Paulo Portas

Paulo Portas apareceu com mais protagonismo na vida pública a dirigir O Independente, que desafiava o poder do Expresso. Assim, em certo sentido era o meu challenger. Formalmente, o director do Indy — como eles chamavam ao jornal — era o Miguel Esteves Cardoso, que saíra de colunista do Expresso para o fundar, mas Portas já se prefigurava como o homem -forte. De facto, acabariam mesmo por trocar de lugares. Isto levou a uma certa emulação entre mim e Portas, que ainda durou sete anos.

Não foram tempos fáceis. O Indy era um jornal muito agressivo e atraente. Alguns jornalistas do Expresso — sobretudo os da área cultural — ficaram seduzidos pela sua irreverência e modernidade, e passaram a usar isso para contestar algumas das minhas opções editoriais.

Portas desafiava -nos abertamente, e dizia que só abandonaria a direcção do jornal quando vendesse mais 1 exemplar do que o Expresso. E confesso que tive medo de que isso acontecesse. Até porque não podíamos responder a O Independente no mesmo tom. O nosso perfil institucional obrigava -nos a uma maior contenção e seriedade. Aquilo que disséssemos sobre ele tinha de ser mais subtil.

E num plano diferente daquele em que ele nos atacava.

Xeque ‑mate a O Independente

Em 1994 lançámos um produto inteiramente novo, assente numa ideia do jornalista Rui Cardoso e num modelo original concebido por mim: o Guia Expresso de Portugal. O resultado foi tão bom, que a fórmula foi depois muitas vezes copiada por outras publicações. E nós próprios a replicámos nos anos seguintes, com temas diversificados: Guia do Melhor de Portugal, Guia das Vilas e Aldeias Históricas, Guia das Pousadas e do Turismo de Habitação, Guia da Boa Cama e da Boa Mesa…

Estes guias eram executados inteiramente pela equipa do Expresso, sendo produtos exclusivos: só podiam adquirir -se comprando o jornal. Eram distribuídos durante o Verão, período em que a venda do jornal caía um pouco (até por ser muito incómodo para ler na praia…). O sucesso foi de tal modo retumbante que fez subir as vendas a pique, elevando a tiragem para os 200 mil exemplares (quando antes andava pelos 150 mil). Eu pus uma nota na 1. a página a noticiar o «feito». Dir -me -ão depois que, quando Paulo Portas a viu, atirou a toalha ao chão. Percebeu que nunca conseguiria ultrapassar -nos e tomou a decisão de sair — o que aconteceria em 1995. O Indy andaria nessa altura pelos 100 mil exemplares.

Encontro em calções

Cruzei -me pela primeira vez com Paulo Portas num sábado à hora do almoço, e ele estava de calções. Não nos conhecíamos pessoalmente, mas cumprimentámo -nos. Foi no Pão de Açúcar de Alcântara, um pequeno centro comercial ao lado da antiga discoteca Bananas, por volta de 1990. Estávamos nessa altura em plena guerra Expresso ‑Independente — e ver pela primeira vez o meu grande adversário em calções era quase cómico!

Só almoçámos uma vez, já depois de ele trocar o jornalismo pela política. O almoço teve lugar no Pabe, a «cantina» do Expresso. Diziam -me que ele não gostava dos meus artigos e disse -lho abertamente. Mas ele rebateu, dizendo que eu estava enganado, pois não era possível ignorar um colunista que estava há tanto tempo na linha da frente. A conversa teve a novidade de ser a primeira vez que o ouvi falar positivamente do euro e da presença de Portugal na União Europeia, depois de ter sido encarniçadamente contra ambos. Em resposta a uma pergunta minha sobre o que iria fazer se Portugal aderisse à moeda única, responde -me muito pragmaticamente: «A partir do momento em que o euro for uma inevitabilidade — e parece que já é —, não posso deixar de o aceitar e de tentar tirar partido das novas condições por ele criadas.» Portas não era propriamente um militante de causas perdidas.

Colaboração no Sol: princípio e fim

Quis o destino que outra vez que nos cruzámos — para aí quinze anos depois do primeiro encontro — Paulo Portas estivesse de novo em calções. Desta vez, amarelos. Foi em 2006 no edifício do Sol na Rua de S. Nicolau, antes de o jornal nascer. Entrou com grande à -vontade no andar onde eu trabalhava, pensando que eu estava ausente, e quando me viu ficou um tanto embaraçado.

Foi colaborador do Sol desde a fundação, com uma coluna na nossa revista (a «Tabu») sobre cinema. Mas deixou bruscamente de colaborar menos de dois anos depois, em protesto contra a publicação de uma manchete com o título Submarinos salpicam Portas.

O Sol noticiava (com base na investigação judicial) que a Escom (de Hélder Bataglia) tinha pago comissões de 30 milhões de euros na encomenda dos novos submarinos portugueses Tridente. E, desses pagamentos, um milhão teria ido parar à conta bancária do CDS.

Paulo Portas fez muita pressão para que a notícia não saísse, e, como não cedemos, ligou -me depois a dizer que dava a colaboração por terminada. Ainda o tentei demover, mas sem sucesso. O curioso é que a notícia na altura teve pouquíssima repercussão, mas o assunto viria a agitar a opinião pública uns anos mais tarde… É o que se chama ter razão antes de tempo.

«Gostaria de usar sobretudo e ter uma família»

Depois de P. P. sair do Sol não voltámos a encontrar -nos. Mas recordo uma conversa sobre ele, com Maria José Nogueira Pinto, em 2007, quando os dois estavam em guerra aberta no partido.

Maria José disse -me que P. P. arrastava uma mágoa: como conservador que era, gostaria «de usar sobretudo e de ter uma família, mulher e filhos», mas tal não lhe era possível. Ou seja: a sua personalidade estava em conflito com a ideologia que perfilhava.

Eu e os políticos

JAS

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