Vítor Constâncio

Não recordo as circunstâncias em que conheci Vítor Constâncio.

Lembro -me de que, no Verão de 1985, a convite da minha cunhada Alzira — que era amiga da mulher dele, Maria José — foi passar um dia com a mulher e os dois filhos numa casa de férias que tínhamos (e temos) no aldeamento turístico de Pedras d’El Rei, no Algarve. Constâncio era, na altura, governador do Banco de Portugal.

Na conversa que mantivemos mostrou -se um homem convencido de si próprio. Estava -se no período de sucessão à liderança do PS, após o anúncio da saída de Mário Soares, e ele era apontado como o mais forte candidato. À minha pergunta sobre o assunto, respondeu que só se candidataria se tivesse a certeza absoluta de ganhar e houvesse uma quase unanimidade em redor do seu nome.

Era como se estivesse a fazer um favor ao PS e não aceitasse ser contrariado.

Irritações no ténis e no xadrez

Mas o pior estava para vir. Fomos jogar ténis. Fizemos dois pares: eu e o meu cunhado Rui Silva, Vítor Constâncio e o meu sobrinho Luís Pedro. Nós vestimos muito informalmente uns calções de banho e uma t‑shirt, e o meu sobrinho nem tinha ténis e jogou descalço. Mas Constâncio vestiu-se a rigor, mostrando que levava a coisa a sério. O jogo iniciou -se, ele começou a perder — e

a perder a cabeça. Dizia que estava a ficar escuro e que não se via a bola, e que a rede não estava à altura regulamentar! Fiquei estupefacto. Aquilo para nós era uma brincadeira, eram uns momentos de descontracção, nada mais. Mas a situação começava a tornar –se incómoda. No fim Constâncio ganhou, felizmente. Combinámos jogar umas partidas de xadrez depois do jantar. Vítor Constâncio disse que lera mais de 100 livros de xadrez e que em Portugal não tinha adversário à altura. Só havia um parceiro que lhe dava alguma luta, mas praticamente já só jogava contra uma máquina. Começámos a jogar — e eu comecei a comer –lhe peças. Ele mostrou nervosismo. Um filho dele, que teria os seus 12 anos, pôs -se a gozar: «Estavas aí com tanta garganta e estás a perder com o Saraiva!» Vítor Constâncio ficou furioso: «Cala‑te!» A situação estava outra vez a tornar -se incómoda. Mas Constâncio voltou naturalmente a ganhar, pois jogava muitíssimo melhor do que eu. Com o meu cunhado Rui Silva, porém, a cena repetir -se -ia…

Misto de arrogância e fragilidade

Fiquei muito mal impressionado com este primeiro encontro a sério com Vítor Constâncio. Ele projectava um misto de arrogância e de fragilidade. Um dia, num almoço no Pabe, houve um quiproquó com o empregado, que se enganou e lhe trouxe qualquer coisa que ele não queria. Notei nele uma hesitação, uma vontade de dizer que não tinha pedido aquilo, mas acabou por não ter coragem e ceder: «Sim, pode servir...» Tudo se passou em fracções de segundo. Mas revelou uma certa falta de firmeza — que explicava a arrogância que ele manifestava noutras ocasiões, como forma de defesa. Foi um pormenor, mas muitas vezes é nestes detalhes que as pessoas se revelam.

Pouco antes da eleição de Constâncio para a liderança do PS, em plena campanha para as presidenciais de 1986, Teresa de Sousa fez um livro sobre Mário Soares. O convite para o escrever começou por me ser dirigido, mas sugeri o nome da Teresa, que era jornalista da secção política do Expresso, e que — além de ter mais disponibilidade do que eu — era uma incondicional de Soares, com uma admiração por ele que roçava a devoção. O livro foi lançado no Grémio Literário, em Lisboa, em fins de 1985, com a presença de todo o estado -maior socialista. Depois da cerimónia, já na Rua Ivens, quando me dirigia para o Chiado, ouvi passos apressados atrás de mim e depois senti uma violenta palmada nas costas, que pretenderia ser amigável. Um braço rodeia -me os ombros e uma voz forte diz -me: «Quem deveria para si ser o secretário ‑geral do PS?» Não respondo, e a voz continua: «O Torres Couto, claro! O Constâncio não vai a lado nenhum…» Continuo sem responder, o homem toma o meu silêncio por aprovação, acelera o passo e perde -se na noite. Quem era? O major Valentim Loureiro.

Escrever por «vingança»?

Pouco depois, Constâncio ascenderia mesmo a líder do Partido Socialista. E aí tive algum contacto com ele. Numa conversa na sede do PS, no Largo do Rato, disse -me que o principal problema a resolver era o financiamento partidário. Percebi que o PS se encontrava falido e que ele estava aterrorizado com a falta de dinheiro.

Como líder do PS, Constâncio nunca conseguiu impor -se e eu critiquei -o várias vezes. Qual não foi o meu espanto quando um belo dia, no Expresso, a Maria João Avillez, acabada de chegar da rua, me pergunta bruscamente: «Ó Zé António, é verdade que o Vítor Constâncio lhe ganhou ao ténis e ao xadrez?» Respondo que sim. «Mas quem lhe disse isso?», questiono -a, surpreendido. «Estive a falar com o Vítor Constâncio e ele disse ‑me que você o ataca nas suas crónicas para se vingar por ele lhe ter ganho ao ténis e ao xadrez.» Parecia -me impossível o que acabava de ouvir… Mas um tempo depois, numa pastelaria da Rua Nova do Almada, o Cáceres Monteiro far-me -á a mesma pergunta. E até Balsemão ouvirá queixas de Constâncio contra mim.

Uma das últimas vezes que me encontrei com Vítor Constâncio foi em 1987, no restaurante Bachus, no Largo da Trindade, em Lisboa, no dia em que caiu o I Governo de Cavaco Silva. Todos os partidos se aliaram para derrubar esse Governo, e Constâncio queria fazer uma coligação com o PRD e chegar a primeiro -ministro. Mas Soares, que era o Presidente da República, não deixou e ele estava furioso. Julgo que M. S. não gostava de Constâncio e não o queria ver como chefe do Governo. Pouco depois, ele perderia rotundamente as legislativas, derrotado por Cavaco Silva, e em 1989 demitir-se –ia da liderança do PS alegando interferências de Mário Soares na vida interna do partido (o que era verdade).

Evitar um novo encontro

Só voltei a encontrar Constâncio muito mais tarde, sendo ele de novo governador do Banco de Portugal, numa reunião com toda a direcção do Expresso, organizada por Nicolau Santos, que era meu subdirector. Admito que Constâncio tivesse solicitado a Nicolau este tipo de encontro (ao contrário do que era habitual nas minhas conversas com responsáveis políticos e económicos) por já não querer estar a sós comigo…

EU E OS POLÍTICOS

JAS

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