Do livro: EU E OS POLÍTICOS: Aníbal Cavaco Silva

Só conheci Cavaco Silva quando já era primeiro‑‑ministro, talvez em 1986. Ele promovia uns pequenos‑‑almoços em S. Bento com directores de jornais, organizados pelo seu assessor de imprensa, Fernando Lima, e julgo que foi numa circunstância dessas que houve o primeiro contacto. Este modelo não funcionava, pois o que ali era dito, sendo ouvido por todos os jornalistas presentes, não era exclusivo e portanto não servia para nada. Pelo menos para o Expresso, que tinha a preocupação de publicar informação própria e diferente da dos outros, o modelo não funcionava. Eu até evitava fazer perguntas a Cavaco, para as respostas não serem ouvidas pelos colegas. Às vezes, à saída, passava as questões discretamente ao Fernando Lima ou telefonava‑‑lhe depois, por forma a ter informação só nossa.

Assim, esses pequenos‑almoços com vários directores de jornais acabaram, sendo substituídos por pequenos‑‑almoços a que os jornais iam em separado, representados pelo director e por (em geral) dois jornalistas.

Os amigos não o podiam tratar por tu

Embora haja muita gente a pensar o contrário, nunca fui «íntimo» de Cavaco Silva. Muito longe disso. Durante os 10 anos em que ele foi primeiro‑‑ministro, só falámos para aí duas ou três vezes ao telefone. E pessoalmente apenas nos encontrámos nos pequenos‑‑almoços referidos, em entrevistas jornalísticas e num ou noutro encontro a dois em S. Bento.

Cavaco Silva não é do género de dar muita confiança às pessoas, e muito menos aos jornalistas. Nem faz nada para ser simpático. Na TV nunca o ouvi tratar um jornalista pelo nome, ao contrário de todos os outros políticos, que tentam agradar aos entrevistadores. Cavaco, em pessoa, causa mesmo algum desconforto ao visitante pela sua postura austera. Penso que, muitas vezes, também ele próprio não se sente à vontade, porque é um tímido.

Nos Conselhos de Ministros, mesmo os colegas de infância, como Eduardo Catroga, que toda a vida o tinham tratado por tu, tratavam‑‑no por «senhor primeiro‑‑ministro». Depois de ele sair de S. Bento, contar‑‑me‑‑ão uma história curiosa que explica muito do que venho a dizer: no tempo em que Cavaco era primeiro‑‑ministro e ia ao Parlamento, os deputados punham‑‑se de pé quando ele entrava no hemiciclo; mas quando Guterres lhe sucedeu, os deputados não só não se levantavam como continuavam a falar uns com os outros. Isto é bem revelador.

Os bastidores de uma remodelação Após a importante remodelação governamental de 1989, em que saiu o número dois do Governo e velho companheiro de luta de Cavaco — o ministro de Estado Eurico de Melo —, Cavaco Silva convidou‑‑me sigilosamente a ir a S. Bento. Depois de nos sentarmos à mesa, diz‑‑me: «Eu estou disposto a contar‑lhe tudo sobre o modo como decorreram as mudanças no Governo. Mas tem de me prometer que escreve aquilo que eu lhe disser.» Respondo‑‑lhe obviamente que sim. A remodelação fora muito polémica e apanhara o país de surpresa — e Cavaco estava a oferecer‑‑me a oportunidade de saber da sua própria boca como as coisas se tinham passado. O primeiro‑ministro habituara o país a fazer remodelações ministeriais de forma imprevista e quase secreta, e sobre esta remodelação não passara um único sinal para o exterior. Quando se soube, estava consumada. Eram os bastidores desse acontecimento que Cavaco se propunha agora revelar‑me.

E descreve‑me de facto tudo, tintim por tintim. Diz‑me que tinha ido no domingo anterior para S. Bento, apenas com uma secretária. Ela ia ligando para as pessoas que Cavaco indicava, e depois ele falava. Só lhes fazia uma pergunta: «Está disponível para integrar o Governo?» Assim, sem mais nada. «E não lhes dizia para que pasta os convidava?», estranhei. «Não. Se lhes dissesse a pasta e eles recusassem, saber‑se‑ia depois que a pessoa escolhida fora uma segunda escolha. Não lhes dizendo a pasta, isso nunca se saberia.» Aí percebi como Cavaco conseguia fazer as coisas em completo sigilo (só uma secretária estava dentro do segredo) e como não transpirava nada sobre convites recusados e segundas escolhas.

Esta conversa durará talvez hora e meia. De regresso à redacção, escrevo com pormenores a história que acabei de ouvir e que ninguém no país (penso eu) conhece. Mas há jornalistas meus que dizem ter informações sobre o assunto. É muito difícil isso ser verdade, pelas razões que expus. Porém, para não me mostrar completamente impermeável à colaboração da redacção, faço um pequeno acrescento no texto com um detalhe que um jornalista me garante ser verdadeiro e me parece plausível. Pois bem: na 2.a feira seguinte telefonam‑me do gabinete do primeiro‑ministro dizendo que o relato estava fiel, correspondendo ao que ele me tinha dito, mas continha um erro. E o que era? Exactamente o acrescento que eu tinha feito com base na informação do dito jornalista! E de facto vim a saber um tempo depois que essa informação era inverdadeira.

Mas, pesem embora estes contactos, a pessoa do Expresso que  tinha mais proximidade com Cavaco Silva não era eu mas sim Maria João Avillez. Ela arrancava dele informação que nenhum outro jornalista conseguia extrair. Um dia, comentando o facto com Pedro Santana Lopes, este disse‑me com um sorriso malandro:

«É natural. O homem passa ali o dia inteiro enfiado no gabinete, muitas vezes a resolver chatices. Ora, aparece‑lhe a Maria João, cruza as pernas, e ele conta‑lhe tudo.» Era evidentemente uma imagem, uma caricatura. Mas é inegável que a Maria João Avillez tinha essa arte muito feminina de se insinuar junto de políticos e obtinha notícias que ninguém mais conseguia. Assim já acontecera no Verão Quente, quando sacava «cachas» exclusivas aos militares. Era um dom natural que possuía.

Contava‑‑me Balsemão que em 1975 a Maria João trazia sempre muito material jornalístico desses contactos com militares — mas, como não tinha ainda grande experiência de escrita, ditava as informações e Balsemão ia‑‑as escrevendo à máquina. É bom lembrar que nessa época havia muito poucas mulheres na profissão (e algumas fontes, por machismo ou para se insinuarem, abriam mais a boca quando eram abordadas por elas). Já Mata‑‑Hari tirava partido de ser mulher…

Momentos de tensão máxima

O momento mais embaraçoso que vivi com Cavaco Silva foi numa entrevista para o Expresso em meados de 1990. O jornalista Joaquim Vieira entrara para a direcção no ano anterior, na sequência do êxodo para o Público, em que tinham saído os meus dois adjuntos (o Vicente Jorge Silva e o Jorge Wemans). Ora, um tempo depois de o Vieira entrar, realiza‑‑se uma entrevista com o primeiro‑‑ministro. Até aí, essas entrevistas eram feitas apenas por mim, porque Cavaco rejeitava ser entrevistado pelo Vicente (e nessas condições resolvemos que iria só eu). Mas as circunstâncias tinham mudado. E o Joaquim Vieira veio dizer‑‑me que gostava de participar na entrevista, o que me pareceu razoável.

Comuniquei a S. Bento que ele me acompanharia, mas a resposta veio peremptória: Cavaco Silva não aceita. Diz que eu sempre o entrevistei sozinho, e não vê razão para agora ser diferente. Cai‑‑se num impasse. Torna‑‑se para mim óbvio que o Joaquim Vieira terá mesmo de ir, até para não dar ideia de que há ali algo a esconder, alguma combinação secreta e inconfessável entre mim e o primeiro‑ministro. Terá de ficar claro que tudo é transparente. Mas Cavaco

Silva mantém‑se firme: ou eu o entrevisto sozinho ou não haverá entrevista. Falo então a Marques Mendes, conto‑lhe o que está a passar‑se, ele percebe a situação e prontifica‑se a convencer Cavaco. E consegui‑lo‑á.

Uns dias depois, porém, recebo um estranho telefonema de S. Bento: o primeiro‑ministro quer ter uma conversa comigo a sós antes de começar a entrevista. Assim, pede‑me que lá esteja meia hora antes do horário combinado. Comunico isto ao Joaquim Vieira, que fica ainda mais desconfiado. Que cumplicidades haveria entre mim e Cavaco Silva?

Chego a S. Bento pontualmente à hora estabelecida, sou introduzido numa sala, Cavaco vem logo a seguir e explica‑me a razão de ser daquela conversa prévia: quer falar das eleições presidenciais, mas não o poderá fazer naquele dia. Estamos numa terça‑feira e o Expresso só irá para as bancas no sábado… Assim, o pedido de Cavaco é muito concreto: não lhe faremos nenhuma pergunta sobre as presidenciais na entrevista — e ele compromete‑se a mandar a sua posição sobre o assunto no dia de fecho do jornal, ou seja, na sexta‑feira.

«E a posição vai surpreendê‑lo!», adianta.

Ora esta conversa dura 5 minutos — e Cavaco dispõe‑se a iniciar a entrevista. Mas não é possível: está combinado que o Joaquim Vieira participará, pelo que não poderemos começar sem a sua presença. Explico isto a Cavaco Silva, que não se mostra convencido. Ficamos então ambos em silêncio. Num silêncio tenso, que não pode durar muito. Uns minutos depois, Cavaco insiste para que a entrevista comece, e eu repito a explicação. Passa mais um tempo, os minutos agora parecem intermináveis, e Cavaco — cada vez mais incomodado — volta a insistir e eu a recusar. Até que, virando‑se para mim, pergunta: «O senhor jornalista recusa‑se a começar a entrevista?» Balbucio uma frase qualquer — e nesse preciso momento toca o telefone: é da portaria a informarem que  chegou um jornalista de nome Joaquim Vieira para entrevistar o primeiro‑‑ministro. Respiro de alívio: a situação estava a ficar insustentável. A entrevista faz‑‑se depois normalmente.

A revelação do apoio a Soares

Na sexta‑‑feira à tarde, já perto do fecho do Expresso, dizem‑ me que está à porta do jornal um agente da GNR com ordens terminantes para me entregar a mim, e só a mim, uma carta. Lá vou, o homem está fardado, traz numa mão um capacete (mostrando que veio de moto) e na outra um envelope que me entrega, depois de perguntar se sou o senhor fulano de tal. Recebo o envelope. Dentro dele está um segundo envelope e dentro deste um terceiro envelope lacrado com o meu nome. No interior deste último envelope vem uma folha de papel dobrada com um curto texto escrito à máquina onde leio:

No próximo Congresso do PSD vou propor que o partido não apresente qualquer candidato às eleições presidenciais do próximo ano, caso o dr. Mário Soares se recandidate. O PSD deve contudo estabelecer um compromisso directo com o povo português quanto aos pressupostos em que assenta a sua decisão de não apresentar candidato presidencial próprio.

É inegável que o povo português maioritariamente apoia a forma como o dr. Mário Soares tem exercido a sua presidência. Sendo assim, estando o PSD no Governo, e tendo presente as exigências que o desafio da Europa de 1992 coloca ao país, deve o PSD adoptar uma postura ditada exclusivamente pelo interesse nacional e abster‑se de contribuir para o desenvolvimento de tensões entre o Governo e o Presidente da República.

Não deve ser o PSD a dar passos que afectem a cooperação institucional entre o Governo e o Presidente da República e que prejudiquem a estabilidade política que tão necessária é à realização do projecto de desenvolvimento e modernização que defendemos para o país. Para o PSD, as eleições onde irá estar realmente em causa o modelo de sociedade que Portugal quer construir para a década de 90 são as de 1991 para a Assembleia da República e é nelas que deve concentrar todos os seus esforços.

É o texto do apoio (por falta de comparência, ou seja, por não apresentação de um candidato próprio) de Cavaco Silva à recandidatura de Mário Soares. Já tenho manchete! Redijo a notícia à pressa, que cairá como uma bomba no dia seguinte — e entrará directamente na História.

Mas esta atribulada questão ainda não acabara aqui. Na segunda‑feira recebo um telefonema do gabinete de Cavaco Silva exprimindo o seu desagrado pela forma como a notícia saíra. Eu, que pensava ter cumprido escrupulosamente o combinado, vejo‑me confrontado com uma acusação de quase deslealdade. O que se passou? Só então percebo que Cavaco queria fazer essa declaração de «apoio» a Soares de modo discreto, no meio da entrevista, en passant, e não do modo como saiu, em forma de notícia. Explico que isso era materialmente impossível, pois a revista fecha na noite de quarta‑feira — e a declaração só me chegou às mãos na sexta. Mas Cavaco nunca perceberá bem (ou não quererá perceber) o porquê de a revista fechar tão cedo.

O prazo de cinco dias entre a realização das entrevistas e a ida do Expresso para as bancas sempre lhe fez muita confusão. Não percebia que, para haver tempo para desgravar e editar as entrevistas, de modo a estarem prontas na noite de quarta‑feira, tinham de ser feitas ao longo do dia de segunda‑feira.

Em S. Bento, à mesa com Prado Coelho

Além das entrevistas e dos pequenos‑almoços regulares (mas bastante espaçados no tempo), tive dois contactos com Cavaco de natureza completamente diferente durante o tempo em que foi primeiro‑ministro.

Um foi o convite para um almoço em que o outro convidado era Eduardo Prado Coelho. O objectivo era saber a nossa opinião sobre uma mudança que Cavaco Silva magicara e que poderia mudar radicalmente a política cultural do Governo. A mudança consistia, em termos gerais, no princípio de o Estado deixar de financiar a produção cultural e passar a financiar o consumo cultural.

Cavaco exemplifica: em vez de financiar a produção de um espectáculo de teatro, o Estado pagaria parte do preço dos bilhetes. Com isto, poderia haver mais pessoas a assistir aos espectáculos, não se verificando situações aberrantes em que o Estado financiava peças de teatro que depois tinham meia dúzia de espectadores. Com essa mudança de paradigma, só teriam viabilidade os espectáculos que tivessem efectivamente público.

Prado Coelho reage — educada e maciamente, como era o seu estilo, mas discordando firmemente da ideia. Sendo comunista, tinha de defender o financiamento da Cultura por parte do Estado. Eu estava nos antípodas. Como princípio, achava que a cultura devia obrigatoriamente ter consumidores e não podia viver artificialmente à custa do erário público. Se ninguém consumisse um produto, qual seria a sua influência? Nenhuma. Dou o exemplo de um disco que merecera uma crítica de página inteira no Expresso, com grandes elogios, e que depois acabara por vender dois ou três exemplares em Portugal. Tinha‑‑se aberto um grande fosso entre a crítica e as pessoas comuns — e o Estado acabava por ser levado a financiar espectáculos que a crítica podia celebrar mas que não atraíam ninguém. Cavaco Silva ouve mas não tira nenhuma conclusão. Ele era sempre assim em todas as situações: ouvia os seus conselheiros ou as pessoas a quem pedia opiniões mas não revelava o que pensava. Nem que decisão iria tomar.

Como nascem os «ajudantes de ministro»

Entrevistei‑o várias vezes para o Expresso e também, uma vez, para a RTP, a convite da Judite Sousa. É nesta entrevista que Cavaco chama aos secretários de Estado «ajudantes de ministro». A dada altura pergunto‑lhe se sabe quantos membros tem o seu Governo. A ideia é fazer‑lhe ver que tem um Governo muito numeroso, depois de ter começado por defender os governos pequenos. Ele responde que tem x ministros. Eu insisto, dizendo que a pergunta é sobre o número total de governantes, entre ministros e secretários de Estado. E é aí que ele responde: «O que importa é o número de ministros. Os secretários de Estado são ajudantes de ministro» — como quem diz, esses não interessam nada. Esta gafe de Cavaco irá ficar, e ainda hoje se fala dos «ajudantes de ministro».

A «hecatombe» eleitoral

Em princípios de Junho de 1994, nas vésperas das eleições europeias, o Expresso publica uma sondagem que dá uma derrota clara ao PSD — e, na Política à Portuguesa, eu falo na probabilidade de uma «hecatombe» eleitoral. No dia a seguir às eleições, Cavaco Silva reagirá, enviando‑me um cartão em que o simulacro de humor denuncia o seu estado de profunda irritação:

Sr. Arquitecto,

A caminho da Colômbia não quero deixar de agradecer‑lhe a sua segunda previsão consecutiva de «hecatombe» eleitoral para o PSD, agora nas europeias. Há quem pense que não é forma muito correcta de fazer jornalismo (há mesmo quem diga pior…) mas eu julgo que nos faz jeito e por isso agradeço. Contudo, talvez seja ocasião para mudar de empresa de sondagens porque agora a credibilidade foi mesmo por água abaixo.

Com consideração e estima,

Aníbal Cavaco Silva

Na mesma época, comentando uma atitude que me pareceu lamentável de Mendes Bota — que veio fazer críticas públicas ao partido depois de ter sido excluído nas listas para aquelas eleições europeias —, escrevi um artigo onde perguntava: «Quantos Botas haverá no PSD? Quantos serão aqueles que se mantêm calados porque lhes foram distribuídos lugares no partido ou no Estado? Qual será a extensão da corrupção moral que tomou conta do PSD após 9 anos de presença consecutiva e solitária no poder?»

Cavaco Silva também não gostou nada deste artigo e, em resposta a estas perguntas, envia‑‑me um cartão magoado onde diz que haverá menos oportunistas no PSD do que «no partido do seu primo eng.o Guterres». E acrescenta que sempre usou a sua autoridade para combater a tentação de usar o partido para defender interesses próprios, e, ao contrário de governos anteriores, impôs nos seus governos a presença de muitos independentes.

Almoço com Marcelo precede «tabu»

O célebre episódio do «tabu de Cavaco» nasceu num pequeno‑almoço em S. Bento. A história, entretanto, tinha começado uns dias antes, num almoço com Marcelo Rebelo de Sousa. Combinámos encontrar‑‑nos no dia 26 de Outubro de 1994 no grill do Hotel Penta, na Avenida dos Combatentes, perto da Universidade Católica (onde uns anos depois darei aulas).

Parto da sede do Expresso, no Marquês de Pombal, e vou pela Fontes Pereira de Melo e pela António Augusto de Aguiar até à Praça de Espanha. Daí seguirei em frente pela Av. dos Combatentes até ao hotel. À saída da praça, porém, tenho um violento acidente. Havia um engarrafamento, o trânsito estava todo parado, às tantas o carro à minha frente põe‑‑se a andar — e eu vou atrás dele. Só que entretanto tinha aberto o semáforo para os carros que vinham da direita, um deles arranca com força e apanha‑‑me em cheio de lado. Não fico ferido, mas tenho de ficar ali um bom bocado à espera que chegue a Polícia.

Estou preocupado, porque tenho um almoço marcado com Marcelo Rebelo de Sousa e ele já deve lá estar. Não tenho meio de o avisar, pois ainda não há telemóveis. Fico ali no meio da avenida uns 45 minutos ou mais. O meu carro, um Peugeot 405, está bastante maltratado, com uma roda empenada. Temo que não ande.

Mas, resolvido o problema do acidente, lá conseguirá arrastar‑se penosamente até ao parque de estacionamento do Penta.

Entro esbaforido no hotel, desço ao grill, Marcelo está sentado à mesa e começou a comer, admitindo talvez que eu não aparecesse.

Estou atrasado cerca de uma hora. Explico‑lhe que tive um acidente de automóvel, mas ele não parece ligar muito. Talvez pense que é uma desculpa para justificar o atraso. Fico irritado com a reacção e não insisto. Noutra mesa almoçam Pedro Santana Lopes e Pacheco Pereira — e Marcelo explica‑me que Santana está a aliciar Pacheco para qualquer coisa no PSD.

Neste almoço a desoras, enquanto eu engulo o bife, Marcelo — que entretanto já terminou a refeição — vai‑me passando informações surpreendentes: Cavaco irá renunciar à liderança do PSD e não se recandidatará em próximas eleições legislativas. Ora, isto mudará tudo na política portuguesa.

É certo que nem sempre as notícias dadas por Marcelo correspondem rigorosamente à verdade, seja pelo seu gosto pela intriga ou por tomar como bons rumores pouco credíveis que lhe chegam aos ouvidos. Mas dentro de dois ou três dias estarei com Cavaco num pequeno‑almoço em S. Bento e poderei pôr‑lhe a questão.

O pequeno‑almoço «fatal»

Vou para S. Bento acompanhado pelos jornalistas José António Lima, Fernando Madrinha e Cristina Figueiredo. Cavaco fala muito, quer passar as suas mensagens, e até se esquece dos gestos.

A dada altura pousa metade da carcaça que está a comer em cima da toalha branca, e à medida que fala vai‑a afastando com a mão; às tantas, a carcaça já vai quase a meio da mesa redonda… A dada altura da conversa (que durará três horas), aproveitando um silêncio, pergunto a Cavaco em tom solene se é verdade que vai renunciar à liderança do PSD e não se recandidatará ao cargo de primeiro‑‑ministro. E peço‑‑lhe uma resposta directa. Cavaco faz um silêncio, baixa os olhos e responde: «Isso é um assunto tabu. Não lhe vou dizer uma única palavra sobre isso.» E imediatamente muda de tema. Percebo que tenho ali ouro.

À saída da residência de S. Bento, comentando a substância da conversa que acabávamos de ter, o Fernando Madrinha diz: «Isto não deu nada.» «Não deu nada?», surpreendo‑ me. «Temos aqui a manchete do ano!» Tinha‑‑lhe escapado a importância daquela frase: «Isso é um assunto tabu.»

Quando chego ao jornal telefono a alguns governantes (Marques Mendes, Santana Lopes, Durão Barroso) perguntando‑‑lhes se sabem algo sobre o assunto. Não sabem de nada. Mas Marques Mendes sempre adianta: «O primeiro‑ministro está, de facto, farto do partido e já o disse várias vezes em privado. Isso é verdade. Mas não sei mais nada.» Eu estou, porém, seguríssimo: Cavaco vai sair. E será essa a manchete do Expresso do sábado seguinte: «Cavaco pode deixar liderança do PSD.» Na notícia não se cita o primeiro‑‑ministro, pois tudo o que se passa nesses pequenos‑almoços é off the record, mas refere‑‑se «uma fonte do gabinete do primeiro‑ministro» que, interrogada sobre a hipótese de Cavaco Silva deixar de ser líder do PSD e não se recandidatar à chefia do Governo, respondeu apenas: «Isso é um assunto tabu.»

O impacto da notícia no dia da publicação do jornal não é grande. As pessoas acham que se trata de especulação política. Sucede que, um dia depois, confrontado por um jornalista sobre aquele assunto numa visita a Marrocos, Cavaco Silva repete textualmente a frase: «Isso é um assunto tabu.» Era um sinal de que a nossa notícia estava certa. E assim nasce o célebre «tabu de Cavaco» que encherá nos meses seguintes páginas e páginas de jornais e provocará acalorados debates nas televisões.

A maioria dos comentadores disse depois que foi um tremendo erro político de Cavaco Silva, uma jogada política desajeitada em que o tiro lhe saiu pela culatra. Ora, sou testemunha de que a iniciativa não partiu de Cavaco, que ficou embaraçado com a minha pergunta — e, se não tivesse havido aquela manchete do Expresso, o tabu nunca teria existido. Claro que a opção de Cavaco Silva seria a mesma — deixaria a liderança do PSD, da qual estava farto, e não se recandidataria à chefia do Governo —, mas não teria havido o longo período de suspense que mediou entre essa manchete e o anúncio formal da decisão, feito em conferência de imprensa três meses depois.

O episódio da «marquise»

Três semanas depois do pequeno‑almoço em S. Bento onde nasce o tabu, Fernando Lima — assessor de imprensa do primeiro‑ministro — telefona‑me dizendo que Cavaco Silva está muito incomodado com o Expresso. Adianta que um jornalista nosso está a investigar a sua casa particular, e ele considera essa investigação uma intrusão abusiva na sua vida particular, atentatória da sua privacidade. Acrescenta que o jornalista tentou intimidar um pedreiro que trabalhava na obra, apresentando‑se como agente da Polícia Judiciária. Na sequência deste telefonema, dou instruções para que o jornalista actue de forma correcta. Mas não posso dizer‑lhe que não investigue. Nunca disse a nenhum jornalista para não investigar o que quer que fosse. Coisa diferente é a decisão de publicar — a qual, obviamente, só poderá ser tomada no fim da investigação.

Este assunto das obras no apartamento de Cavaco na Rua do Possolo estava há muito a ser objecto da nossa atenção, mas eu mexia no assunto com pinças e discretamente, porque seria grave para o jornal correr o risco de publicar uma notícia falsa num tema que teria forçosamente uma grande visibilidade. Tendo em conta a «discrição» com que eu estava a tratar do assunto, fiquei perplexo ao receber a seguinte carta:

Lisboa, 21 de Novembro de 1994

Ex.mo Senhor

Arquitecto José António Saraiva

Director do Expresso

Não posso deixar de comunicar a Vexa. alguns factos insólitos de que tive conhecimento na passada semana, envolvendo um jornalista que afirma ser do vosso semanário, e que me fizeram lembrar atitudes de tipo policial do passado que eu julgava incompatíveis com a democracia em que vivemos.

Um pedreiro, que foi encarregado de umas obras de reparação e remodelação que minha mulher e eu decidimos efectuar no andar onde moramos há 27 anos, fez chegar ao nosso conhecimento que anda a ser perseguido por um jornalista de nome João Ramos de Almeida, que diz pertencer ao Expresso, inquirindo‑o sobre trabalhos que realizou e o que viu na nossa casa. Mais acrescentou que o referido jornalista anda também a interrogar os fornecedores onde foram comprados os materiais utilizados nas obras e que uma vez se terá mesmo apresentado como sendo polícia da Judiciária.

Mas, senhor director, o insólito inquérito «policial» não fica por aqui. O referido jornalista passou seguidamente a inquirir um arquitecto das minhas relações familiares, a quem a minha mulher pediu que fizesse as plantas a apresentar na CML, sobre as pequenas obras de remodelação a realizar na casa, para que tudo se processasse numa legalidade exemplar. Mais uma vez queria o jornalista ser informado de tudo sobre a nossa casa.

Mas verdadeiramente estupefacto ficou o arquitecto quando o jornalista lhe disse que ele não devia surpreender‑se com as perguntas porque em França até já tinham sido presos três ministros, «por coisas como estas».

Chegado aqui, senhor director, e estando certo que Vexa. é estranho a esta insólita perseguição «policial», não posso deixar de lhe expressar o meu mais veemente protesto. Há limites para tudo. Em democracia tem de haver limites para a perseguição à vida privada dos cidadãos.

Será que a minha mulher, lá por eu ser primeiro‑ministro, não pode mandar fechar a varanda? Sendo certo que nunca ficámos a dever nada a ninguém.

Estando certo que não é este tipo de jornalismo que Vexa. defende, permita‑me este desabafo, que é também um grito de indignação.

Com os melhores cumprimentos,

Aníbal A. Cavaco Silva

Por que fiquei perplexo ao receber esta carta? Porque eu andara a tratar este assunto sigilosamente, para não cometermos erros (ou atirarmos injustamente lama sobre Cavaco Silva), e ele tomava a iniciativa não só de me remeter esta carta mas de enviar ao Parlamento um dossiê sobre este tema, dando‑lhe publicidade!

Cavaco esquece‑se de agradecer

Pouco depois de sair do Governo — uns três ou quatro meses —, Cavaco Silva telefona‑me a pedir cópias das entrevistas que lhe fiz para o Expresso, para publicar no livro que irá escrever sobre os anos em S. Bento. Diz‑me que essas entrevistas são as únicas que utilizará. Estamos em 1996, os jornais ainda não estão digitalizados e tenho dificuldade em satisfazer o pedido. A minha secretária — Carla Duarte — tem de mandar vir do armazém os exemplares do Expresso onde foram publicadas as entrevistas e depois tirar fotocópias das páginas (que são enormes) aos bocados, colando‑os finalmente com fita‑cola.

Aquilo dá algum trabalho. Envio‑lhe o material, mas Cavaco não diz água‑vai: não agradece nem sequer acusa a recepção.

Uns largos meses mais tarde encontro o Fernando Lima no Metropolitano e dou‑lhe conta disto. «Ele não lhe agradeceu?», estranha. E garante que lho irá dizer. Mas não acontecerá nada a seguir. Sucede que, muito tempo depois, a propósito de outra coisa qualquer — talvez o envio de Boas Festas ou a oferta de um livro —, Cavaco acrescenta a essa mensagem um agradecimento pelo envio das entrevistas. Ele é assim: teimoso e orgulhoso. Não quis reagir ao reparo que lhe fiz através do Fernando Lima, para não ter de se desculpar, preferindo esperar por uma ocasião propícia para o fazer sem parecer que corrige um erro.

Como nasce a história da «boa e má moeda»

Durante anos não falei com Cavaco Silva. Entretanto, no casamento do fotógrafo Rui Ochoa com a fadista Kátia Guerreiro — que teve lugar em Lamego, na Quinta dos Viscondes da Várzea, propriedade de Maria Manuel Cyrne, em Novembro de 2004 —, fiquei na mesma mesa de Cavaco, que também era convidado. Ochoa tinha uma boa relação com ele, pois fora seu fotógrafo durante os anos de S. Bento.

Puxo a conversa para a política, para tentar tirar nabos da púcara — Pedro Santana Lopes era o primeiro‑‑ministro na altura e havia muita intriga no ar —, mas Cavaco não me dá grande saída. Ele era muito retraído e evitava dar opiniões políticas em circunstâncias destas, pois temia que viessem a aparecer nos jornais. Mas, quase no fim da refeição — servida num ambiente muito agradável, em mesas ao ar livre —, já na hora do café, diz‑‑me, como quem não quer a coisa, que está a escrever um artigo de opinião e pergunta‑me se eu terei interesse em publicá‑‑lo no Expresso. Respondo obviamente que sim.

Na semana seguinte faz‑‑me chegar por portador um texto sobre a Lei de Gresham, onde se fala «da boa e da má moeda». A minha primeira reacção é pensar: isto não tem interesse nenhum! E decido publicá‑‑lo discretamente na secção de Economia. Mas depois, intrigado, vou lê‑‑lo outra vez. E de repente faz‑‑se‑‑me luz. Aquilo é evidentemente uma metáfora acerca do Governo de Santana Lopes.

Segundo Cavaco, a Lei de Gresham postulava que, em tempos de crise, a má moeda expulsa a boa moeda. Ou seja, mutatis mutandis, os maus políticos expulsam os bons políticos.

Percebendo que tenho ali uma bomba, faço para a edição seguinte uma manchete onde descodifico o texto e lhe atribuo o «verdadeiro» sentido. O efeito será mesmo explosivo. Jorge Sampaio dir‑me‑á mais tarde que esse artigo de Cavaco Silva foi determinante para a sua decisão de demitir Santana Lopes. «Nem o professor Cavaco acreditava nele…», confidenciar‑me‑á.

Na segunda‑feira seguinte à saída do jornal, Cavaco liga‑me a agradecer a publicação do artigo, estranhando no entanto o destaque que eu lhe dera: «Não esperava que lhe desse tanta importância…» Cavaco era assim: fingindo não perceber certas coisas para manter as distâncias e também para não se comprometer. Com aquele telefonema, ele deixava claro que a interpretação que eu dera ao artigo, para todos os efeitos, era da minha responsabilidade. Ele limitara‑se a escrever um artigo económico sobre a Lei de Gresham… Também havia outra hipótese: Cavaco querer mesmo que o artigo saísse sem descodificação, para não fazer logo ondas, com o objectivo de alguém o «descobrir» depois e ter um efeito ao retardador.

Uma espécie de bomba‑relógio que eu fiz detonar logo. Aliás, com o «apoio» à recandidatura presidencial de Mário Soares disfarçado no meio de uma entrevista, quando era chefe do Governo, Cavaco pretendera um efeito semelhante. Que também falhara por minha «culpa»…

Telefonema «convoca‑me » para Belém

Depois de Cavaco Silva assumir a Presidência da República estive, por junto, quatro ou cinco vezes com ele em Belém. Uma delas — sem dúvida a mais importante — no tempo escaldante em que José Sócrates vivia os últimos meses à frente do Governo. Através do BCP, que tinha como administrador um seu homem de mão, Armando Vara, Sócrates fazia todos os possíveis para fechar o Sol. Nós reveláramos alguns escândalos onde surgia o seu nome envolvido — desde o Freeport ao Face Oculta — e figurávamos entre os seus inimigos de estimação.

Numa manhã do mês de Janeiro de 2010 liga‑‑me o chefe da Casa Civil do Presidente da República, Nunes Liberato, a dizer que o Presidente gostaria de me receber. Percebo que será para falar da «guerra» que envolve Sócrates e o Sol. Cavaco Silva quererá dar um sinal de que nos apoia. Liberato adianta‑‑me que, ao contrário das outras vezes, em que eu entrara pelo Pátio das Damas — por onde entravam as visitas informais —, desta vez entrarei pela rampa do Pátio dos Bichos e a recepção constará da agenda oficial do Presidente da República. Cavaco quer, pois, tornar público o seu apoio ao Sol.

Nos dias que precedem a minha ida a Belém dão‑se, porém, acontecimentos que abalam o país. A luta política atinge o rubro, com Sócrates a ser acusado de tentar controlar jornais e um ambiente de guerra civil instalado. Chovem notícias de que o Governo quis comprar a TVI, através da PT, para calar a jornalista Manuela Moura Guedes. Sócrates nega, mas é acusado de mentir.

Vive‑se o chamado caso Face Oculta. O Sol, que lidera a informação sobre o tema, é alvo de uma providência cautelar interposta em 9 de Fevereiro de 2010 por Rui Pedro Soares, administrador da PT próximo de Sócrates — impedindo‑‑nos de publicar qualquer coisa onde surja o seu nome. Ora, R. P. S. é uma figura central da história. Realiza‑‑se então uma reunião entre a direcção e a administração do Sol, presidida por Ana Bruno, onde fica decidido que vamos desobedecer à ordem do tribunal.

No dia 10 de Fevereiro, a sede do jornal, na Rua de S. Nicolau, é rodeada por uma multidão. Os jornalistas atropelam‑‑se, as televisões fazem directos do exterior do nosso edifício. Todas as atenções dos media estão centradas no Sol. Nós encontramo‑‑nos «barricados» dentro do edifício e não contactamos com a comunicação social, para não darmos qualquer sinal que nos possa comprometer — e vamos sabendo notícias do mundo exterior através dos canais televisivos, que a todo o momento dão notícias sobre nós. Nessas horas, a nossa única relação com o mundo é através de um comunicado que redigimos e enviamos à Lusa através do telefone — e que, minutos depois, estará a ser difundido por todas as televisões. Sentimos a excitação de estar no topo. Tudo o que façamos será notícia. Um funcionário vai discretamente à rua comprar pizas, e restaurantes e pastelarias da vizinhança levam‑nos comida como testemunho de solidariedade. Mais tarde, um canal televisivo filmará o Sol à saída da máquina, mostrando a «transgressão ». A capa dessa edição (10 de Fevereiro de 2010) ostenta um perfil de Sócrates a negro sobre um fundo vermelho com o seguinte título: O Polvo. É a guerra aberta. Ao fim da noite, nós saímos discretamente do edifício por uma porta lateral, fugindo às atenções de jornalistas que teimosamente ainda se encontram no exterior.

José Sócrates queria fechar o Sol

Na véspera da audiência em Belém, recebo um telefonema de Nunes Liberato a desmarcar o encontro. Percebo perfeitamente a intenção: dado o extremar de posições, o Presidente não quer mostrar publicamente que está ao lado do Sol contra o primeiro‑ministro nesta guerra. Receber‑me naquele contexto seria visto como uma verdadeira provocação a Sócrates e ao Governo. Até porque, para todos os efeitos, nós tínhamos desobedecido a uma ordem do tribunal.

Tempo mais tarde, com as águas mais calmas, sou de facto convidado a ir a Belém — mas aí já entro pelo Pátio das Damas e a visita não consta da agenda do Presidente. À chegada, Cavaco Silva aperta‑me demoradamente a mão, num sinal de solidariedade.

Cavaco não apertava a mão com força, até porque, com tantos apertos de mão que tinha de dar nas suas funções, chegaria ao fim do dia com a mão dorida. Mas também não estendia uma mão morta, como outros. Tinha uma mão seca, ossuda, de pele escura como se fosse curtida pelo sol. Uma mão de berbere, de árabe das montanhas, de guerreiro, correspondente ao seu aspecto austero.

Na conversa, explico‑‑lhe resumidamente as tentativas feitas por Sócrates para fechar o Sol, através de Armando Vara, depois de este entrar para a vice‑‑presidência do BCP, em Janeiro de 2008. Embora o BCP continuasse a ser nosso accionista, Vara corta o investimento publicitário e os patrocínios no Sol em 72%. E em Setembro declara que colocou as acções à venda e não porá «nem mais um tostão» no jornal.

Em Janeiro de 2009 surge a primeira notícia sobre o caso Freeport, que compromete José Sócrates. E a partir daqui não mais haverá paz. Quando a Felícia Cabrita me fala pela primeira vez no caso, diz‑ me: «Isto é o fim do Sócrates.» Respondo‑ lhe: «Se não formos nós a acabar primeiro.» Estamos estrangulados financeiramente e o espectro do fecho agiganta‑‑se. É nesta altura que surge uma proposta de accionistas angolanos para a compra do Sol. Respiramos fundo: é a salvação!

Só que — subitamente —, o BCP recua. Perante a hipótese de continuarmos vivos, passa de vendedor a comprador — e diz que «prefere» a proposta dos angolanos da Newshold, ou seja, que iguala a oferta pelas acções à venda. É a cambalhota total. Vara afirma que já tem director para o jornal (julgo que seria Afonso Camões) e chegam‑‑nos a perguntar quanto queremos para sair. Em simultâneo, Sócrates faz pressão junto dos accionistas angolanos (designadamente, através do ministro da Economia, Manuel Pinho) para desistirem do Sol.

A Newshold, porém, resiste e sobe a parada. Ameaça fazer uma queixa à CMVM. O BCP e os outros accionistas fundadores (José Paulo Fernandes — não confundir com Paulo Fernandes da Cofina — e Joaquim Coimbra) acabam por ceder e por vender as acções aos angolanos. A operação concretiza‑‑se em Março de 2009.

É óbvio que, ao inflectir 180 graus e passar de vendedor a comprador, o BCP queria ficar com a maioria para depois substituir a direcção ou mesmo fechar o jornal. Nós éramos os maus da fita, os inimigos a abater. Tal como queria afastar Manuela Moura Guedes da TVI e José Manuel Fernandes do Público, Sócrates pretendia correr‑nos  do Sol.

Na conversa em Belém, Cavaco Silva mostra‑se a par deste processo e confirma a ideia que temos: «O que me dizem é que o BCP queria comprar o seu jornal para no momento seguinte o fechar…»

A conversa dura cerca de uma hora — e, à saída, o Presidente da República incentiva‑me a ter coragem e a manter o jornal aberto.

«Não desista, em nome do pluralismo da informação», diz‑me.

Sei que, um ano antes, ele fizera tentativas discretas para viabilizar o jornal, mantendo conversas a tal respeito com empresários amigos, como Joaquim Coimbra e Alexandre Soares dos Santos. E terá contactado também o Presidente angolano José Eduardo dos Santos no mesmo sentido, mas isso não posso afiançar.

Encontro em Angola

Por coincidência, uma das últimas vezes que estive com Cavaco Silva foi precisamente em Angola. Desloquei‑me lá em meados de

Julho de 2010 para estar presente na inauguração da delegação do Sol em Luanda, no edifício Escom, e Cavaco também lá foi nessa altura em visita oficial. Encontrámo‑nos numa recepção aos portugueses ali residentes, os chamados «expatriados».

A páginas tantas, ele vem ao meu encontro e diz‑me:

«Eu estava a vê‑lo ali de longe e a pensar: é muito parecido com o arquitecto Saraiva…» Fica uns momentos a falar comigo. Mas há muita gente à nossa volta, nestas alturas todos querem cumprimentar as pessoas «importantes», e eu — percebendo a situação — apresso a despedida, «libertando» o Presidente português. Quando este se afasta, um administrador do nosso jornal que me acompanha nesta viagem — Filipe Coelho, angolano a trabalhar em Portugal — diz‑me com um certo respeito na voz: «O Presidente esteve 3 minutos e 47 segundos a falar consigo!» Para ele, a importância das pessoas media‑se pelo tempo que os poderosos lhes dispensavam… E não deixava de ter razão.

A última conversa em Belém

Nas vésperas da saída de Cavaco Silva da Presidência, telefono a José Carlos Vieira, assessor de imprensa do PR, solicitando‑‑lhe permissão para uma reportagem em Belém ilustrando a despedida do cargo. A resposta é negativa. Da parte da tarde, porém, Vieira telefona‑‑me a dizer que o Presidente teria muito gosto em despedir‑se de mim antes de sair. E propõe‑‑me a quinta‑‑feira seguinte, 3 de Março de 2016, ao fim da tarde.

Vou. Cavaco recebe‑‑me em pé a meio do gabinete, muito direito, como faz com todos os convidados. Aperta‑‑me a mão e depois vamos sentar‑‑nos: ele num maple, eu num sofá à sua direita. Diz‑‑me que, em conversa com a mulher, tinham concluído que ele devia despedir‑‑se de mim antes de sair de Belém. E explica que Maria Cavaco Silva é minha leitora há anos. «A minha mulher não se interessa muito por política, mas o senhor é dos poucos comentadores que ela lê. Porque percebe o que o senhor escreve. E é ela que me lembra sempre para ler a página 2 do Sol.» Faz‑‑me a seguir alguns elogios, dizendo que não conhece outro colunista como eu, que escreva de um modo tão racional: «Eu chamo‑lhe ‘cartesiano’.»

Depois, ajeitando‑‑se na cadeira, diz em jeito de balanço sobre a sua passagem por Belém: «Fiz tudo o que queria fazer como Presidente da República. Concluí que a intervenção do Presidente é mais eficaz quando é discreta do que quando se faz em público. Estudei sempre cuidadosamente as leis e acho que contribuí em muitos casos para as melhorar. Saio daqui tranquilo.»

Julgo que a observação de Cavaco sobre a influência «discreta»  que exercia — ou seja, fora das atenções dos media — era uma «resposta» à baixa popularidade com que saía de Belém. Aliás, minutos antes, enquanto eu esperava no exterior com José Carlos Vieira, o chefe da Casa Civil, Nunes Liberato, viera cumprimentar‑me e dissera: «O Presidente sai daqui bem. A única questão é a baixa popularidade. Mas a popularidade nunca foi o seu forte. O seu forte é a confiança. As pessoas votavam nele porque tinham confiança nele. E voltariam a votar. Agora vamos regressar a outro ciclo de popularidade… [referência a Marcelo Rebelo de Sousa]. »Voltando à conversa com Cavaco, falamos de jornais, da mudança de hábitos de leitura. Pergunto‑lhe o que lê, e não se furta a responder: «A Lusa [agência noticiosa], duas vezes por dia,  a Economist (a melhor revista do mundo, que leio desde os 17 anos), o Financial Times, o El País e o Le Monde.» Diz‑me ainda que incluiu o Sol entre os jornais que solicitou para o seu futuro gabinete, no Palácio do Sacramento. Fala‑se do Expresso e ele diz:

«O Expresso já tem pouco a ver com o que era quando o senhor lá estava.»

Convido‑o a dar‑me uma grande entrevista, dentro de uns meses, que possa depois ser publicada em livro. Explico que isso não será incompatível com as memórias que certamente irá escrever. Mas torce o nariz. Argumenta que tem muitos anos de grande visibilidade pública e que quer agora resguardar‑se.

E adianta, curiosamente, que tem vindo a ponderar quantos anos mais terá com a cabeça em bom estado. «Tenho 76 anos… Terei mais oito, dez?», interroga‑se.

E acrescenta que tem de aproveitar bem o tempo.

José António Saraiva

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