Que farei quando tudo arde?

Quando António Lobo Antunes quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo também um retracto do país, perguntou assim: “Que farei quando tudo arde?” António Costa teve sorte: foi só ao fim de ano e meio de governação que se deparou com a mesma pergunta. Como é costume na política, tudo mudou num instante. Um pouco antes de Pedrógão, o Governo coleccionava sucessos: o do crescimento da economia, o do défice mais baixo da democracia, o da saída do procedimento por défice excessivo, aquele sinal da Fitch, colocando o rating à beira do positivo. Foi quando, num só fim-de-semana, o orgulho nacional insuflava com a visita do Papa Francisco e a vitória de Salvador Sobral que Marcelo disse assim: “Fiquei preocupado: é agora que os portugueses acham que vão ganhar tudo em que se metem.” E de repente chegou a tragédia de Pedrógão, e em cima dela o roubo de Tancos. Mas não chegaram sozinhos: vieram mais ameaças de greves no SNS, na Justiça, nas forças de segurança. Veio também mais pressão sobre o Orçamento — o que está em curso e aquele que ainda não se conseguiu negociar. Porque onde antes só havia uma pressão da esquerda para aumentar o investimento no SNS e na Educação, agora há a pressão de todo um país para pôr dinheiro na protecção civil, bombeiros e segurança. No fim, chegou o discurso: é preciso acabar com as cativações de Centeno. Este era o problema inevitável da governação ao centro a vestir-se de esquerda. A crítica — oportunista à direita e previsível à esquerda — chegaria um dia. Chegou agora, sem surpresa, ao primeiro sinal de crise. Na política é assim: quando tudo arde, todos fogem. E é aqui que chega o erro de avaliação política de António Costa: não é preciso um focus group para perceber que, quando a crise chega, os portugueses precisam de sentir uma mão no leme. Em Pedrógão, ao invés, vimos uma ministra a tremer, um arrastar das explicações, uma leve (mas perceptível) alusão ao downburst — que pode ser verdade, mas não chega para explicar e seguramente não fica bem. E depois, em Tancos, a repetição do erro: ao invés de uma declaração fi rme, o ministro preferiu explicar como o roubo já tinha acontecido lá fora e como nada sabia do que se passava dentro da casa que tutela. Em cima disto, sabemos que o primeiro ministro saiu para férias, sem avisar. Foi isso que a direita percebeu: uma hesitação na resposta à pergunta de Lobo Antunes. É claro que a direita estará enganada se achar que isto é o virar de ciclo para António Costa. Mas Costa estará também enganado se achar que, depois de Pedrógão e de Tancos, tudo voltará ao que era normal. É que à pergunta “o que farei quando tudo arde?”, a resposta certa é dizer “presente”.


david.dinis@publico.pt

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