Atura-te a ti mesmo

“Conhece-te a ti mesmo”, diziam os gregos. “Ama-te a ti mesmo”, recomendam os actuais gurus da auto-ajuda. São dois conselhos incompatíveis, pelo menos no meu caso. Ou bem que me conheço, ou bem que me amo.

Ricardo Araújo Pereira

“Conhece-te a ti mesmo”, diziam os gregos. “Ama-te a ti mesmo”, recomendam os actuais gurus da auto-ajuda. São dois conselhos incompatíveis, pelo menos no meu caso. Ou bem que me conheço, ou bem que me amo. Considerar ambas as sugestões ao mesmo tempo é impossível, e escolher apenas uma é inútil: a primeira tarefa é desinteressante e a segunda é imoral. Posto isto, tenho optado por andar a conhecer (e, inevitavelmente, a amar) os actuais gurus da auto-ajuda. Aprendi três conceitos fundamentais: devo acreditar em mim, não desistir dos meus sonhos, e pensar positivo. Até aqui, a minha vida era orientada por três princípios bastante diferentes: desconfia de ti, deixa-te de sonhos, uma vez que não és a Cinderela, e pensa. Estava tudo errado. Pensar não me permitia pensar positivo. Punha-me a pensar (creio que de forma neutra) e concluía que o pensamento positivo, isto é, a ideia segundo a qual nos acontecem coisas boas se pensarmos em coisas boas, era ridícula. A minha experiência pessoal também não ajudava, na medida em que eu tinha passado toda a adolescência a pensar em coisas boas (seios, sobretudo) e não me tinham acontecido coisas boas (seios, por exemplo, nunca). Também não me dedicava a sonhar, porque imaginava que a minha vida não tinha sido desenhada por Walt Disney. Claro que houve momentos, durante a infância, em que fantasiei com o meu futuro, mas essas fantasias não se concretizaram, e é por isso que hoje não sou um cardiologista que cura pessoas durante o dia, combate o crime durante a noite e joga na equipa principal do Benfica ao fim-de-semana. Por fim, estava habituado a desconfiar de mim. Por azar, nasci sem saber fazer nada, e por isso desenvolvi uma suspeita muito forte de que não conseguia fazer nada. Essa suspeita levava-me a tentar preparar-me, para aprender. Tivesse eu sabido mais cedo que me bastava sonhar, acreditar e pensar nas coisas certas, e a esta hora estaria a beijar uma princesa adormecida há muito tempo, e a viver feliz para sempre. Um dos aspectos que mais me aproxima dos novos gurus é o amor pela linguagem. Vê-se que não estudaram etimologia, mas acreditam, sonham, e pensam positivo sobre todas as partes da gramática. Um dos pregadores da Igreja Universal do Reino do Empreendedorismo tinha dito que a palavra “empreendedor” acabava em “dor” porque ser empreendedor era muito doloroso. Essa observação fez-me ganhar um novo respeito pelo espanador e mesmo pelo esquentador, que partilham aquela terminação, e são objectos cujo sofrimento eu desconhecia. Um outro teórico disse há dias que a nossa mente se chama mente porque nos mente todos os dias. Suponho que, em inglês, a mente se chame “mind” porque a mente dos ingleses não é aldrabona. Má sorte ter nascido português. O mesmo filósofo disse ainda que, se dividirmos ao meio a palavra “presente”, temos “pré-sente”, porque o presente é uma altura em que não estamos ainda a sentir teoria que ele postula num livro a que, sem receio de cacofonias, chamou “Agarra o agora”. E acrescentou que é impossível pensar e sentir ao mesmo tempo. São óptimas notícias para as vítimas de tortura. Basta que comecem a pensar e deixarão de sentir. Desde que não se esqueçam de pensar positivo.

Visão31.07.2014

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