Como a cachaça nos explica a Grécia [1]

Não desfazendo, nos anos 1960, estudei no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, ISCEF, mais tarde ISE, pátria dos economistas e financeiros nacionais. Reconheço, não fui duns nem doutros. Cerca de meio século depois, a seguir à grande crise do subprime (sofrer uma crise tremenda e ela chamar-se sub…), acabei finalmente o curso. Isto é, juntei todos os créditos e equivalências da vida e concluí para mim mesmo o essencial: de economia, percebo o mesmo que os meus doutorados colegas. Nada. Não deu direito a diploma, mas não queiram saber o raro que é a consciência desse nada.

Trago-a sempre ligada, a tal consciência, o que me tem permitido o grito como ele deve ser: “Quase nunca é economia, stupid!” Isso tem-me livrado de fracas figuras. Posso não abrir o Financial Times no metro, mas sobre a grande crise financeira do século li as duas obras fundamentais. A primeira, logo em 2008, A Crise do Subprime e a Cachaça, do professor J. Unknown, da cuidada editora Net. Resumo a obra no parágrafo seguinte.

Num bar, o taberneiro, já que os clientes, bêbados e desempregados, não lhe pagavam, decidiu dobrar o preço da cachaça. Esta era sempre servida e as dívidas assentadas no livro dos calotes. Quando o taberneiro teve de encomendar mais cachaça, foi ao banco pedir dinheiro. O gerente considerou os calotes um ativo e emprestou. Até perguntou se o taberneiro queria mais. Queria, o negócio escorregava tão bem como mata-bicho pela garganta. O gerente foi promovido por incentivar um negócio cujo produto não só dobrara o preço mas triplicara as vendas. Os superiores do banco receberam mais-valias, merecidas por terem gerentes que alavancavam o mercado de capitais… Um dia, porém, suspeitou-se de que os bêbados e desempregados nunca pagariam as dívidas. Faliu o bar. Despediu–se parte do pessoal do banco. E os administradores tiveram de inventar outra coisa para ganhar mais-valias. E eu percebi a crise do subprime.

Não vou mentir-vos, já antes eu andara a estudar o assunto. Gosto de estudar deitado no sofá, olhar o teto e ouvir Chico Buarque cantar. Ele cantou O Malandro. Cachaça, outra vez. Se calhar, ela tem mais importância para o mundo financeiro do que as tulipas na bolsa de Amesterdão. A cachaça atravessa a canção, do galego que a vende ao camionista que a transporta, até ao usineiro que a destila – passando pelo banco que a subsidia. Um dia, a crise: “A cachaça tá parada/ Rejeitada no barril/ O alambique tem chilique/ Contra o Banco do Brasil.” Todos se vão safando das culpas e das despesas, até ao último da cadeia alimentar, o malandro que quer beber e não tem com que pagar. Mas é o único que pagou, ficou sem cachaça. Vivia acima das suas possibilidades. Chico Buarque cantou isto em 1978. Trinta anos depois, com o subprime, outros malandros ficaram sem casa nem emprego.

A segunda obra fundamental sobre esses magnos mistérios li-a em 2009. O título era Lição de Economia e vinha contada por Jacques Attali, na edição francesa da revista online Slate. Attali é um consultor que se encostou a François Mitterrand e voou depois propulsado por um saudável cinismo. Ele citava uma história que me pareceu também inventada pelo professor J. Unknown (o da cachaça), e também da Net. Segue a história.

Uma aldeia turística estava em crise e sem turistas. Na aldeia, toda a gente pedia emprestado a toda a gente. Enfim, chegou um turista ao hotel. Quis um quarto, subiu para o ver mas deixou uma caução de 100 euros. Com a nota na mão, o dono do hotel correu ao talho e pagou a dívida de 100 euros que tinha pelos bifes. O talhante correu ao agricultor e pagou os 100 euros pela carne de vaca que o outro vendera. O agricultor correu à prostituta que frequentava e pagou-lhe os 100 euros de passados serviços. A prostituta correu ao hotel e pagou os quartos que usara. Nesse momento, o turista descia. Ele não quis ficar com o quarto e recuperou a nota. Partiu e deixou uma aldeia sem dívidas e sem crise.

Sobre este texto, Jacques Attali escreveu: “É talvez assim que a economia deve ser ensinada.” Com Lição de Economia e A Crise do Subprime e a Cachaça uma coisa lhes devo: ninguém me viu perorar doutamente sobre a “inevitável” saída da Grécia da zona euro e do regresso à dracma. Se essas questões financeiras podem ser tão simples, como é possível que elas tenham prioridade sobre um facto maior: o mapa da Grécia. Essa Lua estava ali, prestes a despenhar-se, e os tolos olhavam para dedos a contar notas… Nos últimos 15 dias tenho várias crónicas, aqui, a dizer (até em título): a Grécia fica. Como podia ser outra coisa? Quer dizer, podia, mas tinha de ser no gabinete ao lado, nas consultas de psiquiatria


[1] Opinião inserta na última página do Diário de Notícias de 11 de julho 2015.

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