Caro António: fica você com os meus filhos, OK?

Exmo. primeiro-ministro António Costa

Tendo tomado conhecimento da simpática tolerância de ponto que Vossa Excelência concedeu aos funcionários públicos, para que no dia 12 possam apreciar pacatamente a circulação do Papamóvel pelas estradas de Portugal, vinha por este meio partilhar consigo o seguinte problema, aliás comum a outros habitantes do território nacional: infelizmente, eu não sou funcionário público. As tolerâncias de ponto não me assistem. Já os meus filhos, pelo contrário, frequentam escolas públicas. Desta confluência de factos resulta que eu vou ter de trabalhar na sexta-feira enquanto as minhas crianças não vão ter aulas, não têm ninguém para ficar com elas em casa, e ainda são muito novas para irem peregrinar sozinhas em direcção a Ourém. Coloca-se, então, a questão de saber o que faço com elas. Apenas se me afiguram dois modos de resolver esta contrariedade. Uma solução seria Vossa Excelência arranjar-me um emprego na função pública até à próxima quinta-feira. Contudo, custa-me pesar nas contas do Estado — estou habituado a ser contribuinte líquido — e corro o risco de o ministro das Finanças cativar o orçamento para a minha contratação até 2019. O mais rápido seria arranjar-me um lugar no seu gabinete, mas reconheço não ser fácil, visto não comungarmos da mesma visão política para o país. A solução que me parece, apesar de tudo, mais fazível é esta: enquanto eu trabalho, Vossa Excelência ficame com os putos, que até são rapazes e raparigas bem-educados, capazes de se sentarem à mesa (embora não muito direitos) e usar os talheres com correcção. Eles têm curiosidade em conhecer os jardins do palácio, já que falhámos a ida no último 25 de Abril, e eu tenho mais que fazer. Nesse sentido, e porque sei da sua infatigável disponibilidade para resolver todos os problemas dos portugueses, em geral, e dos lesados pelas tolerâncias de ponto, em particular, agradecia muito que me indicasse para o mail que encontra no final deste texto, ou para um número de telemóvel que os serviços secretos certamente lhe disponibilizarão, qual seria a melhor porta do Palácio de São Bento para eu largar os meus filhos nessa sexta-feira. Asseguro a Vossa Excelência que só terá de tomar conta deles durante o horário de expediente. Às cinco e meia, seis horas, o mais tardar, se houver muito trânsito, passaria por aí a buscá-los. Estou consciente da existência de uma terceira solução para o meu problema, que seria Vossa Excelência reverter a tolerância de ponto — até porque sabemos o quanto aprecia reversões. Há quem diga que somos uma república laica, que deveria manter o culto religioso na esfera privada; há quem alerte que o dia importante das comemorações — o 13 de Maio — é só no sábado; e há quem faça notar que está previsto o Papa chegar à base aérea de Monte Real às quatro e vinte da tarde de sexta-feira — bastaria sair do trabalho uma hora mais cedo para ver Francisco na televisão. Mas quem diz isto não tem em devida conta a sua notável capacidade para fazer funcionários públicos felizes, e o seu talento para vender mais milagres do que os três pastorinhos. Por isso, ficamos assim: dia 12, às nove da manhã, eu estarei com as minhas quatro crianças a tocar à campainha de São Bento. Aguardando, claro está, que os outros pais na minha situação não se lembrem de fazer o mesmo. Com um abraço cheio de caridade cristã, subscrevo-me respeitosamente,

João Miguel Tavares

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