*Os Sexalescentes do Século XXI*

“Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.

Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica, parecida com a que em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa de jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.

Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta anos, teve uma vida razoavelmente satisfatória.

São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho.

Procuraram e encontraram, há muito, a atividade de que mais gostavam e com ela ganharam a vida.

Talvez seja por isso que se sentem realizados! Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia, sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5º andar…

Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.

Por exemplo: não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta/setenta”, homens e mulheres, manejam o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone fixo para contatar os amigos – mandam WhatsApp ou e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.

De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil, e, quando não estão, procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais.

Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota e parte pra outra…

Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um traje Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo.

Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, uma frase inteligente ou um sorriso iluminado pela experiência.

Hoje, as pessoas na idade dos sessenta/setenta, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são.

Hoje estão com boa saúde física e mental; recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude, ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.

Celebram o sol a cada manhã e sorriem para si próprios. Talvez por alguma razão secreta, que só sabem e saberão os que chegarem aos 60/70 no século XXI”

Artigo de Miriam Goldenberg

Bom compartilhar com amigos de qualquer idade!

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Como seria o resgate das crianças se a gruta fosse em Portugal

“Não custa nada imaginar o que seria o resgate se a gruta fosse em Portugal.

DIA 1

– O presidente da autarquia diz que “estão a ser feitos todos os esforços” para salvar as vítimas e pede mais apoio para “o interior esquecido e ostracizado”.

DIA 3

– Na dependência directa do ministro da Administração Interna, é constituída a CEPPCORV (Comissão de Especialistas Para o Planeamento e Coordenação da Operação de Resgate às Vítimas).

– O líder da oposição exige a demissão imediata do ministro da Administração Interna e do comandante da Protecção Civil.

– A CMTV anuncia que “4 rapazes já morreram”.

DIA 5

– Um jovem empresário lança uma campanha no Facebook para recolha de donativos para a construção de um mini-submarino.

– O jornalista da CMTV é agredido pela população furiosa.

DIA 7

– O presidente da República monta uma tenda em frente à entrada da gruta.

– Marques Mendes, na TVI, voluntaria-se para as operações de salvamento: “eu consigo passar na fenda mais estreita”. – Nas redes sociais prosseguem os apelos e manifestações de solidariedade: “a melhor equipa”, “a equipa mais corajosa”, “estamos convosco”. Os rapazes continuam lá dentro.

DIA 10

– A CEPPCORV, ao cabo de uma semana de trabalho duro, conclui que a solução tecnicamente mais eficaz é esperar que a água saia.

DIA 12

– Apesar dos apelos, dos minutos de silêncio e dos vários especialistas, é anunciada oficialmente a morte de todas as vítimas.

– O primeiro-ministro interrompe as férias e, numa curta declaração, informa que as famílias terão direito a uma indemnização de 375 euros por cada filho perdido.

DIA 15 – O jovem empresário da campanha de donativos compra um BMW novo.”

Bruno Santos

UMA EXCELENTE IDEIA

    Eu e a minha  vizinhança sofríamos de assaltos regularmente… eu já estava cheio disso!

    Então desactivei o meu sistema de alarme, deixei de pagar ao guarda noturno e dispensei a vigilância do bairro.

    No jardim de casa coloquei 3 bandeiras:

    uma do Afeganistão, outra do Paquistão e, bem no meio, a bandeira negra do Estado Islâmico!

    Agora, somos vigiados pela PSP, pela GNR, pelo S.I.S., pelo SEF, pelo GOES, pela Polícia Municipal, pela Interpol, pelo SIED (serviço de informações militares), pelo SIRP (sistema de informação da República Portuguesa), e o mais que nem suspeito, 24 horas por dia, 7 dias por  365 dias por ano!

    E sem custos, imagine-se!

  • Os meus filhos são seguidos quando vão para a escola;

    • a minha  mulher quando sai de casa também  (é óptimo,  esta vigilânc “anti-corno” é um benefício extra) e seguem-me igualmente a mim quando vou e volto do trabalho.

    Ninguém nos incomoda nem sequer se aproxima de nós.

    No parqueamento do hipermercado posso deixar o carro aberto – e até com a chave na ignição.

    Nunca me senti tão seguro.

    Como anjos imaculados

    Desconheço a autoria.

    Desconfio instintivamente de quantos apreciam o luxo, desfrutam do luxo, mas se dizem de esquerda.

    O recente escândalo em torno da compra, pelo dirigente do radicalíssimo Podemos, de uma vivenda e sua inevitável piscina, pela quantia de 600.000 euros, apenas se justifica se o caso servir para contemplarmos a insanável contradição moral e política em que vivem perenemente enredados os muitos que se apregoam como representantes e defensores dos mais pobres e desfavorecidos, mas que, como a carne é fraca, apreciam e não dispensam as mais diversas iguarias, de casas a automóveis, de champanhe a caviar persa. O caso, em si mesmo, não vale nada: convenhamos que 600.000 euros não chega a ser dinheiro a sério, que no mercado imobiliário de hoje em dia se cifra em valores muito acima de um milhão. O casal Iglesias ambicionou mais do que um vulgar apartamento, quis um lar como deve ser, uma casinha com jardim e piscina. Por aquele preço, a casinha com jardim e piscina é necessariamente modesta e por certo edificada numa qualquer Picheleira dos arredores de Madrid.

    Mas constitui sem dúvida uma muito ofensiva imodéstia aos olhos dos que vivem em habitações pobres e exíguas, numa espécie de lúgubres vãos de escada, em bairros sociais periféricos e de má construção. Estes são aos montes, e é para estes que Iglesias fala, é a estes que Iglesias promete salvação. Mas enquanto os não salva, trata de se salvar a si mesmo. Há muitíssimo poucos Mujicas (José Mujica viveu pobremente durante a sua presidência do Uruguai), foram, são e serão sempre uma espécie raríssima, digna de exposição num altar museológico. São heróis, sim. Só que heróis há poucos.

    Como bem notou João Miguel Tavares (PÚBLICO, 22.5.18), todos os socialistas, quer em versão light quer em versão hard, todos os dirigentes de esquerda, todos os dirigentes radicais e todos os dirigentes revolucionários são oriundos das classes médias, médias mesmo ou médias altas. Haverá uma ou outra excepção, mas excepção mais aparente do que real. Por exemplo, José Estaline, também conhecido por Koba, o georgiano filho de uma costureira e de um sapateiro, que, tendo ascendido a secretário-geral do PCUS em 1922 (cargo em que se manteve até à morte, 1953), fez logo, assim que chegou ao topo, a sua “opção de classe”: optou por viver burguesmente à grande – ou, talvez mais exactamente, optou pela (tosca) imitação de um modo de vida imperial, mantendo uma corte obediente e reverente nos luxuosos apartamentos do Kremlin ou nas suas várias datchas nas imediações do Mar Negro (Sebag Montefiore, Stalin. The Court of  the  Red  Tsar, 2003). Compreende-se: a carne é fraca.

    Poucos conceitos serão tão hipócritas como o de “opção de classe”, para não mencionar nem me demorar no intrínseco absurdo de que a expressão enferma. Nascemos numa classe social, como nascemos numa determinado país, região ou cidade. Não se muda de classe por “opção”, como quem muda de casaco. Crescemos num mundo familiar que se pauta por uma determinada liturgia familiar e social, traduzida em hábitos, em cerimoniais, em formas de tratamento, no que os ingleses chamam manners, e é neste caldo de cultura que os nossos gostos, a nossa estética germina e se vai formando. Um Cunhal a comer febras de porco com as mãos saberá sempre a esforço e a falso. Um Soares a viver num T3 na Amadora chega a ser impensável. De um Mitterrand, então, nem se fala. E por aí fora, milhares de exemplos possíveis. No entanto, tudo isto é tido como natural e aceitável. Não por mim.

    Desconfio instintivamente de quantos apreciam o luxo, desfrutam do luxo, mas se dizem de esquerda. O argumento é velho e estafado: hoje não, que vivemos numa sociedade burguesa e capitalista. Mas quando a Revolução Igualitária se fizer, ah, então abdicamos dos nossos confortos e privilégios. Pura mentira. Não, não passarão sem os seus hábitos e consumos burguesíssimos. Acontece, isso sim, que se a sonhada Revolução surgisse e triunfasse, toda esta gente, habituada a sobretudos de cachemira, camisas Façonnable ou sapatos Church’s, integraria automaticamente a nova elite oligárquica, e, como acontecia nos países socialistas da defunta URSS, teria ao seu dispor, em lojas privadas e exclusivas, daquelas em que se paga com os dólares inacessíveis ao comum dos mortais, o que de melhor se produz ou fabrica no Ocidente desprezivelmente capitalista e burguês.

    Não é que, em absoluto, não se mude de classe: mas o facto, o facto crítico e decisivo, é que só se quer mudar para uma mais alta – ninguém, muito compreensivelmente, se dispõe a carregar no botão zero do elevador social. E aqui reside a contradição insanável: como pode alguém arrogar-se o suposto mérito moral de se declarar de esquerda, de se alistar na luta pela supremacia da esquerda, de se reclamar lutador pela causa de todos os pobres, humilhados e ofendidos, se esse alguém vive no capitalismo como o peixe vive na água ou as vacas pastam nos prados açorianos? Não é credível. Não acredito no socialismo dos socialistas que berram pela igualdade e têm um Porsche na garagem; que berram pelo socialismo e só se sabem vestir em Paris, Milão ou Nova Iorque. E que, a título de oração nocturna, lavam a consciência declinando o alfabeto socialista da primeira letra à última, dormindo em seguida como anjos imaculados.

    A gargalhada de Salazar

    · Helena Matos (Observador)

    Portugal é uma espécie de Pátio das Cantigas agora na versão Parque da Bela Vista. No cemitério de Santa Comba a esta hora ressoa uma gargalhada escarninha.

    No palco do Rock in Rio, o presidente da República canta. O primeiro-ministro dança. O presidente da Assembleia da República pula. A dirigente do Bloco de Esquerda acompanha o ritmo. O presidente da CML revela-se um verdadeiro animador de palco…

    Nenhum deles quer ficar para trás. Todos sabem que o limite para aquela actuação é aquele que o Presidente estabelecer… E no palco Marcelo indubitavelmente ganha a todos  pois ultrapassa pelo desconcerto do populismo qualquer veleidade que a frente de esquerda tivesse de o cercar (no palco real da Bela Vista, Catarina Martins parece uma figurante ao lado de Marcelo).

    Mas se a táctica funciona às mil maravilhas, como estratégia é uma armadilha: o Presidente está refém da sua popularidade. Não ousará nada que belisque o coro de palmas com que está habituado a ser recebido. E tal como acontecia antigamente com as flores nos camarins das vedetas também as palmas se têm de renovar no palco dos políticos.

    As personalidades que antes iam institucionalmente a alguns espectáculos e noutros eram avistadas enquanto público tornaram-se agora elas mesmas no centro do espectáculo.

    Morre um cantor? Eles cantam e o seu canto é a notícia.

    Joga a selecção? Eles pulam e o seu pulo torna-se espectáculo.

    Eles celebram-se a si mesmos através dos outros. Todas as semanas “as  personalidades” ou “as mais altas figuras da nação” como escrevem uns desconcertados jornalistas apresentam constantemente  novas performances.

    Afinal o espectáculo não pode parar porque se isso acontecesse podíamos perguntar: quem foi responsabilizado no relatório sobre o roubo de armas em Tancos? O que é que isso interessa? Toca mas é a cantar porque quem canta seus males (e seus medos) espanta: “Que saudades eu já tinha/Da minha alegre casinha/ Tão modesta como eu” ( o link segue para a versão original porque nestas coisas a origem conta)…

    Quando é que o ministro da Educação abandona o estado de holograma e responde pelas consequências de não ser capaz de controlar o monstro que libertou ao franchisar o ministério a Mário Nogueira?

    E para quando uma explicação sobre a alteração dos critérios da avaliação do exame de Matemática? Não se sabe mas à cautela o ministro aposta na assistência a jogos de futebol. E qual é o problema disso enquanto nos ecrans o primeiro-ministro balançar como quem se embala  ao ritmo do “Como é bom meu Deus morar/ Assim num primeiro andar/ A contar vindo do céu” na versão rokeira?…

    Os outrora tão criticados espectáculos da política e a política-espectáculo deram lugar a algo completamente diferente e muito mais perigoso: o espectáculo enquanto forma de preencher o vazio da política.

    Sintomática e reveladora desta mudança foi a resposta de Marcelo Rebelo de Sousa a Donald Trump sobre a possibilidade de Cristiano Ronaldo ser candidato à Presidência da República: “Portugal não é bem os Estados Unidos da América” — respondeu Marcelo a Trump e logo Lisboa foi unânime, em Portugal, nação secular, os jogadores de futebol não podem ser candidatos à Presidência da República.

    Catarina de Bragança

    Quando alguns Nobres portugueses chegaram à conclusão de que o negócio da venda da coroa de Portugal aos Filipes, tinha deixado de ser rendoso e tinha atingido a falência, resolveram mudar de rei.

    Infelizmente, esqueceram-se de tomar providências quanto a uma previsível reacção do rei deposto que, por um conjunto de circunstâncias, era, também, rei de Castela e de mais uns quantos territórios.

    A guerra foi uma consequência lógica e o novo rei de Portugal, que precisava de aliados, encontrou a solução no casamento de uma das suas filhas com o rei Carlos II de Inglaterra.

    A negociação do casamento foi difícil!

    Carlos II tinha motivos para desejar mas, também, para temer tal casamento: desejava-o, porque a princesa era bonita e o dote poderia encher os seus falidos cofres; mas, também, receava que isso pudesse reacender a guerra com Espanha.

    Resistiu até o dote da princesa ser irrecusável: foi o maior dote de que há memória no Ocidente! Portugal ficou falido, o rei português ganhou um aliado para a guerra com Espanha,  e a Inglaterra ganhou um capital que se transformou no mais rentável investimento da sua história: o império britânico!

    Hoje, diríamos que Carlos II deu o “golpe do baú” !

    A cerimónia do casamento realizou-se em Maio de 1662.

    Assim, começou a parte infeliz da vida de Catarina de Bragança, uma princesa nascida e criada no seio de uma família com cultura, educação e hábitos tradicionais portugueses que, por sua infelicidade, foi desterrada para uma corte que, contrariamente ao que alguns escritores e cineastas de pacotilha nos querem fazer crer, era rude e atrasada em relação à restante Europa.

    Catarina, teve um papel importantíssimo na modernização da Inglaterra e na alteração da filosofia de vida dos ingleses pelo que,  embora não suficientemente, ainda hoje é admirada e homenageada.

    Provocou uma autêntica revolução na corte de Inglaterra, apesar de ter sido sempre hostilizada por ser diferente mas nunca desistiu da sua maneira de ser, nem consentiu que as damas portuguesas do seu séquito o fizessem.

    Tinha uma personalidade tão forte que conseguiu que aqueles (principalmente aquelas) que a criticavam, em breve, passassem a imitá-la.

    E assim, se derem grandes alterações na corte inglesa:

    O conhecimento da laranja

    Catarina adorava laranjas e nunca deixou de as comer graças aos cestos delas que a mãe lhe enviava.

    O costume do “CHÁ DAS 5”

    Costume que levou de casa e que continuou a seguir organizando reuniões com amigas e inimigas. Este hábito generalizou-se de tal maneira que, ainda hoje, há quem pense que o costume de tomar chá a meio da tarde é de origem britânica.

    A compota de laranja

    Que os ingleses chamam de “marmalade”, usando, erradamente, o termo português marmelada, porque a marmelada portuguesa já tinha sido introduzida na Inglaterra em 1495.

    Catarina guardava a compota de laranjas normais para si e suas amigas e a de laranjas amargas para as inimigas, principalmente, para as amantes do rei.

    Influenciou o modo de vestir

    Introduziu a saia curta. Naquele tempo, saia curta era acima do tornozelo e Catarina escandalizou a corte inglesa por mostrar os pés, o que era considerado de mau-gosto e que não admira devido aos pés enormes das inglesas. Como ela tinha pés pequeninos, isso arranjou-lhe mais inimigas.

    Introduziu o hábito de vestir roupa masculina para montar.

    O uso do garfo para comer

    Na Inglaterra, mesmo na corte, comiam com as mãos, embora o garfo já fosse conhecido, mas só para trinchar ou servir. Catarina estava habituada a usá-lo para comer e, em breve, todos faziam o mesmo.

    Introdução da porcelana

    Estranhou comerem em pratos de ouro ou de prata e perguntou porque não comiam em pratos de porcelana como se fazia, já há muitos anos, em Portugal. A partir de aí, o uso de louça de porcelana generalizou-se.

    Música

    Do séquito que levou de Portugal fazia parte uma orquestra de músicos portugueses e foi por sua mão que se ouviu a primeira ópera  em Inglaterra.

    Mobiliário

    Catarina também levou consigo alguns móveis, entre os quais preciosos contadores indo-portugueses que nunca tinham sido vistos em Inglaterra.

    O nascimento do “Império Britânico”

    Como já se disse, o dote de Catarina foi grandioso pela quantia em dinheiro mas, muito mais importante para o futuro, por incluir  a cidade de Tânger, no Norte de África e a ilha de Bombaim, na Índia.

    Traindo os Tratados que tinham assumido e com a desculpa de que o rei de Portugal era espanhol, os ingleses conseguiram, apesar do controle da Marinha Portuguesa, navegar até à Índia onde criaram um entreposto em Guzarate.

    Em 1670, depois de receber Bombaim dos portugueses, o rei Carlos II autorizou a Companhia das Índias Orientais a adquirir territórios.

    Nasceu, assim, o Império Britânico!

    Hoje, há pouca gente que saiba a importância que a Rainha Catarina teve para os ingleses e o carinho que eles tiveram por ela. A sua popularidade estendeu-se até à América, onde um dos cinco bairros de Nova Iorque (Queens) foi baptizado em sua homenagem.

    Em 1998, a associação “Friends of Queen Catherina” fez uma colecta de fundos para lhe erguer uma estátua; não o conseguiu, devido à oposição de alguns movimentos cívicos que acusaram Catarina de ser uma das promotoras da escravidão.

    Mais uma vez, a ignorância venceu!…

    Autoria de Arnaldo Norton

    A trapeira do Job

    José António Barreiros, advogado

    Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.

    Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.

    Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia “roupa velha”. Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o “fatinho de ver a Deus e à sua Joana”.

    E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.

    Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.

    Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça.

    Foram anos em que o Campo se tornou num imenso ressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.

    O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.

    O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.

    Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.

    Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.

    A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.

    Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu o New Yorker?

    A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.

    Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.

    Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermos-nos ao dinheiro, enforcarmos-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.

    Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos “analistas” que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.

    Estamos nisto.

    Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.

    Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.