Pedro Passos Coelho

Só conheci Pedro Passos Coelho em 2010, pouco antes de ser primeiro -ministro. Ele acabara de ganhar a liderança do PSD, num congresso em que tivera como opositores José Pedro Aguiar -Branco e Paulo Rangel — e eu escrevera que seria este último o melhor líder para o partido. Não conseguia ver Passos Coelho como um político adulto: via -o sempre como o eterno líder da Juventude Social Democrata, como uma promessa que nunca deixaria de o ser.

Ora, depois da publicação daquele artigo (onde também afirmava não o conhecer pessoalmente), P. P. C. telefonou -me dizendo que era uma boa oportunidade para nos conhecermos. Combinámos um almoço num restaurante fora dos seus hábitos mas onde se prontificou imediatamente a ir: o Arte da Comida, na Rua dos Correeiros, na Baixa de Lisboa, relativamente perto do edifício do Sol.

De «balão cheio de ar»…

Quando chegou, eu tinha acabado de me sentar. Achei -o mais alto do que pensava. Eu estava furioso, pois vinha de uma espécie de interrogatório num Centro de Reinserção Social, ordenado pela juíza de um processo judicial em que estavam muitos jornalistas envolvidos. Perante a minha estupefacção, fizeram -me imensas perguntas, como se eu fosse um perigoso delinquente. E no fim informaram -me que iriam pedir informações a meu respeito aos vizinhos do prédio! Fui correcto e colaborante com as duas funcionárias que me interrogaram — e que se limitavam naturalmente a fazer o seu trabalho —, mas depois escrevi um artigo onde mostrava a minha indignação. Isto passava -se no tempo de José Sócrates — e nada de parecido me acontecera antes (nem aconteceria depois), embora eu já tivesse ido a tribunal talvez mais de cem vezes, no âmbito de processos por alegado abuso de liberdade de imprensa relacionados com a direcção do Expresso e do Sol. Mas nunca me tinham interrogado num centro de reinserção social, como um presidiário, e muito menos tinham ido pedir informações aos vizinhos sobre o meu comportamento. O que pensariam estes, se isso acontecesse?

Que crimes pensariam que eu cometera? Enfim, uma coisa insólita.

E como a deveria interpretar? Seria uma ameaça explícita a jornalistas incómodos? A verdade é que, depois da publicação daquele artigo, cessaram os interrogatórios aos meus colegas envolvidos no mesmo processo. E ninguém, que eu saiba, foi pedir informações sobre mim à vizinhança.

Pois bem, este episódio ocorrera na manhã em que ia almoçar com Passos Coelho, eu ainda vinha sob o efeito do choque, e contei -lhe resumidamente o caso, para desabafar. Mas não adiantou muito. O que retenho da conversa foi o facto de ele ter evitado dar opiniões sobre o que quer que fosse, dizendo que nomearia um think tank para estudar a reforma da Justiça, outro think tank para estudar os impostos, etc. Fiquei decepcionado. Parecia não ter convicções firmes, ideias claras, e confiar cegamente nos grupos de trabalho. Aquilo em que revelou mais convicção foi a falar de Cavaco Silva, de quem notoriamente não gostava. Contou -me conflitos que teve com Cavaco quando este era líder do PSD e ele líder da JSD.

No fim do almoço, simpaticamente, prontificou -se para me acompanhar até ao edifício do Sol — e por coincidência, quando lá chegámos, vinha também a chegar o Mário Ramires, que o conhecia há muito tempo. Ramires atravessou a rua para nos cumprimentar e ficámos breves minutos à conversa na rua. Depois despedimo -nos, P. P. C. seguiu o seu caminho, e eu e o Mário entrámos no prédio.  Este pergunta -me: «Então o que achou dele?» «Um balão cheio de ar», respondo. «Pois, ele dá essa ideia. Mas olhe que, quando liderou a JSD, era muito teso…»

… a surpresa positiva

Depois disto não voltei a encontrar Passos Coelho até ser primeiro -ministro. Confesso que me surpreendeu na campanha eleitoral e sobretudo no debate televisivo com José Sócrates, que venceu largamente. Não julgava isso possível. E depois voltou a surpreender--me pela forma competente, determinada e obstinada como exerceu o cargo, não cedendo às manifestações hostis, às pressões, às traições e ao cansaço, não se afastando nunca um milímetro do rumo traçado. Nesse período chegou a ser heróico. E foi aí que intensifiquei as relações com ele, embora nunca tenham sido próximas. Durante os quatro anos de Governo da coligação PSD/CDS mantivemos um contacto regular, quase sempre através do telefone Também o entrevistei duas vezes em S. Bento, e almocei com ele uma vez — na mesma sala reservada da residência do primeiro-ministro onde tinha almoçado com Cavaco e Guterres (Soares preferia almoçar no restaurante).

Nesse almoço, P. P. C. levanta -se da mesa a meio da refeição e vai buscar um tablet, onde procura um gráfico que me mostra. Nele vê -se uma curva, que representa a evolução prevista da economia portuguesa. «Nós estamos aqui», diz -me ele, apontando para um ponto da curva ainda descendente. «Mas aqui dar ‑se ‑á a inversão e começaremos a crescer», acrescenta, apontando agora para um ponto algures no fim do ano. Confesso que tenho dúvidas. Estamos em 2013. No país vivem -se tempos negros e é difícil acreditar que a economia poderá daí a uns meses começar a arrebitar. Mas tal virá mesmo a acontecer.

Outro tópico que retive dessa conversa foi uma afirmação optimista de P. P. C. segundo a qual Portugal poderia ser um país próspero. «Não há nenhuma razão para não podermos ser como a Alemanha», diz. Discordo com veemência. Faço -lhe ver que, à medida que se caminha de Norte para Sul, os estádios de desenvolvimento e de progresso vêm diminuindo. Os países do Norte da Europa estão num patamar alto, os do centro da Europa num patamar mais baixo, e os do Sul noutro ainda mais baixo. E quando se passa da Europa para o Norte de África, a descida continua: o Norte de África tem um nível de desenvolvimento, a África negra tem outro, inferior. Há um dégradé, de Norte para Sul, com a riqueza a ser progressivamente substituída pela pobreza. Pelo que nós nunca poderemos ser muito diferentes dos outros países do Sul que estão no nosso paralelo. Ele parece aceitar a ideia. Não sei se o faz por delicadeza ou por estar convencido. Mas fico com a impressão de que nunca vira as coisas por este prisma.

Um homem muito formal

Depois deste encontro, mantivemos o contacto. Através do telemóvel. Em geral, eu enviava -lhe uma sms a fazer qualquer pergunta, e ele respondia às vezes também por sms, outras vezes telefonava. Nunca lhe liguei directamente, pois acho que, com um primeiro -ministro, deve fazer -se cerimónia. Além disso, sempre pensei que a relação entre jornalistas e políticos não deve ser demasiado próxima, com o risco de haver equívocos ou se originarem mal -entendidos.

Passos Coelho é um homem muito formal, quer a vestir quer a falar. Nesse aspecto, não se distingue dos homens da geração do seu avô… E jamais me deixou pendurado. As respostas às minhas sms começavam assim: «Caro José António Saraiva…» (assim mesmo, com o nome por extenso). Só com o tempo começou a escrever: «Caro JAS…» Devo dizer que, mesmo em momentos politicamente muito complicados — como no episódio da demissão «irrevogável» de Paulo Portas —, nunca deixou de me responder e nunca me  enganou, como o futuro acabou sempre por provar. Outro pormenor que retive no contacto com ele: apesar de ter umas mãos muito brancas e quase femininas, o seu aperto de mão transmitia confiança. Era o de um homem confiável.

«Dilma é uma mulher desagradável»

Depois de ter deixado de ser primeiro -ministro, pedi -lhe (em 18 de Março de 2016) uma opinião sobre um facto extraordinário ocorrido no Brasil: a nomeação de Lula da Silva para ministro de Dilma Rousseff, com o objectivo de o furtar à Justiça no processo

Lava Jato. Passos Coelho escusou pronunciar -se sobre o assunto,

mas faz -me ao telefone um retrato arrasador de Dilma: «É uma

mulher presunçosa, arrogante, desagradável, roçando a má educa‑

ção.»

Adianta que ela despreza Portugal e fez várias desfeitas a Cavaco

Silva. Exemplifica: numa cimeira ibero -americana em Cádis, em

Novembro de 2012, esteve 10 minutos a falar com Cavaco em

espanhol, como se não soubesse quem ele era. Este estava estupe-

facto, sem saber o que fazer: Dilma era Presidente do Brasil há dois

anos e não o conhecia?

Outra história: duas semanas antes do 10 de Junho de 2013,

cujas comemorações tiveram lugar em Elvas, Dilma avisou que

viria a Portugal nessa data. Não para participar na celebração do

Dia de Portugal, mas em visita oficial. E Cavaco Silva teve «de fazer

das tripas coração» (expressão de Passos Coelho) para suportar

aquilo tudo. Foi obrigado a alterar a agenda, de modo a vir a Lis-

boa recebê -la, de helicóptero. P. P. C. também veio, mas de carro.

E confidencia: «E inventámos uma cimeira que não existiu, pois ela

não vinha preparada para isso.» Acresce que, antes de falar com o

Presidente português, Dilma contactou com várias pessoas do PS,

incluindo Mário Soares. «E com Sócrates?», pergunto. «Não, ela

não gostava do Sócrates», responde Passos Coelho de pronto.

EU E OS POLÍTICOS

JAS

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