Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura

                           Exposição

Porque julgamos digna de registo,
A nossa exposição, Sr. Ministro,
Erguemos até vós humildemente,
Uma toada uníssona e plangente,
Em que evitámos o menor  deslize,
E em que damos razão da nossa crise.

Senhor, em vão esta província inteira,
Desmoita,  lavra, atalha a sementeira,
Suando até à fralda da camisa.
Mas falta-nos a matéria orgânica precisa,
Na terra que é delgada e sempre fraca.
A matéria em questão, chama-se caca.
Precisamos de merda, senhor Soisa,
E nunca precisamos de outra coisa…

Se os membros desse ilustre Ministério
Querem tomar o nosso caso bem a sério;
Se é nobre o sentimento que os anima,
Mandem cagar-nos  toda a gente em cima
Dos maninhos torrões de cada herdade,
E mijem-nos  também, por caridade…

O Senhor Oliveira Salazar,
Quando tiver vontade  de cagar,
Venha até nós, solicito, calado,
Busque um terreno que estiver lavrado,
Deite as calças abaixo, com sossego,
Ajeite  o cu bem apontado ao rego,
E como Presidente do Conselho,
Queira espremer-se até ficar vermelho.

A nação confiou-lhe os seus destinos…
Então comprima, aperte os intestinos.
E ai… se lhe escapar um traque não se importe…
Quem sabe se o cheirá-lo não dará sorte…

Quantos porão as suas esperanças
Num traque do  Ministro das Finanças…
E também, quem vive aflito e sem  recursos,
Já não distingue os traques, dos discursos…

Não precisa falar, tenha a certeza,
Que a nossa maior fonte de riqueza,
Desde as grandes herdades às courelas,
Provém da merda que juntarmos nelas .

Precisamos de merda, senhor Soisa,
E nunca precisamos de outra coisa,
Adubos de potassa, cal, azote;
Tragam-nos merda pura do bispote,
E de todos os penicos portugueses,
Durante pelo menos uns seis meses.

Sobre o montado, sobre a terra campa,
Continuamente eles nos despejem trampa.
Ah terras alentejanas, terras nuas,
Desesperos de arados e charruas
Quem as compra ou arrenda ou quem as herda
Sempre a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda senhor Soisa,
E nunca precisamos de outra coisa…
Ah, merda grossa e fina, merda boa,
Das inúteis retretes de Lisboa.

Como é triste saber que todos vós

Andais cagando, sem pensar em nós…

Se querem fomentar a agricultura, 
Mandem vir muita gente com soltura…
Nós daremos o trigo em larga escala,
Pois até nos faz conta a merda rala…

Ah, venham todas as merdas à vontade,
Não faremos questão da qualidade,
Formas normais ou formas esquisitas.
E desde o cagalhão às caganitas,
Desde a pequena poia, à grande bosta,
Tudo o que vier a gente gosta,
Precisamos de merda, Senhor Soisa ,
E nunca precisamos de outra coisa…

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