Longe dos holofotes dos mercados, a Finlândia vive uma crise profunda

Já lá vão três anos seguidos de quebras no PIB e 2015 deverá ser o quarto. Crise é estrutural e sem fim à vista.

Em 2011, os portugueses tiveram oportunidade de assistir a um vídeo da Finlândia – em resposta a outro que Portugal já tinha feito, em que os finlandeses diziam que iam abster-se de gozar com a situação da economia nacional, embora pudessem fazê-lo. Em boa hora não o fizeram. Quatro anos depois, a economia nórdica mergulhou numa crise estrutural sem fim à vista e não está em posição de gozar com ninguém.

A crise de dívida e o consequente caminho da austeridade atiraram a zona euro para uma crise que teve o pico nos dois anos de recessão de 2012 e 2013. Os holofotes estiveram sempre virados para os países gastadores do sul da Europa, obrigados a resgates da ‘troika’ e grandes responsáveis pela frágil situação da moeda única. Mas, durante esse período, sem que se olhasse muito para lá, houve outros Estados-membro mais a Norte que também começaram a enfrentar dificuldades. A Finlândia foi um deles e é também o mais problemático, devido ao carácter estrutural da crise.

A zona euro já começou a recuperar e até os países resgatados começam a ver a luz ao fundo do túnel. A economia finlandesa, pelo contrário, foi das poucas da moeda única ainda em recessão em 2014 e, em 2015, prepara-se para o quarto ano consecutivo de quebras no PIB.

Depois da queda de 0,4% no ano passado, o governo finlandês previa que a economia crescesse uns tímidos 0,3% este ano. Mas já lá vão seis meses e o PIB continua a cair: depois dos -0,2% do primeiro trimestre, a estimativa para o segundo aponta para -0,4%, um mau sinal para o que falta do ano. “As perspectivas não são boas. Os números do segundo trimestre são ainda uma estimativa rápida que pode exagerar um pouco a queda. Mas, mesmo assim, não espero uma mudança rápida de direcção na economia. Este ano será, provavelmente, o quarto consecutivo de recessão”, diz Pasi Sorjonen, economista-chefe do Nordea, o maior banco da região nórdica.

O desemprego na Finlândia ainda está longe do recorde de 25% de Espanha e Grécia, mas ficou próximo de 9% no ano passado e continuou a subir nos primeiros seis meses de 2015. “Fomos atingidos por vários choques ao mesmo tempo. Há poucos países na Europa – se é que há algum – que tenham sofrido os mesmos choques”, considera Erkki Liikanen, o governador do banco central do país, numa conversa com o “Financial Times”.

Os afundamentos da Nokia e da indústria florestal, os dois maiores motores da economia, agravaram ainda mais os problemas no mercado de trabalho. O ministro das Finanças, Alexander Stubb, fala numa “década perdida” e economistas da região prevêem início de depressão mais grave do que aquela que o país viveu na década de 90.

“Começou com uma combinação da crise financeira de 2008 e da crise europeia, agravadas pelos problemas da Nokia e da floresta”, afirma Sorjonen. “Depois do colapso da Nokia, a economia já não é o que era. O PIB tem estado permanentemente a um nível mais baixo e o potencial de crescimento é muito inferior”, acrescenta, sublinhando que a crise “não é uma questão de ciclo económico, é mesmo estrutural e a recuperação só chegará com reformas estruturais”.
As consequências políticas estão à vista: muitos finlandeses culpam o euro do declínio do país e, nas eleições de Abril, o partido anti-europeu “Finlandeses” foi o segundo mais votado e acabou por ir parar ao actual governo de coligação.

As agências de ‘rating’ também começam a reconhecer o problema e, este ano, a Standard & Poor’s tornou-se a primeira a retirar a notação máxima de ‘AAA’ à Finlândia. Até porque os problemas económicos começam a ter impacto nas contas públicas: o défice passou o limite de 3% do PIB no ano passado e este ano deverá ficar em 3,3%, colocando Helsínquia sobre os Procedimentos por Défices Excessivos da Comissão Europeia. “A despesa está construída sobre uma economia que já não existe. A nossa capacidade de cobrar impostos enfraqueceu e não consegue contrabalançar a elevada despesa pública”, admite o economista-chefe do Nordea.

A dívida pública também deve este ano romper o limite de Bruxelas, mas mantém-se próxima dos 60% do PIB. Noutra economia, poderia significar o recurso a estímulos. Na Finlândia, fiel defensora da teoria da austeridade alemã, isso é mais difícil. “É preciso cumprir o que se apregoa para os outros”, frisa Sorjonen, reconhecendo que o futuro próximo não parece risonho, porque o actual governo está a tentar cortar na despesa – depois do falhanço das subidas de impostos dos últimos anos -, mas os finlandeses estão a rejeitar o medicamento que, nos últimos anos, defenderam para o Sul da Europa.

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