Ainda ontem

Miguel Esteves Cardoso

 

Gosto da maneira como a chuva de meados de Junho limpa o ar, com um cheiro de terra quente e molhada que é tão diferente do cheiro do mar nas praias que me lembra que ambos têm uma mesma, difícil beleza.
Calor e frio; sol e nuvens;
água e terra: não são tantas as variantes como pensamos. Em Portugal cada dia é tão diferente do anterior e do posterior que fi camos a acreditar que há 365 (ou 356) estações do ano por ano. Na ilha de São Miguel, que faz parte dos Açores, há quatro estações do ano por dia. Tudo depende tanto da hora como do minuto.
Tem sido — e vai continuar a ser a ser — esquisito este mês de Junho. É o mês em que a minha querida fi lha Sara vai casar. As alegrias que têm vindo dela e da irmã Tristana têm-me salvado. Olho para as nuvens e para as espumas das marés e compreendo que esta Primavera quer morrer bem, mostrando-nos tudo do que é capaz. A única coisa que é certa é fazerem questão de nos confundirem no que toca a todos os esquemas com que procurávamos prevê-la. O calor esperado não chega mas, em contrapartida, o frio medonho que ainda não conseguimos esquecer ainda nos molha e entorpece os ossos.
O tempo é desleal. Qualquer tempo é. Qualquer clima e qualquer hora são ou acabarão por ser desleais. Tanto faz falar de épocas, culturas e mentalidades.
O dia de amanhã será diferente. Há-de precipitar-nos para um passado há muito preterido e desejado.
Mas será a lealdade do tempo e do casamento que nos ligarão. Para sempre.

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