Leitores e abelhas

Gosto de ler os livros de Alberto Manguel mas gosto mais do que ele diz sobre a leitura do que diz sobre os livros que lê. Manguel é um leitor interrompido pelos livros que tem de escrever. Melhor seria que apenas lesse e nada escrevesse. Ser um grande leitor é hoje mais raro do que ser um escritor assim-assim. O último New York Review of Books (datado 22.10.2015) vale pela recensão fascinantemente honesta de Michael Hofmann da tradução inglesa de Regina Ullman com o título The Country Road: Stories. O artigo entusiástico de Nathaniel Rich sobre o épico Alexander von Humboldt também é delicioso. O defeito de Alberto Manguel é o defeito dos verdadeiros leitores: aquilo que cita é sempre bom, mas aquilo que depois comenta não só é pior como parasitário. Manguel conta que um apicultor basco, que com as pessoas falava um castelhano agressivo, falava um basco doce com as abelhas. Ele conta que, quando morre um apicultor, é necessário outra pessoa ir às colmeias dizer que o apicultor não vai voltar. Isto é bom. Mas logo a seguir ele confi dencia que também gostaria que alguém fosse dizer aos livros da biblioteca dele que ele, Alberto Manguel, nunca mais vai voltar.  A analogia não funciona. É pretensiosa e parasita. As abelhas sabem o que os livros não podem saber. O que Manguel quer é alguém que tome conta da biblioteca dele. Muitos sortudos se candidatarão. Não é preciso avisar os livros. Os livros não são nada como as abelhas.

Miguel Esteves Cardoso – Publico

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