Muito bom!

José António Saraiva – Sempre lúcido

«Já se percebeu a tática: António Costa vocifera no Parlamento contra a direita, acusando-a de estar ‘feita com Bruxelas’ – e Mário Centeno diz em Bruxelas que Portugal continuará a ser um ‘bom aluno’ e a cumprir os seus compromissos.
António Costa diz aos militantes socialistas que o Orçamento era melhor antes das emendas impostas por Bruxelas – e Mário Centeno diz-se solidário com Bruxelas e com os seus critérios.
António Costa faz voz grossa para mostrar aos portugueses que travou um braço de ferro vitorioso com Bruxelas – e Mário Centeno esforça-se para que Bruxelas acredite nas boas intenções do Governo português.
António Costa usa Bruxelas para dizer ao PCP e ao BE que não pode fazer melhor – e Centeno usa o PCP e o BE para dizer a Bruxelas que é difícil fazer melhor.
António Costa faz de lobo, Mário Centeno faz de cordeiro.
Politicamente o jogo vai ser sempre este.
E das duas uma: ou o Governo consegue ir cumprindo o Orçamento e tudo pode continuar assim mais uns tempos, ou o Orçamento começa a resvalar, são precisas medidas adicionais, e aí o caldo começa a entornar Tenho as maiores dúvidas no cumprimento deste Orçamento do Estado, sobretudo por duas razões: pela fragilidade do ministro das Finanças e pela imprevisibilidade de muitas das suas medidas.
Num país em convalescença de uma grave crise financeira, o ministro das Finanças tem de ser um homem politicamente forte; ora António Costa colocou Mário Centeno numa situação politicamente fraca.
Em segundo lugar, o OE tem demasiados fatores de risco.
A lógica do Governo anterior, definida por Vítor Gaspar e seguida por Maria Luís Albuquerque, era uma lógica de cautela.
Ao cortar salários e pensões, e apostar nos impostos diretos, o Governo tinha uma perspetiva relativamente aproximada do que ia poupar e do que ia receber (as surpresas só vinham do IVA).
Ora, neste Orçamento, o Governo sabe quanto vai gastar a mais (com a devolução dos cortes em salários e pensões, o fim da sobretaxa, etc.) mas não sabe de todo quanto vai cobrar (pois o cálculo dos impostos indiretos é muito falível, dependendo de fatores que o Governo não controla).
Dito de outro modo, o aumento das despesas é muito real, mas as receitas para o cobrirem são imaginárias.
Argumentam os defensores desta política que, independentemente de a carga fiscal ser maior ou menor, os impostos indiretos são socialmente mais justos do que os diretos.
Tenho dúvidas.
Nos impostos diretos, é possível proteger os rendimentos mais baixos (e isso faz-se sempre); nos impostos indiretos, todos pagam E mesmo a ideia de que os impostos sobre veículos ou sobre a gasolina atingem os mais ricos é altamente discutível.
Hoje quase toda a gente tem carro: basta ir a um bairro social para o percebermos.
Além disso, o aumento dos combustíveis vai provocar subidas generalizadas de preços, ou seja, vai provocar inflação.
E esta atinge todas as classes.
A este respeito, lembro-me de umas afirmações de Silva Lopes, antigo ministro das Finanças socialista.
Contava ele que, na época a seguir ao 25 de Abril, numa negociação de salários, a CGTP conseguiu um aumento de 5%.
Sucede que o escudo ia desvalorizar perto de 15% – pelo que haveria uma perda de poder de compra da ordem dos 10%.
Mas os trabalhadores ficaram todos contentes, pois levavam mais dinheiro para casa.
E assim se conseguiu uma certa paz social.
O que se passa agora é um pouco o mesmo.
O Governo baixa os impostos diretos e devolve salários e pensões – portanto as pessoas têm mais dinheiro no bolso – mas vai buscar receitas nos combustíveis e noutras taxas.
Dá com uma mão e tira com a outra – como a direita tem dito.
Mas ainda bem, acrescento eu.
Porque se o Governo desse com uma mão e não tirasse com a outra, as contas do Estado seriam muito piores.
Só que a extrema-esquerda finge não perceber isso.
E quando tiver de o assumir vai ser um caso sério.
O Avante! já começou a protestar – e será do PCP que virão os maiores problemas.
Porque é o PCP quem mais perde com esta coligação.
O PS está a ganhar, porque tem o poder.
O Bloco de Esquerda está a ganhar, porque Catarina Martins, Mortágua, Marisa, etc., ganharam visibilidade.
Mas o PCP está a perder – porque não tem figuras mediáticas (Jerónimo aparece sempre ‘de trombas’) e não conseguiu adaptar-se ao novo ciclo em que tem de apoiar o Governo.
O PCP aguentou enquanto foi um partido de protesto – e vai desfazer-se como partido de poder.
Assim, se houver necessidade de um novo pacote de austeridade, só muito dificilmente o Partido Comunista continuará a ser uma roda da ‘geringonça’.
Nesse dia, a ‘geringonça’ deixará de se mover.
P.S. – O ataque destemperado de António Costa ao governador do Banco de Portugal foi mais uma prova de que, para agradar cá dentro, Costa não se importa de prejudicar os interesses do país. A independência dos bancos centrais assume, na arquitetura europeia, uma importância transcendente e é religiosamente respeitada. Este gesto de António Costa vai aumentar a desconfiança lá fora em relação ao Governo português, já de si tão abalada nas últimas semanas.»

Anúncios

Deixar uma resposta. Leave a reply.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s