Corrupção: aqui a percepção conta

Quando falamos de democracia, o que é que conta mais: os factos ou as percepções? A resposta mais válida é que contam ambas. Daí que o barómetro da corrupção da Transparência Internacional, que o PÚBLICO hoje lhe mostra em primeira mão, seja de enorme importância no momento político em que vivemos. Diz-nos este estudo que metade dos portugueses entende a corrupção como o terceiro maior problema que Portugal enfrenta. Acima dele, só a economia/desemprego e a saúde. Verdade ou não, neste caso a percepção de corrupção torna-se um facto. E perigoso, porque a isto se junta o entendimento de que o fenómeno não envolve apenas políticos — as forças policiais e os juízes são as profissões onde se considera que a corrupção mais se alastra.

Se olharmos para os detalhes, há mais dados neste estudo que podem ser preocupantes para as autoridades. Como a resposta muito clara de que as denúncias não se fazem por medo de represálias — mostrando um país de crime sem castigo; e passando pela ideia muito maioritária de que o fenómeno piorou no último ano, em 2015, quando o caso José Sócrates inundou os noticiários; em que a Justiça começou a investigar o caso BES, em que rebentou o dos vistos Gold.

A verdade é que, semana a semana, nos últimos anos, fomos conhecendo buscas diferentes, casos novos, investigações sucessivas. Que podem criar uma ideia de especial atenção ao fenómeno, mas também a percepção de um problema grave que acaba sem consequências. Mas é verdade, o caso português ainda não é gritante. Olhando para os restantes países analisados pelo barómetro, percebemos que os portugueses sentem, mais do que outros, que o seu governo faz alguma coisa para lutar contra o fenómeno; também sentem menos a influência dos mais ricos; e entendem a denúncia como algo positivo (o que não acontece noutros países da Europa, por exemplo). Mas convém manter os olhos atentos: quando mais de 30% dos portugueses acredita haver corrupção generalizada na Presidência, Governo, Parlamento e empresas públicas, é porque já existe algum campo fértil para discursos populistas como os que estamos a ver noutros países do Ocidente. É verdade que, nas últimas presidenciais, o candidato que mais tentou aproveitar esse espaço, Paulo Morais, perdeu e por muito. Mas este é o campo onde ninguém pode descansar. É que, no caso da corrupção, não basta ser sério. A percepção também conta — e pode dar conta de tudo o resto.

david.dinis@publico.pt

Anúncios

Deixar uma resposta. Leave a reply.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s