, pensar que contribui um bocadinho. Pelo menos que as pessoas tenham ficado a saber um bocadinho mais. Sentir-me-ei realizado.

Está preparado para o dia em que a popularidade acabar?

Absolutamente! Preparadíssimo. Eu gosto tanto de ir à minha aldeia, onde as pessoas já me conhecem, e falar sobre coisas triviais: sobre o tempo, sobre as culturas…

Quem é que o inspira?

[Silêncio.] Aqui há uns anos encontrei um senhor muito velhinho, belga, que ia num avião comigo para Dakar. Íamos lado a lado. O senhor ofereceu-me um livro de orações que apreciei muito – não sendo propriamente um católico que vá sempre à missa, respeito muito e sou católico -, agradeci e perguntei-lhe para onde ia. “Vou para Tambacounda”, que é uma cidadezinha perto do Senegal. “Vou vender a minha casa.” Vai vender a sua casa? “Vou. Sou missionário, tenho uma casa lá mas agora já não consigo ajudar os meus semelhantes.” O senhor estava de facto muito debilitado e ia vender a casa para depois distribuir o dinheiro pelos seus semelhantes, pelas obras que iam ser continuadas por outros. Era um senhor muito humilde, sem projecção pública, ninguém o conhecia. E eu fiquei a pensar: Realmente há seres maravilhosos neste mundo. Eu sei que isto parece contraditório, porque eu tenho muita exposição. Mas cada um contribui à sua maneira. Se calhar eu contribuo através da exposição que tenho.

Acredita na igualdade?

Acredito na necessidade de a política atribuir iguais oportunidades. Não somos iguais, de modo nenhum. As pessoas são radicalmente diferentes: uns nascem com mais destreza física e mental que outros; uns com mais capacidade de ver o conjunto, outros com mais capacidade de ver o detalhe; uns com mais capacidade de trabalhar numa empresa e aturar chefes e hierarquias e outros muito mais criativos e que se dão muito mal em empresas, mas depois criam por si sós. Somos todos diferentes, não há hipótese. No ser humano a origem animal está muito presente – nascemos egoístas, nascemos selvagens, com instintos destrutivos, anti-sociais… isso tem de ser educado. E essa educação nunca chega ao fim. A organização social e política melhor é aquela que interpreta esse egoísmo para o pôr ao serviço da sociedade. Aproveitando o egoísmo, a ganância, a ambição para produzir riqueza. Liberalismo a sério. Com regras claras e a possibilidade de todos concorrerem. Depois o que tem de existir é uma distribuição com sistemas de democracia cristã, social–democracia, socialismo moderado, até comunismo, desde que integrado em coligações. Todas essas formas de distribuição são legítimas e úteis à sociedade.

Então não há nada a fazer? Somos mesmo desiguais.

Somos. Temos é de aproveitar essa desigualdade para favorecer os que têm menos capacidades. E claro que os estados e as organizações sociais devem ser orientados para dar oportunidades minimamente equivalentes, para que aqueles que não tendo tido aquilo que é o adquirido – educação, meios económicos, computadores para trabalhar – tenham condições para florescer. Se depois provarem que são bons, tanto melhor. Que ultrapassem os que nasceram ricos.

Essa é uma das questões que aborda no novo livro…

A história é a de uma pessoa da classe média que tinha possibilidade de comprar uma boa garrafa de vinho para celebrar com os amigos no fim-de-semana e deixa de poder fazê-lo. E a mulher deixa de poder ter acesso aos produtos de cosmética de que tanto gosta e aos quais toda a gente deveria ter direito, na verdade. É um ponto de partida para dizer que isto toca a vida das pessoas e não é preciso começar pela figura do desempregado, porque isso era demasiado óbvio, um cliché. Essas situações existem, são referidas no livro. Mas tentei pegar numa pessoa da classe média, de um bairro normal, da periferia.

Para as pessoas perceberem que isto acontece em todas as casas?

Tal e qual. No fundo é uma obra que parte desse ponto de vista para depois evoluir para aquilo que é a luta política, para o ‘afinal a austeridade resultou ou não?’. Porque há uns que dizem que resultou, outros dizem que não resultou e a minha resposta é: é óbvio que resultou no que diz respeito ao aspecto financeiro da vida do Estado, porque senão não estávamos em condições de ter acesso ao mercado com juros mais baixos. Se não tivéssemos feito o trabalho de casa isso não acontecia. Do ponto de vista financeiro e das contas do Estado a austeridade resultou: reduziu despesa e permitiu voltar ao mercado. Não resultou naquilo que são os maiores constrangimentos do país. Continuamos a pagar muito a lóbis que nos escravizam, a pagar preços exagerados de produtos de bens e serviços, a ter de sustentar um Estado que é insustentável, o que tem um efeito duplamente pernicioso: pagamos muito e temos em troca serviços a menos.

Aponta dedos a vários governos e governantes. Acha que são corruptos?

Em pequena escala sim. Há um problema com a política que é estarem desfocados. Fazem muitas sardinhadas e muitas febras assadas, andam nesses eventos, mas não sabem o que é o país. Vão lá mas querem voltar rapidamente para o conforto do ar condicionado. Não sabem o que é pagar salários ao fim do mês. Não sabem o que é ter dificuldade em arranjar dinheiro para a Segurança Social, para o fisco, para os fornecedores e por aí fora. E isso é um drama. Porque se soubessem mudavam as leis.

Nós, portugueses, somos bons.

Somos muito bons. Os portugueses quando querem são focados. E não é só lá fora. Há muita gente que trabalha muito bem, com método, com eficiência, com altos níveis de produtividade e de qualidade no nosso pais. Só que têm de fazer o dobro, ou o triplo do esforço dos seus colegas alemães ou austríacos para ter os mesmos objectivos.

Somos pouco corajosos para mudar?

Sim. Temos pouca coragem para resolver os problemas e muito desfocados em relação às prioridades. Por isso é que a revolução de cidadania tem de começar em cada um de nós. É que gritamos muito no café e no grupo de amigos, mas quando se passa para aquilo que é protestar veementemente contra coisas que efectivamente nos prejudicam não vejo ninguém.

Temos de fazer implodir o sistema para reconstruir do zero?

Tal e qual. É que se não fizermos essa renovação completa do nosso edifício legislativo nas várias áreas, e o edifício legislativo por excelência, a AR, se não fizermos esta mudança, é como aquele princípio das placas tectónicas que estão sob pressão. Se não houver libertação de energia, parte de repente. O que é que isso quer dizer? Tumultos, violência, vítima nas ruas. Ninguém quer isso. Isso era uma desgraça. E portanto o regime tem de abrir. Permitir outras ideias e vozes, independentes. Perceber que o exercício da política tem de ser focado no que interessa, que é desbloquear a economia. Para a sociedade poder ter bases para funcionar melhor. É uma tarefa gigantesca, mas acho que seremos capazes.”

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