O negócio dos manuais está a abanar.

O Governo ofereceu os manuais escolares a todos os alunos do 1º ano. São 80 mil crianças e três milhões de euros.

Isto significa que: a) no ano lectivo de 2017/18 vão ser vendidos menos livros;

b) as editoras têm boas razões para estar preocupadas e c) finalmente, há uma medida oficial para tentar mudar as coisas e dar o primeiro passo no sentido da reutilização.

Naturalmente, nem todos os livros desta primeira “geração” de 80 mil vão ser reutilizados. Mas muitos serão. A ideia é que, no fim do ano, as famílias devolvam os livros para que o Governo os possa oferecer a novos alunos — e assim sucessivamente. O plano é alargar o modelo, o que transformará o mercado do livro escolar de forma ainda mais radical.

Porto Editora e Leya estão nervosas com mudanças no mercado. Os sinais multiplicam-se A lei portuguesa diz que os manuais devem durar seis anos, mas todos os portugueses com filhos sabem que não é isso que acontece. Como somos estreantes, o nível de incerteza é razoável. As crianças vão saber estimar os livros? Os professores vão pedir para que os alunos não escrevam nada, nem mesmo quando as editoras incluem exercícios pontuais, como se não fosse esse o papel dos livros de fichas? Os currículos vão manter-se estáveis?

Em países pobres como a Suíça, os manuais são oferecidos pelo Estado e ficam todo o ano na escola. São usados apenas na sala de aula. Em Portugal, como somos um país sem problemas financeiros, expressam-se sobretudo reservas quando se fala em reutilizar.

A Confap disse que reutilizar pode “limitar a utilização espontânea dos livros” e a Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas crê que “algumas famílias, com mais posses, possam querer comprar [novos] para poderem guardar por questões sentimentais”. A intervenção mais interessante, no entanto, foi a da Comissão do Livro Escolar da APEL. A 25 de Agosto, quando muitos pais ainda não compraram nem levantaram os livros oferecidos, a comissão emitiu um comunicado. Para dizer o quê? Para “destacar que, apesar da medida anunciada pelo Governo, muitas famílias estão a comprar os manuais escolares do 1.º ano”. Quem? Sobretudo os mais ricos, que quiseram “aproveitar os descontos nas livrarias e a possibilidade de deduzirem as despesas no IRS”, mas também porque as crianças-proprietárias vão poder usá-los de forma “livre”. Comprar um livro novo poderá ser uma questão de liberdade, mas reutilizar é uma questão de ética. O melhor vem no fi m. A comissão da APEL sublinha que os manuais são “do que menos pesa no regresso às aulas” — as famílias gastam mais em roupa e sapatos. Esta comparação, mesmo que legitimada por hábitos antigos, é no mínimo estranha.

Os manuais, pela lei, devem durar seis anos. Dificilmente, uma criança usa o mesmo casaco entre os seis e os 12. Não podemos esquecer uma coisa: a Comissão do Livro Escolar da APEL tem apenas dois membros: a Porto Editora e a Leya.

Anúncios

Deixar uma resposta. Leave a reply.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s