A minha madrasta não é um traste.

Laurinda Alves

Uma madrasta pode invadir o espaço e ocupar todo o ar que os enteados precisariam para respirar em casa, em família. Estas mulheres manipuladoras têm, muitas vezes, a aparência de anjos.

Com ou sem acordo ortográfico, há palavras horríveis, pesadas e feias, ancestralmente carregadas de significados negativos que deviam ser revistas e, se possível, descartadas. Estou a pensar em duas, embora haja muitas mais. ‘Madrasta’ e ‘padrasto’ são terríveis e a culpa não é da Cinderela. Ou antes, da mulher do pai dela.

Madrasta é uma palavra que soa mal e, muitas vezes, é difícil de pronunciar. Depende da pessoa a quem se aplica, claro, mas mesmo que a destinatária a mereça, nunca apetece dizê-la. Todos os ditados populares, todas as fábulas infantis e todos os filmes para adultos que falam de madrastas usam a designação com sentido pejorativo. “Vida madrasta” ou “sorte madrasta” já diriam tudo, mas o conceito é repetido até à náusea em imagens que povoam o imaginário universal.

E, no entanto, há madrastas fabulosas. Mulheres de todas as gerações e condições que amam os seus enteados e os tratam tão bem ou melhor que as próprias mães. Se assim é, então que palavra deveria ser usada para as nomear? Como deveriam ser chamadas as madrastas boas? Não faço ideia nenhuma e gostava de inventar uma palavra, mas não me ocorre nada. Tenho pena, porque a coisa merece reflexão e revisão.

Sempre houve e haverá gente para tudo, do melhor ao pior, e as madrastas não são excepção. As más, mesmo más, do tipo sinistro escolhido pelo pai da Cinderela, têm efeitos perversos sobre os seus enteados e deixam marcas indeléveis. Fazem coisas inenarráveis e dizem palavras inconcebíveis. Têm ciúmes das filhas e dos filhos dos maridos, disputam-nos aos pais e rivalizam com eles, competem, criam braços de ferro e são capazes de alimentar lutas cegas e surdas ao longos de anos. Fazem queixas deles sem qualquer pudor, são invasivas e não se importam nada com os sofrimentos dos enteados. Na sua estupidez (prefiro pensar que é pouca inteligência do que maldade pura) acham que os enteados são desprovidos de sentimentos. Ou se não acham, parece!

Estas madrastas existem e mais que merecem a designação, com toda a carga negativa que a palavra arrasta. Uma verdadeira madrasta é uma mulher – nova ou velha – que não se importa rigorosamente nada com os filhos do seu marido, mas finge que se interessa e que cuida bem deles. Ou nem sequer finge! Uma madrasta pode invadir o espaço e ocupar todo o ar que os enteados precisariam para respirar em casa, em família. Estas mulheres manipuladoras têm, muitas vezes, a aparência de anjos. Essas chegam com ar amoroso e terno, tratam bem os filhos do seu amor e convencem-nos de que vieram por bem. Muitas vezes a coisa muda de figura entre o namoro e o casamento. Ou entre o tempo em que moram em casas separadas e o dia em que passam a viver todos juntos.

Madrastas dignas do nome são todas aquelas que se acham no direito de impôr a sua presença, de julgar as mães dos filhos dos maridos (falar mal da mãe em frente dos filhos acontece com demasiada frequência, muitas vezes com consentimento passivo ou activo do pai), de re-arranjar tudo em casa, dos espaços às rotinas. Há mulheres que avançam para casa do seu novo amor com malas e os próprios filhos, impondo à nova família um par ou dois de crianças e adolescentes mal educados que são obrigados a ‘casar’ à força com uma nova família e passam a usar a casa como se fosse sua, sem ter em conta a sensibilidade (e a antiguidade!) dos que sempre a habitaram.

Há mil milhões de histórias de madrastas abusivas que impuseram regras incríveis e tiveram o desplante de desalojar os filhos do marido dos seus próprios quartos, para darem os melhores espaços aos seus queridos filhos. Esta atitude pode ser muito dramática se os pais-homens não souberem proteger os seus filhos e não impuserem limites, até porque acontece com demasiada frequência estes homens viverem mais tempo na sua casa com os filhos da nova mulher, do que com os seus próprios filhos. As perplexidades e desconfortos inicialmente gerados por radicalismos desta natureza degeneram facilmente em grandes sofrimentos e feridas que dificilmente fecham, pois um filho expulso do seu próprio quarto que vê o seu espaço usado e abusado pelo filho da madrasta raramente recupera o amor próprio. Pior, fica com dúvidas sobre o amor do seu pai por si e pode sentir-se para sempre desprotegido.

Voltando às madrastas boas, que felizmente são mais que muitas, a marca destas mulheres será sempre a da ternura e abertura. As segundas e terceiras mulheres de um homem-que-já-é-pai, que sabem que a primeira e última prioridade dos seus homens são os seus filhos (e netos, quando os há!), têm a vida incrivelmente facilitada. Tal como os bons tios e bons avós, que estão sempre lá para os sobrinhos e netos, para os ouvir e acolher sem julgar; para os proteger e ajudar, também as boas madrastas sabem que é esse o seu papel: dar a prioridade total e absoluta aos filhos do marido, acolhendo falhas e imperfeições, porventura alguns excessos, sabendo que com paciência e bondade, esta atitude colhe sempre bons frutos. Mais cedo ou mais tarde os filhos percebem que as madrastas não vieram para lhes roubar o amor do pai, nem para lhes impôr regras estranhas, muito menos para os acusarem ou fazerem queixinhas, e acolhem também a sua presença sem a estranheza inicial.

Tal como dois mais dois serem quatro, também as boas madrastas sabem que uma atitude de abertura e, até, de protecção (saber guardar segredos, criando cumplicidades ternas, é apenas um exemplo de bom relacionamento entre madrastas e enteados) geram relações duradouras, muito mais fáceis e felizes. Relações que sobrevivem até a eventuais novas separações, pois há madrastas boas que continuam a amar os seus enteados e a saber manter com eles uma proximidade não invasiva, mesmo depois de a vida de família tornar a mudar.

A realidade das famílias contemporâneas é tremendamente complexa e a tradição já não é o que era. Daí que os laços entre madrastas e enteados devam ser reforçados, pois muitas vezes estas mulheres têm tanto ou mais poder sobre crianças e jovens que as mães e pais deles. Nos casos de guarda conjunta, para dar o exemplo mais comum, a presença e influência das madrastas é quase tão grande como a das mães.

Tudo o que vale para madrastas boas, tem igual valor para os bons padrastos, como é óbvio. Há demasiadas crianças e jovens a serem educados, acompanhados ou orientados por homens e mulheres com quem não têm laços biológicos e é importante perceber o impacto de uns nos outros.

Um homem capaz de conhecer e dar-se a conhecer aos filhos da sua mulher, sem a carregar de ciúmes nem castigar os filhos com as suas manias ou ideais de educação tem tudo para ser um padrasto bom. Embora a designação também não seja leve, pois padrasto não soa bem e rima com madrasta (má), o marido da mãe pode ser um homem a quem as crianças e jovens se ligam e com quem podem estabelecer laços para a vida. Mais, um padrasto bom pode ter uma influência enorme nos seus enteados, pois há demasiados filhos de pais ausentes.

Claro que os maus padrastos também são aqueles que invadem, obrigam, exigem, impõem e mandam, em sucessivos exercícios de autoridade tácita e explícita que enervam e geram muita frustração. Para não dizer revolta, pois pior que um mau pai, só um mau padrasto armado em pai.

Não sei quem irá inventar novas palavras para melhor integrar as boas realidades de ‘mulher do pai’ e ‘marido da mãe’ que exercem o seu papel sem carga negativa, só com impacto construtivo nos enteados, mas algum dia isso acontecerá. Até lá há a única maneira de aliviar o peso que ‘madrasta’ e ‘padrasto’ carregam é não deixar que a realidade confira com a ficção..

http://observador.pt/opiniao/a-minha-madrasta-nao-e-um-traste/

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