Abusos sexuais: o lado horroroso do futebol.

Um ex-futebolista britânico encheu-se de coragem e denunciou publicamente há nove dias os abusos sexuais de que foi alvo quando era apenas um menino com o sonho de jogar à bola. Desde então, denúncias semelhantes multiplicam-se numa escala preocupante. O escândalo está a espantar o Reino Unido e os grandes clubes já começaram a reagir .

No dia do casamento da sua irmã, Andy Woodward, então um jovem aspirante a jogador de futebol profissional com apenas 18 anos, estava presente na Igreja. No entanto, ao ver os noivos a trocarem alianças, Woodward não conseguia sentir-se feliz pela própria irmã; em vez disso, sentia que estava a ser “torturado”. A explicação para este sentimento é um murro no estômago: o noivo, o homem que estava prestes a tornar-se seu cunhado, era o mesmo homem que abusara sexualmente de Woodward durante quatro anos da sua adolescência.

Os pormenores da história de Woodward são arrepiantes e fazem parte da entrevista que o ex-jogador de futebol, agora com 43 anos, deu esta semana ao “The Guardian” com o objectivo de finalmente trazer a público o historial de abusos que colocou em risco a sua própria vida, mas também para dar coragem a outras vítimas para fazerem o mesmo. A ideia resultou: em poucos dias, o Reino Unido percebeu que tem um problema de abusos sexuais entre os jovens desportistas muito maior do que imaginava.

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A história de Woodward, a primeira a vir a público, começa quando o então aspirante a jogador jogava nos Stockport Boys e Barry Bennell, treinador e olheiro para jovens talentos do desporto, o convidou para fazer treinos de captação, em Platt Lane, e para o levar aos jogos do clube Crewe Alexandra. “Eu só queria jogar futebol e vi ali o início desse sonho. Mas eu tinha uma natureza delicada também, e os rapazes delicados e fracos eram os alvos de Bennell”.

Bennell, treinador e olheiro para jovens entre os 9 e os 14 anos durante três décadas, teve durante esse tempo o acesso ideal às suas vítimas: rapazes novos, cheios de sonhos e de confiança no homem que prometia abrir-lhes portas e torná-los estrelas em clubes maiores. Até a própria casa de Bennell, em Peak District, parecia um chamariz para jovens rapazes, recorda Woodward: “Era o sonho para uma criança. Havia uma mesa de bilhar, um pequeno macaco numa jaula que saltava para os nossos ombros. Tinha cães de montanha e até um gato selvagem. O meu sonho era tornar-me futebolista e era como se ele estivesse a deixar pequenas guloseimas no meu caminho: ‘Podes ficar comigo e isto é o que posso fazer por ti’. Para mais, ele tinha a reputação de melhor treinador de jovens do país. Por isso, eu ficava nos fins de semana, nas férias de verão e até faltava às aulas”.

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Não demorou muito até aos abusos, que Woodward sofreu entre os 11 e os 15 anos, começarem, por entre ameaças e chantagens por parte do abusador. “Ou ameaçava com violência ou usava o futebol para me controlar. Se o aborrecesse de alguma forma, ele tirar-me-ia da equipa: ‘A qualquer altura, vais desaparecer e o teu sonho não se vai concretizar’. Era chantagem emocional”. As coisas complicaram-se aos 14 anos, quando Bennell começou uma relação amorosa com a irmã do jovem, ela também com apenas 16 anos, frequentando a casa dos dois adolescentes e jantando ao domingo com toda a família. “Estava sentado com os meus pais e a minha família a rir e a dizer piadas. Eu tinha tanto medo dele que tinha de sofrer em silêncio.”

Foi depois do traumatizante casamento, já na década de 1990, que Woodward denunciou pela primeira vez o caso à polícia no decorrer de uma investigação que acabaria com Bennell preso, acusado de 23 crimes de abuso sexual a seis rapazes, durante nove anos. E embora Woodward assegure que nessa altura, cheio de energia positiva, tenha jogado duas das melhores épocas da sua vida, o pesadelo de Bennell continuou a persegui-lo – até ao ponto de desistir do sonho do futebol, aos 29 anos. “Parecia que vivia em dois mundos. Estava a treinar e só me apetecia desatar a chorar.” Começou a ter ataques de pânico graves que o levavam a ausentar-se dos jogos e a alegar lesões. “Muitas delas eram na verdade lesões mentais.”

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“O futebol era assim – e era horroroso”

Mesmo com Bennell preso – o agressor já esteve preso em três ocasiões diferentes, uma delas nos Estados Unidos, sempre por abusos sexuais a menores; a última condenação aconteceu em maio de 2015 por abusos a um jovem jogador de 12 anos e deverá mantê-lo na prisão por dois anos -, Woodward nunca conseguiu recuperar a estabilidade emocional de que precisava. Adolescente introvertido, tentou suicidar-se em “pelo menos dez ocasiões”. “Em 2016, pelo menos as pessoas têm noção do que é a ansiedade e os ataques de pânico. Na altura, eu sofri em silêncio. O futebol era assim – e era horroroso.”

Woowdward não foi o único a sofrer em silêncio – desde que decidiu contar a sua história, há nove dias, os relatos semelhantes ao seu multiplicaram-se e a linha de apoio que a NSPCC (organização de apoio a crianças vítimas de abusos) criou no seguimento das revelações recebeu 50 chamadas nas duas primeiras histórias. A público vieram também vários outros futebolistas – alguns vítimas de Bennell, outros de agressores menos conhecidos (Woodward alega mesmo acreditar que Bennell trabalhava em conjunto com outro pedófilo anónimo que nunca terá sido apanhado pela polícia).

Na última semana, Steve Walters, ex-jogador hoje com 44 anos, também relatou ao “The Guardian” os abusos que sofreu de Bennell no Crewe Alexandra, tido na imprensa britânica como uma “fábrica de talento jovem” na década de 1980; Paul Stewart, ex-jogador de clubes como Tottenham, Manchester City ou Liverpool, falou de abusos diários durante quatro anos por um treinador cuja identidade continua por revelar; David White, 49 anos, ex-jogador do Manchester City, referiu abusos sofridos às mãos de Bennell no final dos anos 1970 e princípio dos 1980. Esta sexta-feira, mais duas vítimas, Jason Dunford e Chris Unsworth, contaram as histórias de abusos de Bennell enquanto eram jovens jogadores; falam de “mais de 100 violações”.

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As alegações não afectam apenas Bennell ou treinadores anónimos e deixam antever proporções ainda maiores para um escândalo que já está a afectar o desporto britânico. O “The Guardian” adiantou esta quinta-feira que foi contactado por um ex-jogador anónimo dizendo que foi vítima de George Ormund, antigo treinador de juniores do Newcastle preso em 2002 por abusos a jovens jogadores da área. A polícia já está neste momento a investigar alegação sobre “histórico de abusos sexuais em Newcastle”, e o Manchester City, que tal como o Stoke City trabalhava de perto com Bennell, já abriu uma investigação sobre o caso.

Ninguém queria quebrar o círculo de confiança

As histórias são antigas e esse tempo que já passou pode reflectir um dos piores aspectos deste caso – dentro do futebol e de clubes como o Crewe, alega Andy Woodward, sabia-se o que acontecia mas os casos não eram falados (uma acusação brevemente desmentida pelo clube, cujo director diz estar “furioso e desapontado” com o sucedido). “Outros jogadores costumavam dizer-me em Crewe: ‘Aposto que ele te faz isto, sabemos que ele te faz aquilo’”, detalha Woodward. “Era tudo conversa de balneário. Depois, fora dali, nunca foi discutido. Era assim que o futebol funcionava. Ninguém queria quebrar esse círculo de confiança.”

Numa altura em que as principais associações do desporto já conversam com as vítimas que vieram a público para apurar detalhes sobre os abusos, jogadores e antigos jogadores demonstram o apoio às vítimas – até Wayne Rooney, embaixador da NSPCC, já veio declarar: “É horrível que alguns dos meus colegas tenham sofrido desta maneira enquanto praticavam o desporto que amamos. É importante que as pessoas saibam que podem falar do assunto, que há ajuda disponível e que não têm de sofrer em silêncio”.

Essa ajuda, assim como as precauções que as associações profissionais do desporto impõem, foram esta semana relembradas pela FA (Football Association): os registos criminais de quem trabalhar com menores são revistos, mais de 35 mil pessoas passam pelo workshop que visa garantir a segurança das crianças em cada época e cada clube e liga devem ter um supervisor de segurança para estes menores, com o registo criminal limpo e treino adequado. No entanto, os especialistas advertem que estas precauções podem não ser suficientes, enquanto Woodward e os colegas insistem que o problema até agora revelado é apenas “a ponta do icebergue” e que a preocupação não é “olhar para o passado, mas ver o que se pode fazer agora para proteger as crianças”.

“Clubes profissionais falharam no apoio às vítimas”

Para Mike Hartill, especialista em sociologia do desporto e autor de dois livros sobre abusos sexuais no desporto jovem, as precauções em vigor não chegam: “As políticas e procedimentos podem ser apropriados, mas o conhecimento e o nível de alerta na comunidade futebolística e desportiva não é suficiente e os treinos devem incluir as vozes de homens como os que vieram agora a público”, detalha Hartill ao Expresso. “A segurança só funciona se os indivíduos estiverem informados e tiverem apoio para denunciar as suas preocupações.”

Se este apoio existir, o especialista acredita que cedo conheceremos uma proporção muito maior neste escândalo que agora abala o futebol britânico. “Há um potencial de afectar seriamente a reputação das equipas individualmente e elas vão proteger-se muito. Esse é o problema. Abusos no desporto não são novidade, mas os clubes profissionais falharam no apoio às vítimas e têm estado mais interessados em promover a própria reputação do que em levar os abusos a sério. Neste momento estamos a falar de um ou dois agressores um desporto, mas as vítimas sentem que poderá haver centenas de vítimas”, relembra o especialista, recordando um estudo recente na Bélgica e na Holanda que confirmou que numa mostra de 4 mil atletas “14% já sofreram abusos”.

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-11-26-Abusos-sexuais-o-lado-horroroso-do-futebol

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