CAMILO CASTELO BRANCO – UMA DESGRAÇA NUNCA VEM SÓ.

1825 – Nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa, a 16 de Março. O segundo filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, solteiro, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira , sua criada, foi registado como filho de mãe incógnita, certamente devido às origens humildes da progenitora.

Apenas com dois anos de idade, Camilo ficou órfão de mãe, sendo perfilhado pelo pai, juntamente com a sua irmã Carolina. Por esta altura, a sua família deslocou-se para Vila Real, onde o pai fora colocado como responsável pelos correios.

1827 – Morre a mãe.

1835 – Morre o pai.

1836 – Camilo e a irmã partem para Vila Real. Passam a viver com uma tia paterna.

1831 – Os três membros da família regressaram à capital, após a demissão de Manuel Joaquim por acusação de fraude. Com a morte deste, as duas crianças foram entregues aos cuidados de sua tia paterna, D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco.

1841 – Com apenas dezasseis anos de idade, Camilo casou-se com Joaquina Pereira de França, em São Salvador, e instalou-se em Friúme.

1843 – Nasce Rosa Pereira de França Castelo Branco. Nesse ano, o jovem fixou-se pela primeira vez no Porto, numa casa da Rua Escura. Em Trás-os-Montes deixara a tia Rita, a mulher e uma filha de meses.


– Matriculou-se no 1º ano de Anatomia da Escola Médico-Cirúrgica e depois em Química, na Academia Politécnica. Frequentou o primeiro ano do Curso de Medicina e no ano seguinte voltou a inscrever-se na Escola Médica, mas perdeu o ano por faltas, uma vez que era mais assíduo frequentador dos ambientes boémios do que das aulas.

1844 – Começou então a participar nos abadessados ou outeiros de abadessados (certames poéticos que ocorriam nos pátios conventuais e duravam três dias e três noites, nos quais os poetas glosavam motes dados pelas Monjas, que em troca, ofereciam doces e vinho fino) e publicou as primeiras obras poéticas.

Depois de conseguir tomar posse do que restava da sua herança, voltou a Vila Real. Nesta terra perdeu-se de amores pela prima Patrícia Emília do Carmo Barros. Com ela fugiu para o Porto.

1846 – Passou 11 dias na Cadeia da Relação, por ter sido acusado de roubar 20 000 cruzados a João Pinto da Cunha, pai de Patrícia e amante da sua tia.

– Depois de libertado, regressou a Vila Real e manteve a relação com a prima Patrícia Emília.

1847 – Na sequência da morte da sua esposa, Joaquina Pereira, voltou ao Porto.

1848 – Alojou-se no Hotel Francês ( Paris ), da Rua da Fábrica.

– Morre a filha Rosa e nasce a filha Bernardina Amélia ( casou com um capitalista idoso), fruto da sua relação com Patrícia Emília, criança que foi colocada na Roda dos Expostos, depois entregue à freira Isabel Cândida Vaz Mourão, do portuense convento de São Bento de Avé-Maria, amante de Camilo.

1851 – Passou algum tempo na capital, onde redigiu o seu primeiro romance, Anátema, publicado no Porto.

– Tomou parte na polémica entre Herculano e alguns padres sobre o milagre de Ourique e enamorou-se da escritora Ana Augusta Plácido, noiva de Manuel Pinheiro Alves.

1852 – Nesta fase da sua vida, imbuído de um surpreendente fervor religioso que se julga ter sido inspirado na impressão causada pelo exemplo do Dr. Câmara Sinval, lente da Escola Médica, que, já idoso, tomou ordens tornando-se pregador em S. Filipe de Nery, ponderou seguir uma carreira religiosa. Para tal, matriculou-se nas Aulas de Teologia, Dogmática e Moral, do Seminário Diocesano, ao tempo instalado no Paço Episcopal, e chegou mesmo a requerer ordens menores.

1857 – Instalou-se em Viana do Castelo, onde, trabalhou como redactor do periódico A Aurora do Lima.

Mas não estava só. Acompanhava-o Ana Plácido, esposa de Pinheiro Alves, que para aí o seguira, com a desculpa de acompanhar uma irmã. Muito rapidamente, esta ligação amorosa viria a tornar-se pública e notória.

1859 – Camilo e Ana Plácido partiram para Lisboa. Mas a vida não estava fácil para os dois amantes que, na prática, eram dois fugitivos, deambulando pelo país e debatendo-se com dificuldades económicas.

– A 11 de Agosto deste ano, nasceu Manuel Plácido, filho de Camilo e Ana Plácido, mas que veio a ser registado legalmente como filho de Pinheiro Alves.

1860 – Pinheiro Alves, o marido traído, moveu-lhes um processo de adultério que os atirou para a Cadeia da Relação do Porto. Ana Plácido foi presa a 6 de Junho e Camilo, que andara fugido no Entre-Douro-e-Minho, entregou-se às autoridades no primeiro dia de Outubro. No cárcere, onde, em abono da verdade, dispunha de algumas comodidades e, sobretudo, não se encontrava exclusivamente
confinado a uma cela, Camilo recebeu a visita de D. Pedro V, por duas ocasiões, e escreveu, no prazo record de 15 dias, o seu mais lido e popular romance, Amor de Perdição.

1861 – Ana e Camilo foram julgados e absolvidos por influência do Dr. José Maria Teixeira de Queiroz, pai de Eça, conselheiro do Tribunal.

1862 – O casal foi viver para Lisboa.

1863 – Nasce o seu filho Jorge Camilo Plácido de Castelo-Branco.

– Morte de Pinheiro Alves e o seu “filho” legal, Manuel Plácido, herdou a casa de São Miguel de Seide, em Famalicão.

1864 – A família muda-se para São Miguel de Seide, onde nasceria, em 15 de Setembro, o terceiro filho do casal, Nuno Plácido de Castelo-Branco.”

OS FILHOS
Manuel

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Registado legalmente como filho de Pinheiro Alves

Parece ter sido um jovem que amava bailes, que morreria aos 19 anos de uma “febre”, provavelmente meningite.
Jorge

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Era declaradamente louco, com episódios violentos em que agredia os pais, tendo estado mesmo internado no Hospital de Alienados Conde Ferreira aos cuidados dos psiquiatras Ricardo Jorge, António Maria de Sena e Júlio de Matos, tendo sido considerado um doente irrecuperável. Terminou os seus dias num estado de apatia depressiva e de degradação (cuspia a quem passava e impedia que lhe limpassem o quarto, despejando os dejectos no soalho).
Nuno

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Viria a ser um estróina irresponsável, sempre metido em sarilhos sórdidos. Desordeiro, alcoólico, perdulário, viciado no jogo , e incapaz de trabalhar, em 1881, casou-se por interesse com uma herdeira rica, Maria Isabel da Costa Macedo que raptara, instigado e ajudado pelo seu pai Camilo. Com Maria Isabel da Costa Macedo teve uma filha, que acabaria por morrer poucos dias depois da infeliz mãe. Por via da morte da filha, Nuno herdou o remanescente da fortuna da mulher, que entretanto fora gastando na boémia continuada. No mesmo ano, ligou-se a Ana Rosa Correia descendente de lavradores de Landim, com quem teria 7 filhos.

1877 – Camilo vê morrer na Póvoa de Varzim, aos 19 anos, o seu filho predilecto, Manuel.

1878 – Pioram os problemas de visão e foi ferido num acidente de comboio entre São Romão e Ermesinde.

1882 – As relações com o filho Nuno degradaram-se e Camilo acabou por expulsá-lo de casa.

1883 – Leiloou a biblioteca pessoal, em Lisboa, devido a dificuldades financeiras.

1884 – Morre a nora Maria Isabel.

– Morre a neta Camila, filha de Nuno.

1888 – Formalizou a sua ligação com Ana Plácido, com quem casou, na Invicta, em 9 de Março na Igreja e Santo Ildefonso. Habitou na Rua de Santa Catarina no actual nº 630 – 2º andar.

1890 – Suicídio do escritor Júlio César Machado, amigo de Camilo.

1890 – No dia 1 de Junho depois de uma derradeira consulta num especialista de oftalmologia, matou a última réstia de esperança de curar a cegueira, suicidou-se, como já antes havia ameaçado, com um tiro disparado sobre o ouvido direito. Foi sepultado no jazigo do seu amigo Freitas Fortuna, no cemitério da Lapa, no Porto, lugar que previamente escolhera para sua última morada.”

Nota – A 17 de Março de 1915, um violento incêndio devorou completa e inexplicavelmente a casa de S. Miguel de Seide.

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CAMILO CASTELO BRANCO NO PORTO

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“Cansei-me de ouvir dizer que a segunda cidade de Portugal é um enxame de moedeiros falsos, de contrabandistas, de mercadores de negros, de exportadores, e de magistrados de alquilaria.

Venalidade, crueza e latrocínio são os três eixos capitais sobre que roda, no entender da crítica mordente, o maquinismo social de cem mil almas.

A minha análise aprofunda mais o espírito do Porto. Ali, o viver íntimo tem faces desconhecidas ao olho da polícia, e da economia social.”

MUITA ESCOLA – POUCO ESTUDO

image Matriculou-se no 1º ano de Anatomia da Escola Médico-Cirúrgica

image  Hospital de Santo António


ACADEMIA POLITÉCNICA

“Estudava eu Química na Academia do Porto.

De dois discípulos somente me recordo bem. Um era o melhor estudante; o outro, último da lista, seria o pior do curso, se eu lá não estivesse.

[…] Fugíamos da aula de cócoras, quando o sol de Deus nos estava incitando à rebelião. Com que tristeza eu via o sol e invejava a minha vida lá das serras donde viera estudar o sesquióxido de ferro e o bicarbonato de soda naquelas salas frias do convento da Graça.

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Praça Gomes Teixeira ( dos Leões )

“[…] Soou a hora do acto. Já de antemão os condiscípulos me davam os pêsames: dizia-se que eu, além de ser um parvo quimicamente falando, tinha quarenta e oito faltas, afora vinte e duas abonadas, sete negas e cinco fugidas.

[…] Que acto eu fiz! Desenruguei a fronte do lente, enchi de júbilo os arguentes, espantei os condiscípulos e fui aprovado nemine discrepante”.

(In Cavar em ruínas)

SEMINÁRIO DIOCESANO

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Terreiro da Sé

Matriculou-se nas Aulas de Teologia, Dogmática e Moral, do Seminário Diocesano, ao tempo instalado no Paço Episcopal.

MORADA INCERTA

Rua Escura

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«Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do Porto, um beco fétido de coirama surrada…»

(In Rapsódia Camiliana, de António Joaquim)

Rua da Fábrica

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“A D. Ana dos Estudantes era […] a mais conhecida, mais antiga e mais económica hospedeira dos académicos, no Porto. Nova ainda, viera estabelecer-se com quartel de estudantes ao cimo da Rua da Fábrica, em frente à Praça de Santa Teresa, numa casa de dois andares. Ali se hospedou também, quando estudante, Camilo Castelo Branco.

– Nunca cá veio um maldito mais endiabrado do que aquele! – comentava escandalizada. E contava as partidas que ele lhe fizera.

Sentado à escrivaninha do quarto com janela aberta para a Rua da Fábrica, Camilo passa os dias a escrever.

Chega a noite e junta-se à cavaqueira na sala de jantar da hospedaria. As caricatas ocorrências da noite anterior no Teatro São João envolvendo opulentos comerciantes, no baile da Assembleia Portuense ou na Sociedade Filarmónica, os espontâneos versos de amor a “Ela, a mulher anjo”, fazem as delícias de quem ali se encontra.”

Rua do Almada

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Ou na Rua Chã ou em Cimo de Vila

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Rua Chã Cimo de Vila

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Rua de Santa Catarina ( lado norte )

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Rua da Sovela/Rua Mártires da Liberdade

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Rua de Santo António

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Rua do Pinheiro

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Pensão na Quinta do Pinheiro (antiga Escola Académica e depois Teatro Experimental do Porto onde houve um incêndio)

Rua do Sol ( à esquerda )

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Rua de D. Pedro ( já demolida )

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OS CAFÉS

Zona dos botequins

Praça Nova

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Praça da Liberdade

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Café Ghichard

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Praça Nova Praça da Liberdade

 

“Camilo encontrava-se, numa noite, com uns amigos, no café Guichard, do Porto, quando viu entrar certo sujeito. Ergueu-se da cadeira, foi ao encontro dele, abraçou-o efusivamente e exclamou em voz alta:

– Ó Lacerda, ao tempo que te não via!

– V. Ex.ª, Sr. Camilo, deve estar enganado – murmurou o homem, que, como quase toda a gente do Porto, dessa época, conhecia o romancista, não apenas de nome, mas de vista.

– Enganado?

– Com certeza, Sr. Camilo. Porque eu não sou Lacerda: sou Rodrigues.

Logo, Camilo, espantoso de naturalidade:

– Não é Lacerda? Que pena! E eu que precisava tanto de uma rima para mandar a certo sítio um cavalheiro que ali está!”

Maio 15, 2012 por casa de camilo

“Em 1849…o Café Guichard – que eu chamaria uma colmeia onde se emelavam doces favos de espírito, se aquele botequim não fosse antes um vespeiro que desferia, às revoadas, ferretoando os bócios dos gordos filistinos da “Assembleia” e as macias espáduas lácteas das suas consortes no coração e nos ádipos.”

In Serões de São Miguel de Seide

Camilo Castelo Branco

Café Águia d´Ouro

Praça da Batalha

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Café Suisso

Praça Nova

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Praça da Liberdade

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Hotel Francês ( Paris )

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Em 1848 Camilo alojou-se no Hotel Francês, da Rua da Fábrica

PASSEANDO

Palácio de Cristal

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A banhos em Leça e na Foz

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OS TEATROS

REAL TEATRO DE S. JOÃO

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Praça da Batalha

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TEATRO BAQUET

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Entrada principal – Rua de Santo Antónioimage

Rua 31 de Janeiro – Edifício da CGD

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Entrada pela rua de Sá da Bandeira Hotel Teatro

REAL TEATRO-CIRCO DO PRÍNCIPE REAL

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Rua Sá da Bandeira


Casas particulares do século XIX convertidas em teatros

“Naquela época, o Teatro e a Imprensa, a par com as tertúlias dos cafés, apareceram como os mais importantes mentores e difusores da cultura portuense.

No que ao Teatro diz respeito há que esclarecer que uma parte significativa das salas então existentes funcionavam em casas particulares.”


http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=456689&page=-1

AMORES DE PERDIÇÃO

(apenas o que se sabe )

“Apenas dezasseis anos de idade, Camilo casou-se com Joaquina Pereira de França.

A 25 de Agosto de 1843 nasceu Rosa Pereira de França Castelo Branco, filha de Camilo com Joaquina.

Depois de conseguir tomar posse do que restava da sua herança, voltou a Vila Real. Nesta terra perdeu-se de amores pela prima Patrícia Emília do Carmo Barros. Com ela fugiu para o Porto. “

imagePatrícia Emília

NO CONVENTO DE S.BENTO DA AVÉ-MARIA

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“Começou a participar nos abadessados ou outeiros de abadessados (certames poéticos que ocorriam nos pátios conventuais e duravam três dias e três noites, nos quais os poetas glosavam motes dados pelas Monjas, que em troca, ofereciam doces e vinho fino).

Em 1848 morreu-lhe a filha Rosa e nasceu-lhe a filha Bernardina Amélia, fruto da sua relação com Patrícia Emília, criança que foi colocada na Roda dos Expostos, depois temporariamente criada em Samardã e, por fim, entregue à freira Isabel Cândida Vaz Mourão, do portuense convento de São Bento de Ave-maria, amante de Camilo.”

A PERDIÇÃO

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O TRIBUNAL

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imagePraça D. Filipa de Lencastre

A CADEIA

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Em 1846, já estivera aqui preso por ter raptado Patrícia Emília.( Cordoaria )

UM AMIGO INESPERADO ( OU TALVEZ NÃO )

Chefe da quadrilha mais famosa do Marão, Zé do Telhado é conhecido por “roubar aos ricos para dar aos pobres” e, por isso, muitos o consideram o Robin dos Bosques português.

A CELA

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“No cárcere, onde, em abono da verdade, dispunha de algumas comodidades e, sobretudo, não se encontrava exclusivamente confinado a uma cela, Camilo recebeu a visita de D. Pedro V, por duas ocasiões, e escreveu, no prazo record de 15 dias, o seu mais lido e popular romance, Amor de Perdição.”


O ROMANCE DOS ROMANCES

imageConvento de Monchique

— Onde é Monchique? — perguntou Simão a Mariana. — É acolá, senhor Simão — respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaia.

In”Amor de Perdição” 25

COM ANA PLÁCIDO DE CASA EM CASA

( OS VIZINHOS NÃO PERDOAM )

Rua de Cedofeita

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Rua da Picaria

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Foz do Douro

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Rua do Almada

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Rua do Triunfo/Rua de D. Manuel II

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“Mudou da rua do Almada para um prédio da rua do Triunfo, em frente do portão que dá ingresso a
veículos no Jardim do Palácio de Cristal.”

Rua de S. Lázaro /Av. Rodrigues de Freitas

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Em 1872, recebeu D. Pedro II, imperador do Brasil, na sua casa da Rua de São Lázaro.

Rua do Bonjardim

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Rua de Santa Catarina, nº 630 – 2º

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“Aqui formalizou a sua ligação com Ana Plácido, com quem casou a 9 de Março de 1888, na Igreja de Santo Ildefonso.”


A MORADA CERTA

(POR EMPRÉSTIMO)

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1890

Fontes:


http://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1000859

http://portoacademico.blogspot.pt/2010_03_01_archive.html
http://casadecamilo.wordpress.com/
http://pontopin.blogspot.pt/2012/02/baixa-e-francesa.html
http://www.triplov.com/isabel_cruz/academia_politec/olhar_sobre.html
http://pt.slideshare.net/CafesNNM/cafs-do-porto-antes-e-depois?next_slideshow=1
http://comunidade.sol.pt/blogs/pereiradasilva/archive/2010/03/28/Os-Caf_E900_s-da-Baixa-do-Porto.aspx

http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/

http://portoarc.blogspot.pt/2013_11_01_archive.html

http://www.apha.pt/boletim/boletim2/pdf/CafesDoPorto.pdf

http://www.oportoencanta.com/2013/05/por-um-circuito-cultural-e-com.html

http://www.publico.pt/local-porto/jornal/viagem-ao-porto-dos-escritores-187767

http://www.ulisses.us/lucia-148-camilo-mulheres-abismos.htm

http://scans.library.utoronto.ca/pdf/7/37/otorturadodeseid00pime/otorturadodeseid00pime.pdf

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Demissão irrevogável de Portas foi combinada com Ricardo Salgado para fazer cair o Governo?

O novo livro do jornalista e director-adjunto de Informação da SIC promete gerar polémica. Lança luz sobre as relações entre políticos e banqueiros e oferece uma nova explicação para a célebre demissão irrevogável de Paulo Portas em 2013: estaria o líder do CDS concertado com Ricardo Salgado, para fazer cair o Governo?

Cristina Bernardo

Refere logo no início que este livro tem como destino ser desmentido. Porquê?

Porque algumas personalidades aqui retratadas não vão poder admitir que as coisas se passaram exatamente assim. Não é fácil admitir aquilo que está escrito neste livro e que revela um tipo de atitude e de comportamento perante os problemas das instituições bancárias. Acho que ainda hoje isso constitui um incómodo para muita gente, a começar pelo Dr. Paulo Portas.

Pode ser mais específico?Este livro tem duas partes. A primeira é tentar perceber por que houve atitudes, ao nível da política, que aparentemente tiveram uma justificação. Mas que depois, quando começamos a tentar perceber, constatamos que as peças não encaixam. Por exemplo, a “demissão irrevogável” de Paulo Portas, em julho de 2013, um dia depois de Vítor Gaspar ter pedido a demissão, quando no Governo já todos sabiam desde 2012 que o ministro das Finanças pretendia sair. Portas demite-se na sequência de um braço de ferro com Passos Coelho, que não estava completamente explicado na minha cabeça, porque Paulo Portas nunca apresentava políticas alternativas para subsituir aquelas que não queria permitir. Ele não aceitava as medidas de Passos e Vitor Gaspar, mas também não apresentava alternativas. E mais tarde, no final de 2014, princípio de 2015, ao falar com vários protagonistas do que foi a resolução do BES e dos acontecimentos políticos anteriores e posteriores, houve muita informação que me foi dada mas que na altura guardei porque não quis interferir direta ou indiretamente no processo eleitoral que viria a decorrer no final de 2015. Achei que algumas pessoas poderiam interpretar isso como uma tentativa de influenciar a discussão política num determinado sentido. Não quis correr esse risco e guardei a informação até hoje

E quando começou então a trabalhar neste livro?

No ano passado, comecei a escrever este livro e tentei juntar as peças do puzzle. Porque é que Portas se tinha demitido, aparentemente sem razões políticas para isso? Podia ter algumas, mas não seria uma justificação para sair assim. E no final de 2014, princípio de 2015, tive acesso a informação de vários protagonistas da altura, de histórias passadas antes, que me confidenciaram as razões que estariam por trás da demissão de Paulo Portas. Uma das pistas leva-me à existência de uma grande divergência sobre o tratamento a dar aos bancos e aos seus problemas. E na altura, em 2013, eu próprio não tinha percebido isso. Foi preciso acontecer o colapso do Grupo Espírito Santo (GES) e do BES, em 2014, para mais tarde, com essas fontes, começar a interpretar comportamentos. E de repente parece que o puzzle se encaixa. Afinal havia, para além de razoes políticas e partidárias, também razões relacionadas com os bancos e nomeadamente com o BES.

Acredita nisso como um facto ou é uma hipótese que levanta?

Vou responder da seguinte maneira: na nossa vida de jornalista – e nós trabalhamos na mesma área – quando há um rumor, o princípio é o jornalista nunca o mencionar. Mas há rumores que são vivos e atuantes, por exemplo, que podem influenciar a bolsa no sentido da queda ou de a fazer subir 20 ou 30%. E assim torna-se um facto em si mesmo. A verdade é que este tipo de confidências feitas pelas fontes existem e estão atuantes ainda hoje. Há muita gente com responsabilidades que fala desses tempos e que diz que houve algo mais do que uma divergência política. E o algo mais teria a ver com o tratamento a dar aos bancos e ao que poderia acontecer ao BES e ao GES. Essas fontes dizem claramente que haveria um entendimento entre o vice-primeiro ministro Paulo Portas e o banqueiro. Tanto assim é que, e essa é uma informação que ficou guardada até hoje – ou melhor, até há algumas semanas, pois entretanto José Maria Ricciardi, num interrogatório da “Operação Marquês”, acabou por referir esse facto -, Paulo Portas encontrou-se com Ricardo Salgado no dia a seguir à sua demissão, isto é, quarta-feira, 3 de julho de 2013. E porquê? É uma coisa que parece absolutamente desconexada com o resto. Ora se fizermos a ligação com o que as fontes disseram, só pode haver uma interpretação: haveria uma espécie de entendimento, acordo ou conjugação de interesses. Essa é uma das teses do livro. Esta é a primeira parte. É perceber o que foi a motivação dos políticos, dos reguladores e dos banqueiros, nomeadamente Ricardo Salgado.

E a segunda parte?

A segunda parte tenta classificar como foi que a classe política tratou os problemas dos bancos, alargando o leque e classificando os comportamentos e atitudes num período de dez anos, desde o surgimento da parte visível dos problemas do BPN, em 2007. E acho que essa classificação responde a essa necessidade que dez milhões de portugueses sentem: nas televisões e nos jornais, damos muitas notícias sobre o que se passou com os bancos. A maior parte dessa informação é de fonte segura, mas acontece que a maioria das pessoas, com tanta informação sobre realidades tão complexas, acaba por se perder. A segunda parte do livro tenta, por isso, classificar as atitudes dos políticos perante os problemas dos bancos. E chego à conclusão de que existem três períodos distintos: a primeira foi a de nacionalização, concessão de garantias do Estado e de integração de bancos com problemas noutros bancos, como o Finibanco no Montepio. Passado esse período, entramos no da troika e na célebre declaração de Deauville, em que os líderes europeus disseram que os problemas dos bancos deviam ser resolvidos pelos accionistas e a nível nacional. E portanto, na sequência disso, a política oficial passa a ser a de que os bancos em dificuldades têm de obedecer a uma hierarquia de responsabilidades, nos quais os donos do capital são os primeiros a responder e por aí fora até aos depositantes acima de determinado montante, tentando deixar de fora os contribuintes. Esse período corresponde à fase entre a intervenção da troika até ao período da “saída limpa”, em que os governantes e os reguladores foram os mesmos, Carlos Costa, Passos Coelho e Maria Luis, embora os dois últimos tenham dito que não tiveram nada a ver com o que se fez na banca, trataram de tudo e isso foi relatado no livro.

As regras da resolução foram evoluindo na Europa e já não são as mesmas, atualmente. E aquela lei que foi transposta à pressa, na verdade, obedece a uma tendência europeia…

Esse é o terceiro período que vem retratado no livro. Afinal, as leis europeias acabaram por não ser respeitadas. O caso do BES foi praticamente único na Europa, tirando um pequeno banco austríaco.

Porque teve lugar numa fase de transição?

Não só por isso. O que aconteceu é que os governos começaram a perceber que atribuir as responsabilidades a esta hierarquia de responsabilidades não uiria resolver os problemas. O que leva a que a própria Alemanha tenha fechado os olhos e tenha apoiado a forma de ajuda aos bancos do Véneto, em Itália, em que foram poupados os investidores com papel comercial. Traduzindo para Portugal, a conclusão do livro é que voltamos a um tempo em que Presidente da República, primeiro-ministro e governador – que mudou de posição entretanto – estão conjugados no sentido de dizer aos contribuintes: venham cá e tratem de pagar e bem. É essa a conclusão do livro.

A certa altura pergunta no livro se a forma de intervenção no BES teria sido diferente, com Marcelo e António Costa no poder. É uma pergunta cuja resposta já conhece ou deixa em aberto?

Sei a resposta. O que está no livro é um “se mais se mais se” e tem uma resposta, que é: não teria acontecido assim. E a fonte que o disse tem responsabilidades neste pais.

O que teria acontecido?

Teriam arranjado uma solução para recapitalizar o BES. E a minha dúvida é se teriam afastado ou não Ricardo Salgado. Essa fonte disse-me isto: teria havido outra solução. E das duas vezes em que fiz a pergunta, depois de longos segundos de pausa, acrescentou: mas não para manter Ricardo Salgado. Isto tem a ver com outra coisa, que é explicada no início do livro, que é o surgimento de uma estranha coligação de direita e esquerda, isto é, PCP, BE, PS, uma parte do PSD e sobretudo CDS, contra o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa (…). O governador é o bombo da festa, mas depois apareceu uma voz isolada, a de António Horta Osório, a dizer que o Carlos Costa foi muito corajoso. E porque é que destaco isso? Porque se não fosse a resolução e o modo como Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque não apoiaram a concessão de um empréstimo de 2,5 mil milhões de euros às empresas do GES, o grupo e o banco tinham disfarçado os seus problemas e provavelmentre Ricardo Salgado ainda hoje estava no poder. E isso seria um problema, porque mais tarde o grupo rebentaria anda com mais força e o lobby não teria saído do pais. Um lobby que foi muito prejudicial ao pais. Portanto Carlos Costa teve coragem, que pouca gente destaca, mas que a Historia um dia dirá. Horta Osório foi o único a dizê-lo em voz alta, pois é quem está fora do País que o pode dizer.

Daí o titulo do livro?

Sim, essa é uma das razões para o titulo “A vénia do país ao regime dos banqueiros”. A outra razão é que acabou por vingar a tese de que os contribuintes são chamados a pagar os problemas dos bancos.

Mas as regras de intervenção nos bancos têm assentado na tese de que os contribuintes não devem ser chamados a colocar dinheiro nos bancos… é por isso que surge a figura da resolução.

Só que o que acontece é que, no final da linha, os contribuintes são chamados de forma absolutamente esmagadora em relação à quantidade de dinheiro que é preciso empregar na resolução dos problemas dos bancos, como se viu no BES e no Banif.

Segundo o livro, houve uma tentativa de evitar que Maria Luís Albuquerque fosse nomeada Ministra das Finanças, porquê?

A minha interpretação é que nessa altura, e coincide com o que foi dito numa reunião com o primeiro-ministro por Paulo Portas, que diz que não queria um “Vítor Gaspar de saias”, já havia um cálculo antecipado que quando chegasse a hora de pedir ao Estado para ajudar o GES e o BES a resposta de Maria Luís iria ser não.

Então o episódio da demissão irrevogável de Paulo Portas está relacionado com uma tentativa do líder do CDS de ajudar Ricardo Salgado?

Só se torna claro mais tarde que essa guerra política podia ter outras motivações.

Está a dizer que havia um lobby fortíssimo que queria forçar a demissão do Governo, ou pelo menos evitar a nomeação de Maria Luís Albuquerque para que quando o BES fosse lá pedir dinheiro houvesse um apoio?

Sim. Tenho fontes a sustentar essa tese.

Esse lobby incluia Paulo Portas?

E parte do setor financeiro. Visto à posteriori, nessa altura [em 2013] Ricardo Salgado já sabia que o grupo estava com dificuldades e objetivamente as minhas fontes dizem que houve mesmo uma tentativa de condicionar a nomeação de Maria Luís Albuquerque, e chegou mesmo a haver um nome avançado: Paulo Macedo. Mas talvez se enganassem no cálculo, pois era mais provável que Paulo Macedo tivesse recusado intervenção do Estado na ajuda ao GES. O facto de Maria Luís ter ficado como Ministra das Finanças provocou a demissão de Paulo Portas e as minhas fontes dizem que desconfiam que o objetivo era que todo o Governo caísse e, quando nessa noite da demissão irrevogável Pedro Passos Coelho convoca a imprensa e faz uma declaração desconcertante, em que diz: “também eu fiquei surpreendido”. Como Passos Coelho não aceita a queda do Governo, não se demite e segue em frente mesmo sem apoio do CDS. Por sua vez, Cavaco Silva, enquanto Presidente da República, não deu relevo à demissão de Paulo Portas.

Como reagiu Paulo Portas quando o confrontou com esta tese?Disse que era uma tese fantasiosa, fruto de uma imaginação prodigiosa. Mas não é possível separar o que aconteceu com o BES e GES dos factos politicos que o antecederam. Faço no livro uma ressalva a dizer que não escrevo este livro para julgar o carácter das pessoas nem para apontar defeitos, mas sim para tentar interpretar atitudes e comportamentos com base no critério da política partidária, mas pressupondo que haveria mais alguma coisa no mundo dos negócios e da banca. E o facto de um banqueiro que tem um grupo em dificuldades já saber naquela altura que ia necessitar de apoio, o que veio a acontecer pouco depois. É no fundo deixar a questão: e se os factos políticos de 2013 fossem por causa de um grupo económico e um banco que era dos maiores do país?

Ou seja, a demissão irrevogável de Portas era para fazer cair o Governo de Passos Coelho?

E para influenciar a escolha de um novo Governo que poderiam vir a ajudar a banca, nomeadamente o BES. Aliás, a própria mudança de liderança do Partido Socialista, vista à luz deste critério, poderá ter – eu não digo que tenha sido o único motivo – mas poderá estar relacionada com estas razões de ajudar o sistema financeiro.

Mas a entrada de António Costa acontece tarde demais para Ricardo Salgado?

Certo. Mas o principio da disputa do poder foi antes. Curiosamente António José Seguro, em determinada fase, que coincide com a altura em que são divulgadas as contas do Banco Espírito Santo, e se descobre que o banco tem um buraco enorme, começa a falar do conluio entre a banca e a finança e começa a criticar a promiscuidade entre os negócios e a banca, literalmente. Logo a seguir deixa de ser líder do PS e pouco tempo depois, Pedro Passos Coelho deixa de ser primeiro-ministro da forma que sabemos, mas isto, assumo que já estou a especular, a interpretar. Mas leva-nos a outra pergunta: teria o mundo da finança e o mundo dos negócios influenciado coisas que nós não sabemos? Como referi há pouco, o livro depois evolui para outra questão, com António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa teria sido diferente?

Teria certamente sido diferente, desde logo porque Marcelo Rebelo de Sousa é amigo pessoal de Ricardo Salgado.

O próprio o assumiu.

Mas o desfecho do BES seria diferente?

À partida sim. Até porque António Costa chega mesmo a fazer uma declaração pública em que atribui a responsabilidade do queda do BES a Pedro Passos Coelho, e ainda hoje mantem essa tese. Maria Luís Albuquerque veio responder dizendo, como é que é possível atribuir a um primeiro-ministro uma responsabilidade de um banco com os problemas que tinha o BES. Essa declaração a par com a postura do atual primeiro-ministro e Presidente da República reforça a ideia que com este Governo teria sido diferente. E eu estou convencido que seria diferente. Para António Costa, vale mais tentar resolver o problema de um banco, nem que seja com a ajuda de um contribuinte, do que deixar que os bancos rebentem e toda a economia seja prejudicada.

E Carlos Costa?

Curiosamente, mudando de posição face à altura em que decidiu a Resolução do BES, Carlos Costa nesta fase final aparece a apoiar todas estas medidas para a banca, como a Resolução [feitas pelo Governo de António Costa], já com custos para o contribuinte, e a recapitalização em 2,5 mil milhões da CGD, com dinheiro dos contribuintes, a defender a entrada das misericórdias no Montepio Geral, o que é uma forma indireta de a população ajudar a resolver os problemas da banca. É uma ajuda de Estado indireta. Esta matriz define o que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa pensam para resolver os problemas dos bancos.

O livro fala também da relação do BES com os jornalistas. As coisas mudaram com a queda de Ricardo Salgado?

Mudaram. Mudou muito a relação da imprensa com as empresas e com o poder.

As escutas e a investigações do DCIAP tiveram um papel importante nessa mudança?

Não só. A sociedade tornou-se mais transparente e os próprios jornalistas também refletem isso. Mas eu conto no livro as reuniões de Ricardo Salgado com os jornalistas na neve e conto uma coisa mais complicada. Em 2011 a Ordem dos Economistas instituiu um prémio, integralmente patrocinado pelo BES, para jornalistas de economia, e foi nomeando mais ou menos sempre os mesmos, houve três que ganharam, e são jornalistas independentes que desvendaram muitas notícias do grupo e Ricardo Salgado fez assim um julgamento errado sobre a classe jornalística em Portugal, porque mesmo os que foram premiados não foram submissos ao BES. Nem os que foram a conferências no estrangeiro com o BES foram submissos.

Outro assunto que tenta explicar é o das gravações do Conselho Superior que acabaram nos jornais…

Durante muito tempo especulou-se quem é que teria difundido as gravações das reuniões do Conselho Superior do BES. Eu tenho uma tese no livro, fazendo a leitura a partir da análise a quem é que interessaria que o conteúdo das gravações fosse tornado público, a conclusão é simples: as gravações foram feitas já a pensar que poderiam vir a ser úteis no futuro e prevenir o que viria a acontecer em processos judiciais. E foi a defesa de Ricardo Salgado que aconselhou a que se fizesse isso e que se divulgasse. É cristalino. Basta ver a coisa ao contrário para se perceber. Porque o que se ouve das gravações é Ricardo Salgado a mostrar-se surpreendido que as contas da ESI tivessem um buraco. E coisas como “os tipos da Escom andaram-nos a aldrabar”. A quem é que interessa isso? A Ricardo Salgado.

O livro começa com as ligações entre o BES e o CDS?

O livro começa com a história da divergência públicas entre a liderança do PSD e a liderança do CDS/PP, e começa com perguntas por responder, tais como, porque é que Paulo Portas, no momento da passagem do testemunho a Assunção Cristas, num congresso do CDS, faz um ataque cerrado a Carlos Costa. Porque este ódio? A partir daí a minha tese desenrola-se sobre as possíveis explicações sobre o que terá havido entre o líder do CDS e Carlos Costa que decidiu tirar Ricardo Salgado do banco e aplicar uma medida de resolução ao BES. Uma das conclusões possíveis é que havia uma conjugação de interesses entre algumas pessoas do CDS, pelo menos, e o Grupo Espírito Santo. Mais tarde Paulo Núncio surge no centro de uma guerra que tem a ver com as transferências para offshores, em que de repente se descobre e ninguém registou. Terá havido alguma manipulação deliberada? Depois descobre-se que a maior parte das transferências para offshores foram do BES e uma pequena parte do Montepio. Esta realidade foi muito bem descrita pelo Jornal Económico, e os seus brilhantes jornalistas, que desvenderam uma coisa que parecia absolutamente inócua. Paulo Núncio talvez nem soubesse daquela manipulação do sistema informático. A verdade é que existiu no tempo em que lá esteve e eu não acredito que tudo aquilo tenha sido um acaso. É demasiada coincidência. Alguém quis que o sistema ficasse parcialmente inoperacional. Teria isso a ver com o interesse do grupo BES, de passar dinheiro para fora? E Paulo Núncio sabia ou não sabia? Fica a pergunta feita. Ele responde no livro.

http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/demissao-irrevogavel-de-portas-foi-combinada-com-ricardo-salgado-para-fazer-cair-o-governo-211764#at_pco=smlwn-1.0&at_si=59f37fdf9e72b25b&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1

Dan Brown foi à Feira do Livro de Frankfurt anunciar o fim de Deus

O escritor de best-sellers que sempre se protegeu da fama saiu da toca. Tem novo romance, Origens, que traz no domingo a Lisboa.

Dan Brown tem sentido de humor. Quando ontem de manhã entrou na sala onde decorreu a sua conferência de imprensa na Feira do Livro de Frankfurt, onde veio lançar Origem (ed. Bertrand) — que também apresentará este domingo no Centro Cultural de Belém, em Lisboa —, foi quase engolido por fotógrafos e operadores de câmara, apesar de estar rodeado de seguranças. Para acalmar o tumulto, apelou à calma, dizendo que não tinha mudado muito “nos últimos cinco minutos”: “Talvez tenha mudado em comparação com o que era há cinco anos”, concedeu. Passada em Espanha, país onde Dan Brown chegou a viver e a que regressou para escrever o novo romance, esta quinta aventura de Robert Langdon (a personagem do professor de simbologia e iconologia da Universidade de Harvard que o transformou num autor com mais de 200 milhões de livros vendidos)
surgiu-lhe, tal como todas as anteriores, a partir de algo que leu ou que viu. Neste caso, a audição da Missa Charles Darwin, de Gregory Brown, compositor profissional que por acaso é seu irmão, fê-lo começar a pensar nas batalhas entre ciência e religião. “Decidi que que queria ter neste livro personagens católicas, muçulmanas, há também um rabino… Quis mostrar que as religiões têm muito mais similaridades do que diferenças. Mesmo que sejamos ateus, temos todos a mesma sensação quando estamos deitados a olhar para as estrelas no céu: seja lá o que for, é maior do que eu, é maior do que a minha experiência.”
O escritor lembrou que “vivemos as mesmas experiências em diferentes culturas”: “E a questão mantém-se: se as nossas experiências são as mesmas, porque são as nossas religiões diferentes? A resposta que pretendo dar no romance é que não são. A diferenças aparecem quando tentamos usar a linguagem; aí, na comunicação, começam a divergir mas na essência são as mesmas.” Origem é o livro em que Brown quis responder à pergunta: “Vai Deus sobreviver à ciência?”. Na Feira do Livro de Frankfurt, reafirmou que “historicamente nenhum Deus sobreviveu à ciência”. O escritor acredita que com os avanços da tecnologia a espécie humana vai relacionar-se de outro modo. “Acredito, depois de ter falado com muitos cientistas e de ter lido muito sobre religião, que nas próximas décadas a nossa espécie vai conectar-se a um nível a que não estamos habituados. Nessa altura vamos encontrar as nossas experiências espirituais nessas interconexões. É isso que vai passar a ser o nosso divino. A nossa necessidade como espécie do divino ou de um Deus exterior que nos julga ou a quem colocamos questões ou pedimos ajuda vai diminuir ou mesmo desaparecer.”
Antes do fi m da conferência de imprensa, o autor confessou que nos últimos anos tem lido centenas de livros, mas nenhum de ficção.
A sua leitura mais recente foi Life 3.0: Being Human in the Age of Artificial Intelligence, de Max Tegmark, um professor do MIT. Deixou no ar que poderá vir a escrever um livro de não-fi cção. E ainda teve tempo para gracejar “Todas as pessoas se queixam de que o Robert Langdon nunca fi ca com a rapariga no fim.
Quero que se lembrem que estes livros
passam-se em 24 horas. Não sei em que mundo vocês vivem, mas no meu mundo isso não acontece assim tão depressa.”

Isabel.Coutinho@publico.pt

CASA ARRUMADA

A vida é muito mais do que isso…

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida

está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência

egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos

também a felicidade.”

Casa arrumada  é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa

entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um

cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os

móveis, afofando as almofadas…

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:

Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras

e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições

fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.

Sofá sem mancha?

Tapete sem fio puxado?

Mesa sem marca de copo?

Tá na cara que é casa sem festa.

E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,

passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.

A que está sempre pronta pros amigos, filhos…

Netos, pros vizinhos…

E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca

ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias…

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…

E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drummond de Andrade

HIGIENE

Pessoas muito limpas não deveriam emitir opiniões sobre sexo. Uma cama muita limpa é um atestado de insanidade sexual. Uma mulher cheirosa demais dá medo. Gostar de cheiro de sexo é condição fundamental para falar de mulher. Uma mulher sem cheiro de fêmea é uma morta.

Luiz Felipe Pondé

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DO SEXO

COSMÉTICA

O escritor austríaco do início do século 20, Karl Kraus, escritor de aforismos como eu, conhecido como “língua de fogo”, dizia que a cosmética era a cosmologia da mulher. Claro que os chatinhos e as chatinhas acham que ele está dizendo que as mulheres não são capazes de entender cosmologia. Mas viver no nível banal do óbvio é típico dos corretos. Karl Kraus fala do lugar da beleza no universo feminino e de como isso é profundo na alma da mulher. Uma mulher que se sente feia é como um universo criado por um deus mau. Claro, os feinhos e as feinhas são contra a beleza porque não conseguem atingi-la e, sempre que se deseja muito algo e não se atinge, a alma deforma de inveja. Dizer em voz alta que a cosmética é a cosmologia da mulher me dá vontade de sair na rua e agarrar a primeira mulher que eu encontrar e beijá-la. E provar seu gosto. Há uma certa leveza na constatação que faz Karl Kraus, leveza essa invisível para uma alma politicamente correta.

Luiz Felipe Pondé

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DO SEXO

MULHER

Sei que os chatinhos e as chatinhas me acusarão disso e daquilo por conta desses aforismos imorais. Essas acusações, em sua maioria produzidas nessas masmorras de irrelevância chamadas redes sociais, me dão sono. A principal acusação será de que estes aforismos tratam quase sempre de mulher. Como poderia ser diferente? As obras que importam de fato são aquelas escritas a partir de nossas obsessões, não? Fala-se daquilo que nos apaixona. Sei que hoje em dia condena-se essa forma de obsessão. A razão dessa condenação é que o tema sexo foi transformado em propriedade de gente mal-amada e com más experiências com o sexo oposto. O desejo pela mulher é, e sempre foi, um pilar da história humana. A fantasia de tê-la como objeto sexual move o mundo. Por isso, sempre digo que entre as pernas das mulheres se encontram segredos essenciais para a alma masculina e para o mundo como um todo. Infeliz aquele que nunca provou seu gosto.

Luiz Felipe Pondé

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO
DO SEXO