A ética republicana – Alberto Gonçalves – Sábado

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A ética republicana

O filho do filho de Mário Soares é um dos seis novíssimos “assessores em produção de eventos e gestão cultural” da vereadora da Educação da câmara de Lisboa e meio País levantou-se indignado. É o costume, e um costume tão absurdo quanto insinuar que o filho de Mário Soares tutela a “cultura” por favoritismo. Ninguém admite a hipótese de o rapaz ser um génio, ou no mínimo dos melhores assessores em produção de eventos e gestão cultural da capital, de Portugal e da Europa. Não, senhor: parte-se logo para a suspeita de nepotismo e, afinal, a típica demonstração de inveja.

Na cabeça do típico invejoso, cada descendente de políticos é um incapaz que apenas consegue emprego graças à influência familiar. Segundo essa alucinação, o filho de Jorge Sampaio só teria entrado nos quadros da PT por intervenção do paizinho. E o filho de António Guterres (também na PT). E a filha de Edite Estrela (igualmente na PT). E o filho de Teixeira dos Santos (na PT, imagine-se). E o filho de Marcelo Rebelo de Sousa (na PT, escusado acrescentar). E o filho do marechal Otelo Saraiva de Carvalho (por acaso na PT). E a filha de Jorge Sampaio (que estranhamente assessorou um ministro da Presidência e hoje não sei onde anda, embora aposte que anda pelo ramo das comunicações). E os filhos de inúmeras personagens secundárias, na maioria socialistas.

Felizmente, como a mentira, a má-língua tem perna curta (ao contrário da folha salarial da PT, que deve rivalizar com o Chile em comprimento). Qualquer pessoa bem formada, e sobretudo bem empregada, percebe que os petizes acima citados foram escolhidos em função da sua elevada competência. Ou alguém acredita que os partidos, o Estado e as empresas optimamente relacionadas com o Estado contratam de acordo com outros critérios?

Nada disto, porém, significa que não haja desigualdade de oportunidades. A questão é que o privilégio não se traduz em favores: traduz-se na educação recebida. É claro que crescer num lar por exemplo iluminado pela sabedoria do engº Guterres ou pela perspicácia da drª Edite não é o mesmo que descender de profissionais liberais ou de assalariados dos transitários – e mal posso esperar que o filho do dr. Costa termine a licenciatura em Direito. Há ali todo um refinamento e toda uma escola para o êxito que não existe no habitat dos simples. Mas, por muito que rosnem os invejosos, os filhos não têm culpa da bênção dinástica.

Nós é que temos duas ou três coisas a agradecer a esses jovens. Por mim, agradeço-lhes o altruísmo, que os levou a seguir o caminho paterno em vez de se refugiarem em trabalhos lucrativos e, passe o pleonasmo, desprovidos de interesse público. Agradeço-lhes o patriotismo, que os levou a permanecer por cá quando evidentemente podiam correr o planeta a espalhar talento nas actividades que quisessem. E agradeço-lhes, enfim, a disponibilidade para, um belo dia, cumprirem o destino e mandarem em nós com a lucidez revelada pelos antepassados. No fundo, dou graças pela ética republicana.

O BOM
Quase famosos
Depois da bancarrota e da austeridade, parece que a Irlanda cresceu quase 7% em 2015. Enquanto isso, no festivo Sul, Portugal prepara-se para nova bancarrota e maior austeridade. Não admira que o PM de lá nos dê como exemplo, um exemplo “terrível” (cito) a evitar a todo o custo. De uma transviada maneira, estamos a conseguir o que sempre quisemos: notoriedade. Não tarda, seremos tão famosos quanto a peçonha. Só é chato sermos igualmente desejáveis.

O MAU
O prestígio
Cavaco Silva, que agora condecorou Gaspar Castelo-Branco, assassinado há 30 anos pelas FP-25, não tem emenda. No seu tempo, Mário Soares amnistiou o terrorismo. E Jorge Sampaio condecorou dois terroristas encartados. Houve pois uma época em que o principal cargo do País estava bem entregue e era brilhantemente interpretado. O actual PR desprestigiou aquilo tudo. A menos que Marcelo desate a despejar comendas nos portugueses do Estado Islâmico, não será fácil recuperar o prestígio.

O VILÃO
Parem as máquinas!
Quem é a “favor” ou “contra” a eutanásia não sabe o que é a eutanásia. Ainda assim, o tema vai subir (?) ao parlamento por iniciativa da mesma sofisticada e ponderada gente que levou até si sucessos populares como a legalização do aborto, o casamento gay ou a adopção de crianças por casais homossexuais. Em questões assim ligeiras, o barulho entretém. A eutanásia, cuja complexidade é incompatível com fanáticos, não é uma questão ligeira. Não se entrega a fissão nuclear a cobradores da CP, sem ofensa para estes.

Luiz Boavida Carvalho

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