Wyoming quer multar empresas que usem energias renováveis para produzir electricidade.

Não sou apologista de ter de pagar subsídios para utilizar a energia eólica, ou solar, etc., pois as empresas devem criar as suas condições de subsistência, mas também não posso deixar de condenar este autentico disparate, que é um retrocesso civilizacional!!!

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Um grupo de senadores e congressistas do estado do Wyoming, nos Estados Unidos, apresentou uma proposta para contrariar as exigências de utilização de energia de fontes renováveis. Aliás, o objectivo é exactamente o oposto: um projecto de lei apresentado este mês quer multar as empresas que forneçam electricidade produzida a partir de energia eólica ou solar.

O Wyoming é dos principais estados norte-americanos em termos de potencial para a energia eólica, mas as indústrias dos hidrocarbonetos – carvão, petróleo e gás natural – constituem a espinha dorsal da sua economia.

A energia renovável, acusam alguns, tem sido pesadamente promovida e subsidiada pelo Governo à custa da indústria dos hidrocarbonetos. “Quero a electricidade na minha casa produzida com carvão, porque é a maneira mais barata de a fazer“, afirmou o republicano David Miller, sobre a proposta.

O presidente do senado, Eli Bebout, disse que não gosta da ideia de penalizar os produtores de energias de fonte renovável. Mas acrescentou que os clientes de electricidade do Wyoming pagam mais do que devem por esta, porque parte da que recebem vem de outros estados que subsidiam a produção de energia renovável.

“Não acredito que devamos subsidiar as suas crenças e a sua legislação e a sua direcção sobre a forma de produzir renováveis”, argumentou Bebout.

O Wyoming é o principal estado produtor de carvão dos Estados Unidos, mas alguns analistas questionam se tanto favorecimento deste hidrocarboneto é boa política e se vai embaratecer a factura eléctrica no longo prazo.

A tendência da produção de energia eólica e solar ficar cada vez mais barata vai continuar nos próximos anos, afirmou Rob Godby, professor associado e director do Centro de Economia de Energia e Políticas Públicas da Universidade do Wyoming.

A iniciativa dos congressistas do Wyoming para punir a energia renovável “escolhe claramente uma fonte de energia, independentemente do seu custo”, considerou Godby, que acrescentou: “Isto pode prejudicar os contribuintes e os consumidores no Wyoming, tal como o potencial (do Estado) para atrair novas empresas”.

Nos EUA, existem 37 estados que têm objectivos ou padrões para a inclusão de energia renovável na sua carteira produtiva, incluindo o Havai, que planeou obter toda a sua electricidade a partir de fontes renováveis até 2045. O Wyoming é um dos 13 Estados que não tem qualquer planificação ou objectivos neste assunto.

Penalizar a energia eólica e solar vai colocar o Wyoming ainda mais desalinhado com o resto do país, afirmou Shannon Anderson, do Conselho de Recursos da bacia do Rio Powder, que trabalha com comunidades rurais para proteger os seus interesses em problemas ambientais suscitados pela produção de hidrocarbonetos.

https://zap.aeiou.pt/wyoming-quer-multar-empresas-que-usem-energias-renovaveis-para-produzir-eletricidade-146857

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Áustria proíbe uso da burka a partir de amanhã.

A Áustria decidiu proibir a partir de domingo o uso da burka, se bem que o texto da lei refira apenas que “quem nos espaços ou edifícios públicos cubra ou oculte o rosto com roupa ou outros objetos, de maneira que não seja reconhecível, comete uma infração”. A infração é punível até 150 euros.

A lei está a ser criticada como populista, desnecessária e difícil de aplicar, podendo afetar as turistas ricas oriundas de países árabes. A lei não menciona expressamente as palavras burka (que cobre os olhos) ou niqab (que os deixa à vista), ou sequer islão, mas o objetivo é claro tendo em conta que o objetivo da lei é “promover a inegração”.

O facto é comprovado pelo facto de se permitir o uso de capacetes de motociclistas ou máscaras de uso artístico, cultural ou desportivo, proteção de trabalho, ou gorros ou outros acessórios de Inverno.

A Austria junta-se assim à França, Holanda e Bélgica, que já tinham legislação semelhante, assim como certas zonas da Itália e da Suiça.

A lei foi promovida pelo Governo de coligação entre sociais-democratas e conservadores, no âmbito de uma reforma das políticas de integração com vista aos que solictiam asilo. Para alguns observadores, o objetivo é, todavia, deter a subida do partido de extrema-direita FPO.

O tema central deste partido para as eleições antecipadas que se realizam no próximo dia 15 tem sido a redução da imigração e integração dos imigrantes muçulmanos.

AAsEzgR[1]

Irreflexão! A entrevista do CEO da Mercedes Benz, publicada em 16 de Julho de 2017

. Daimler Benz (Mercedes Benz) disse que seus concorrentes não são mais as outras companhias de carro, mas sim a Tesla (óbvio), Google, Apple e Ama1. Softwares irão quebrar a maioria das indústrias tradicionais nos próximos 5-10 anos;

2. Uber é apenas uma ferramenta de software, eles não possuem carros, e são agora a maior empresa de táxi do mundo;

3. Airbnb é agora a maior empresa hoteleira do mundo, embora eles não possuam quaisquer propriedades;

4. Inteligência Artificial: Computadores se tornam exponencialmente melhores em compreender o mundo. Este ano, um computador bateu o melhor Go player no mundo, 10 anos mais cedo do que o esperado;

5. Nos EUA, jovens advogados já não conseguem emprego. Por causa da IBM Watson, você pode obter aconselhamento legal (até agora para as coisas mais ou menos básicas) em poucos segundos, com uma precisão de 90% em comparação com uma precisão de 70% quando feito por seres humanos;

6. Então, se você estuda direito, pare imediatamente. Haverá 90% menos advogados no futuro, apenas especialistas permanecerão;

7. Watson já ajuda enfermeiros no diagnostico de câncer, 4 vezes mais preciso do que os enfermeiros humanos. Facebook agora tem um software de reconhecimento de padrões que podem reconhecer rostos melhores do que seres humanos. Em 2030, os computadores se tornarão mais inteligentes do que os seres humanos;

8. Carros autónomos: Em 2018 os primeiros carros de auto condução estarão disponíveis para o público. Por volta de 2020, a indústria completa vai começar a ser interrompida. Você não vai querer ter um carro mais. Você vai chamar um carro com o seu telefone, ele vai aparecer no seu local e levá-lo ao seu destino. Você não vai precisar estacioná-lo, você só pagará pela distância percorrida e pode ser produtivo durante a condução. Nossos filhos nunca irão ter uma carteira de motorista e nunca vão possuir um carro;

9. Isso vai mudar as cidades, porque vamos precisar de 90-95% menos carros. Poderemos transformar antigos estacionamentos em parques. 1,2 milhões de pessoas morrem a cada ano em acidentes de carro em todo o mundo. Temos, agora, um acidente a cada 60.000 milhas (100.000 km), com a condução autónoma, esse número vai cair para 1 acidente em cada 6 milhões de milhas (10 milhões de km). Isso vai salvar um milhão de vidas por ano!

10. A maioria das companhias de carro provavelmente vão falir. Companhias de carro tradicionais tentam a abordagem evolutiva e apenas construir um carro melhor, enquanto as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) fazem a abordagem revolucionária e constroem um computador sobre rodas;

11.Muitos engenheiros da Volkswagen e Audi estão completamente aterrorizados pela Tesla;

12. As companhias de seguros terão dificuldade enorme, porque sem acidentes o seguro vai se tornar 100x mais barato. Seguros para automóveis irão desaparecer;

13. O mercado Imobiliário vai mudar. Porque se você pode trabalhar enquanto se desloca, já que os carros serão autónomos, as pessoas vão se mudar para mais longe e viver em um bairro mais bonito e quase rural;

14. Os carros eléctricos vão se tornar tendência em 2020. As cidades serão menos barulhentas, porque todos os carros novos serão movidos a electricidade. Electricidade se tornará incrivelmente barata e limpa: produção Solar tem tido uma curva exponencial de 30 anos, agora você pode ver o impacto crescente;

15. No ano passado, mais energia solar foi instalada no mundo do que o combustível fóssil. As empresas de energia estão tentando desesperadamente limitar o acesso à rede para evitar a concorrência de instalações solares em casa, mas isso não pode durar. A tecnologia vai driblar essa estratégia;

16. Com electricidade barata, vem a água abundante e barata. A dessalinização de água salgada agora, só precisa 2kWh por metro cúbico (@ 0,25 cêntimos). Não temos água escassa na maioria dos lugares, só temos água potável escassa. Imagine o que será possível se alguém pode ter tanta água limpa quanto quiser, por um custo muito baixo;

17. Saúde: O preço do Tricorder X será anunciado este ano. Existem empresas que irão construir um dispositivo médico (o chamado “Tricorder” do Star Trek), que funciona com o seu telefone, o que leva a digitalização da sua retina, sua amostra de sangue e respiração com ele;

18. Ele analisa 54 biomarcadores que irão identificar quase qualquer doença. Será barato, por isso em alguns anos todos neste planeta terão acesso a uma análise médica de classe mundial, quase de graça. Adeus, estabelecimento médico;

19. Impressão 3D: O preço da impressora 3D mais barata caiu dos US $ 18.000 para US $ 400 nos últimos 10 anos. Ao mesmo tempo, tornou-se 100 vezes mais rápida. Todas as grandes empresas de calçados, já fazem sapatos com impressão 3D;

20. Algumas peças de avião já estão sendo impressas em 3D, em aeroportos remotos. A estação espacial agora tem uma impressora que elimina a necessidade da grande quantidade de peças de reposição, que costumava ter no passado;

21. No final deste ano, os novos smartphones terão possibilidades de digitalização em 3D. Você pode então digitalizar seus pés em 3D e imprimir o seu sapato perfeito em casa;

22. Na China, eles já construíram um edifício comercial completo de 6 andares com uma impressora 3D. Até 2027, 10% de tudo o que está sendo produzido será impresso em 3D;

23. Oportunidades de negócio: Se você pensar em um nicho que você quer ir, pergunte-se: “no futuro, você acha que vamos ter isso?” e se a resposta for sim, como você pode fazer isso acontecer mais cedo? Se não funciona com o seu telefone, esqueça a ideia. E qualquer ideia concebida para o sucesso no século 20, está fadada ao fracasso no século 21;

24. Trabalho: 70-80% dos empregos vão desaparecer nos próximos 20 anos. Haverá uma grande quantidade de novos postos de trabalho, mas não está claro se haverão novos empregos, suficientes em um pequeno período de tempo;

25. Agricultura: Haverá um robô agrícola de $100 no futuro. Agricultores nos países do 3º mundo poderão, então, tornar-se gerentes de seu campo em vez de trabalhar o dia todo neles;

26. Aeroponics vai precisar de muito menos água. O primeiro Petri prato de vitela produzido, já está disponível e será mais barato do que vaca vitela produzido em 2018. Agora, 30% de todas as superfícies agrícolas é utilizado para vacas. Imagine se nós não precisarmos de mais espaço. Existem várias startups que trarão proteína de insecto ao mercado em breve. Insectos possuem mais proteína do que a carne. Eles serão rotulados como “fonte de proteína alternativa” (porque a maioria das pessoas ainda rejeitam a ideia de comer insectos);

27. Existe um aplicativo chamado “Moodies”, que já pode dizer em que humor você está. Em 2020 haverá aplicativos que podem dizer por suas expressões faciais, se você está mentindo. Imagine um debate político onde está sendo exibido quando eles estão dizendo a verdade e quando eles não estão?!

28. Bitcoin, pode mesmo tornar-se a moeda de reserva padrão … do mundo!

29. Longevidade: Agora, a média de vida aumenta em 3 meses por ano. Quatro anos atrás, a vida costumava ser 79 anos, agora é 80 anos. O aumento em si é crescente e por 2036, haverá mais de um ano aumento por ano. Então, todos nós podemos viver por um longo tempo, provavelmente muito mais do que 100 anos;

30. Educação: Os smartphones mais baratos já estão em US$10 na África e Ásia. Em 2020, 70% de todos os seres humanos possuirão um telefone inteligente. Isso significa que, todo mundo tem o mesmo acesso à educação de classe mundial;

31. Cada criança poderá usar a Khan Academy para tudo, o que uma criança precisa aprender na escola em países do Primeiro Mundo. Já houve lançamentos de software na Indonésia e em breve haverão versões em árabe, Suaheli e chinês, ainda nesse ano. Eu posso ver um enorme potencial, se dermos o aplicativo em Inglês de graça, para que as crianças na África e em outros lugares,  possam tornar-se fluentes em Inglês e isso poderia acontecer dentro de meio ano. “

Nelson Piquet, 65 anos, foi um tricampeão à frente de seu tempo.

O brasileiro que devolveu o orgulho brasileiro nas pistas depois do fracasso da equipe Copersucar-Fittipaldi, introduziu tecnologias que hoje brilham nas pistas e nos carros de rua.

Nelson Piquet, 65 anos, foi um tricampeão à frente de seu tempo

Nelson Piquet Souto Maior completou 65 voltas na corrida da vida no último dia 17 de Agosto. Esse carioca que nasceu em 1952, antes da instalação da indústria automobilística no Brasil, torce para o Vasco da Gama e é um homem bem diferente daquele cantado pelos Beatles em “When I am 64”, música de Paul McCartney que fala de um velhinho pacato e que precisa da atenção da mulher amada. Normal. Se fosse um beatle, Nelson seria o John Lennon (um sujeito brilhante, surpreendente, que estava satisfeito com as próprias conquistas e não precisava ficar provando que era o melhor) e Ayrton Senna seria o Paul (um cara igualmente brilhante, mas perfeccionista, totalmente focado no trabalho e em busca incansável do sucesso).

Mas não é da personalidade de Nelson Piquet que eu quero falar. E sim de sua visão acima da média, de sua contribuição para a modernização da Fórmula 1 e dos carros que usamos, de sua ousadia ao testar novas tecnologias e – por que não? – das vezes em que colocou o mito Ayrton Senna no bolso.

Mas, calma, isso aqui não é um comparativo entre os dois tricampeões. Porém, como o Brasil sempre foi dividido quando o assunto é Piquet e Senna, como se o sucesso de um diminuísse o sucesso de outro, não tem como não citar o eterno Ayrton, às vezes.

Também é necessário lembrar que foi Nelson Piquet, na temporada de 1980, quem recuperou a auto-estima braseira na Fórmula 1. Depois de um início arrebatador no início dos anos 1970, com dois títulos de Emerson Fittipaldi, a experiência da equipe Copersucar-Fittipaldi jogou os torcedores passionais na depressão a partir de 1976, quando o campeão passou a correr por seu próprio time. Curiosamente, na primeira vitória de Nelson na F1, no GP dos EUA Oeste de 1980, com um Brabham BT49, Emerson obteve seu último pódio na Fórmula 1. A cena foi simbólica: no pódio de Long Beach, o velho campeão passava o ceptro ao seu sucessor nas pistas.

TECNOLOGIA

Piquet já foi Piket (seu pai não queria que ele corresse), iniciou como Nelsinho, depois passou a ser apenas Nelson e hoje muitos o chamam de Nelsão. Sempre foi um piloto “raiz”, que entendia do carro tanto quanto seus mecânicos, ao contrário de muitos pilotos “Nutella” de hoje, que são hábeis com os botões do volante mas não têm um profundo conhecimento técnico do carro.

Quando ainda era o Nelsinho, em 1976, na Fórmula Super Vê, Piquet chegou a bolar com um mecânico um sistema de cabos que permitia a ele interferir na aerodinâmica do carro (Polar Volkswagen) durante a corrida. O ganho de velocidade nas rectas sem o arrasto aerodinâmico é enorme. Para se ter uma ideia do quanto Nelson estava à frente de seu tempo, só em 1988 a Porsche substituiu os aerofólios tipo “rabo de baleia” do modelo 911 de rua pela asa móvel que vemos até hoje (fica embutida no carro e abre-se quando alcança determinada velocidade). Sem contar que a Fórmula 1 encontrou no sistema DRS (abertura das asas traseiras) uma forma de provocar mais ultrapassagens nas corridas.

E os motores turbo? Nelson foi o primeiro campeão mundial com um carro turbo. Ao volante do Brabham BT52B, equipado com um pequeno motor 4 cilindros em linha turbinado, ele conquistou seu bicampeonato na Fórmula 1 em 1983. O downsizing nos motores virou uma febre nos últimos anos e o turbocompressor passou a ser uma realidade em quase todos os carros de sucesso no Brasil. Hoje temos o Volkswagen Up 1.0, o Hyundai HB20 1.0, o Ford Fiesta EcoBoost 1.0, o Honda Civic 1.5 e o Chevrolet Cruze 1.4 usando motores turbo, só para citar alguns. Sem contar os vários modelos de entrada com motor de três cilindros.

Nelson ganhou sete corridas pela Brabham BMW e mais sete pela Williams Honda, que usava um V6 turbinado. Portanto, de suas 23 vitórias na Fórmula 1, 14 foram com motor turbo e nove com o tradicional Cosworth V8 aspirado da Ford. Além disso, ele fez 24 poles, marcou 23 vezes a melhor volta da corrida, liderou 1.600 voltas e andou 7.610 km na liderança. E chegou pertíssimo de mais dois títulos em 1980 e 1986. Um pouco mais de sorte e teria sido penta campeão como o argentino Juan Manuel Fangio.

Piquet foi o precursor também do uso da suspensão activa. Esse sistema, que identifica a necessidade do carro de acordo com o piso, é ajustado electronicamente. Foi uma revolução para os pilotos de Fórmula 1. Acostumados a pilotar um carro extremamente nervoso, que pulava como cabrito, passaram e conduzir bólidos muito mais estáveis na pista, o que exigiu uma rápida adaptação no modo de dirigir. A Williams estreou esse sistema no modelo FW11B, no GP da Itália de 1987, com o próprio Nelson Piquet, que fez a pole position e venceu a corrida, disparando rumo ao tricampeonato. Nigel Mansell, seu companheiro de equipe, não se adaptou e preferiu usar o carro velho até o fim do campeonato.

A suspensão ativa durou na Fórmula 1 até 1994 e depois foi banida. Mas se tornou cada vez mais popular nas ruas. Hoje, dificilmente um carro esportivo ou (ou simplesmente de luxo) não traz em seu pacote tecnológico um sistema de suspensão inteligente. Guardadas as devidas diferenças, qualquer motorista hoje pode ajustar a suspensão de um desses carros de rua, endurecendo ou amolecendo a suspensão, com um simples toque em um botão.

ESTRATÉGIA

Finalmente, na parte esportiva, Nelson Piquet também foi um campeão diferenciado. Quebrou o paradigma de que uma parada nos boxes significava o fim das chances de vitória. Em 1983, ele passou a largar com pouquíssimo combustível em seus Brabham BT52 e BT52B, deixando os concorrentes alucinados com seu desempenho nas primeiras voltas. Depois, parava para reabastecer e já estava com tanta vantagem que sempre conseguia um bom resultado. Ganhou três corridas e ainda deu uma de presente ao companheiro Riccardo Patrese no dia em que foi bicampeão mundial.

Claro que no ano seguinte todos copiaram essa estratégia. Mas no GP dos EUA Leste de 1984, em Detroit, pilotando o Brabham BT53, Nelson mudou de tática. Naquela pista não valia a pena parar. Assim, liderou as 63 voltas da corrida. Atrás dele, usando a estratégia das outras provas, Alain Prost, Nigel Mansell, Michelle Alboreto, Elio de Angelis, Derek Warwick, Eddie Cheever e Martin Brundle trocaram de posições várias vezes devido às paradas para reabastecimento. Como se sabe, depois disso os pit stops se tornaram tão necessários que acabaram virando uma das maiores atrações da Fórmula 1 e duram até hoje.

TÉCNICA

Para completar esse texto sobre a trajetória de Nelson Piquet na Fórmula 1, vale a pena lembrar três momentos de técnica excepcional – e as três sobre o preferido Ayrton Senna, para não deixar dúvidas de que ambos merecem um reconhecimento unânime da torcida brasileira.

Nelson era exímio largador. Um dos melhores de todos os tempos. No GP do México de 1986, Ayrton fez a pole e Nelson largou em segundo. Os dois disputaram palmo a palmo, com unhas e dentes, a freada e a posição até a primeira curva. Piquet tomou a frente de Senna ali mesmo e liderou 31 voltas.

Na mesma temporada, no GP da Hungria, a ultrapassagem de Piquet sobre Senna, por fora, derrapando nas quatro rodas um carro com mais de 1.000 cv de potência, levou o grande Jackie Stewart a dizer: “Foi a maior manobra da história da Fórmula 1”. O vídeo dessa ultrapassagem tem milhões de visualizações no YouTube.

https://youtu.be/5wab5g0p-UM

A mesma cena do México se repetiu no decisivo GP da Austrália de 1986 – uma das maiores corridas de todos os tempos, se não a maior. Mansell, Piquet, Senna e Prost largaram nas duas primeiras filas, nessa ordem, numa prova em que só Ayrton não tinha chances de ser campeão. Mas foram os dois brasileiros que pularam na frente. De novo, o Williams de Piquet e o Lotus de Senna chegaram na primeira curva disputando cada centímetro de pista. Os dois eram muito arrojados e Nelson ganhou de novo, liderando as seis primeiras voltas.

Ainda nessa corrida, Nelson voltou à liderança nas voltas 63 e 64, mas teve de parar nos boxes para trocar de pneus, por precaução da Williams, porque os pneus de Mansell haviam estourado. O brasileiro caiu para segundo lugar e durante 18 voltas reduziu uma enorme distância que o separava de Prost (que tivera a estranha sorte de rodar no início da prova e ter sido obrigado a trocar de pneus). Se tivesse mais duas voltas, Piquet ganharia seu terceiro título, mas não deu tempo. Ficou para o ano seguinte, quando se sagrou o primeiro brasileiro tricampeão mundial de Fórmula 1.

Hoje, com 65 anos, Nelson Piquet é um mito do esporte como poucos brasileiros. Nenhuma reverência a ele é exagerada.

http://www.istoedinheiro.com.br/nelson-piquet-campeao-frente-seu-tempo/

“Não tem sentido o estado ser dono de escola”

Um dos economistas por trás do programa social mais conhecido do Brasil, o Bolsa Família, Ricardo Paes de Barros é um dos maiores especialistas do mundo em pobreza e desigualdade. Doutor em economia pela Universidade de Chicago, PB, como é conhecido, não é um convencional “Chicago Boy”, ou seja, um economista liberal. Nos mais de 30 anos em que esteve no Instituto de Pesquisa Económica e Aplicada (IPEA), ele foi responsável por estudos focados em miséria, desigualdade e educação. Já em meados de 2015, sua carreira tomou outro rumo: ele deixou o sector público, onde actuava como subsecretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) desde 2011, para se dedicar exclusivamente à pesquisa sobre educação. Desde então, ele é o economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper. Defensor de um sistema educacional mais igualitário, ele afirma que o Brasil é capaz de erradicar a pobreza, mas não consegue diminuir a evasão e a desigualdade educacional. Além disso, explica como a desfasagem escolar impacta o mercado de trabalho:

DINHEIRO – De que maneira a crise económica afectou o sistema educacional brasileiro?

RICARDO PAES DE BARROS – O curioso é que quando se tem uma crise económica, há um estranho impacto sobre a educação. Por um lado, existem menos recursos e menos dinheiro das famílias, ou do governo para investir na educação. Mas, por outro lado, os jovens ficam menos ansiosos para entrar no mercado de trabalho. Se a saída para o mercado de trabalho e a evasão da escola é causada, justamente, pela atracção do mercado de trabalho, em tempos de crise ele fica menos atraente. Então, faz mais sentido terminar a graduação e entrar em um mestrado. Você acaba investindo mais na educação. Como o mercado está ruim, os professores não vão pedir aumento. Então, a educação fica mais barata.

DINHEIRO – Esse comportamento é o oposto quando a economia cresce?

PAES DE BARROS – Quando a economia está superaquecida é mais difícil manter o jovem no ensino médio. Quando há uma economia crescendo muito, ela começa a buscar mão de obra por todo lado. O salário sobe e a escola fica para depois. Na hora da recessão, a pessoa pensa “se eu conseguir emprego, óptimo; caso contrário, continuo na escola”. É o momento em que as pessoas têm mais tempo para estudar. Obviamente que o período é curto. Se a crise continua, as pessoas passam a aceitar qualquer emprego.

DINHEIRO – O Brasil quer entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Os baixos índices educacionais podem ser um entrave?

PAES DE BARROS – A OCDE não requer que o Brasil atinja os níveis básicos educacionais. Acredito que a razão pela qual o Brasil não pertença à OCDE seja porque o País mantém certa distância e prefira se alinhar aos países de renda média. O que quero dizer é: o Brasil prefere liderar os países de renda média ao invés de ser o último da fila entre os países ricos. Mas, certamente, temos indicadores educacionais muito piores que todos que pertencem ao grupo. Até o México e a Turquia vão melhor do que nós. Entrar na OCDE não ajudará em nada o Brasil nesse quesito. Agora, o Brasil é um país muito curioso: temos um desempenho muito fraco em educação e não escondemos isso de ninguém. Participamos de todas as avaliações mundiais, temos todos os relatórios e sabemos em todas as casas decimais que estamos mal. É como se fizéssemos questão de ter certeza que a gente sabe.

DINHEIRO – Quais políticas públicas deveriam ser feitas para reduzir esse problema?

PAES DE BARROS – Por que vários países conseguem alcançar a meta e o Brasil não? É preciso separar, talvez, em três questões fundamentais: não há recursos para poder fazer; não sabe fazer; ou não sabe gerenciar os recursos para que seja feito. A questão que se coloca no Brasil é: será que a gente não sabe fazer educação ou não colocamos o esforço para fazer educação? O sistema todo não tem governança? Se olharmos essas questões básicas, o Brasil está se esforçando para gerar educação. Gastamos grandes recursos em educação. O Brasil investe de 5% a 5,5% do PIB em educação. Isso é muito mais quando comparado com outros países. A gente gasta igual ou mais que o Chile em percentagem do PIB. Então, temos um problema de alocar os recursos, de gerenciar.

DINHEIRO – Se o problema não é dinheiro, significa que não sabemos educar?

PAES DE BARROS – Aí o nosso sistema de monitoramente deixa muito claro. Temos lugares no Brasil que se fizessem parte da OCDE estariam muito acima da média. No Estado do Ceará, a cidade de Sobral, por exemplo, está acima da média dos padrões da OCDE. Temos vários lugares pobres no Brasil, como o Ceará, mas os indicadores no ensino fundamental são melhores que os do Rio de Janeiro. O que se percebe é que existem vários sistemas educacionais no Brasil que mostram que sabemos educar. A evidência é que não falta esforço, não falta gente que saiba fazer educação. O que está faltando, em uma visão macro, é governança. Já decidimos a educação que queremos. Temos pessoas que sabem fazer. Já mobilizamos os recursos para fazer. Por que não estamos fazendo? É porque não temos os incentivos correctos para as pessoas correctas, nas horas correctas. Os bons exemplos de escola, de rede municipal e estadual, estão aí para serem copiados.

DINHEIRO – A privatização e o modelo de PPP em escolas ajudariam a melhorar o ensino?

PAES DE BARROS – Vários países, como a Holanda e a República Tcheca, caminham cada vez mais para não ter escolas públicas. No fundo, o que queremos é uma escola que seja de boa qualidade e que se uma pessoa quiser colocar o filho dele lá, ele será aceito. O SUS é um exemplo. Se quiser acessar esse sistema, não importa muito se o hospital é público ou privado. Quem vai pagar a conta é o governo. É inevitável que a mesma coisa aconteça na educação. Não tem nenhum sentido o estado ser dono de um bando de escola. Ele tem que estar preocupado em regulamentar a qualidade, garantindo que qualquer criança seja aceita. O papel dele é de regular o preço e o custo que vai pagar, para que não seja alto. No fundo, o Pro-Uni é um pouco isso. A universidade oferece o serviço, o aluno se beneficia, a escola é privada e quem acaba pagando é o governo, na medida em que se tem uma redução dos impostos ou das contribuições sociais que a instituição irá pagar. Então, no futuro, não tem razão nenhuma o estado gerenciar individualmente professores e escolas. A função dele será mais regulamentar a qualidade e garantir o acesso de todos e pagar pelo serviço.

DINHEIRO – A crise educacional do País é mais complexa do que erradicar a pobreza?

PAES DE BARROS – Se olharmos no passado, há 15 anos, o Brasil tinha um índice de pobreza muito alto e um índice educacional fraco. Tudo apontava na direcção que íamos ser capazes de resolver o problema educacional e que a pobreza era algo mais complicado, multidimensional, portanto, mais difícil de resolver. O que acabamos mostrando é que fomos inacreditavelmente bem-sucedidos e cumprimos todas as metas de redução da pobreza em uma margem gigantesca e não fomos capazes de cumprir metas básicas do Plano Nacional de Educação, que não parecem ser metas tão ousadas assim. Então, o Brasil demonstrou uma enorme capacidade de combater a pobreza e a desigualdade, que parecem ser problemas mais complexos que o problema da educação. Enquanto isso, caminhamos de uma maneira muito lenta para resolver o problema educacional. É um pouco surpreendente essa característica do Brasil. Como um País que conseguiu enfrentar tão bem a pobreza, a subnutrição, a mortalidade infantil, tem tanta dificuldade de resolver o problema de alfabetização?

DINHEIRO – Então o programa Bolsa Família contribuiu mais para a redução da pobreza do que para combater a evasão escolar?

PAES DE BARROS – Dentro da solução da pobreza do Brasil, o programa Bolsa Família é uma parte pequena do todo. O País fez muito mais em termos de inclusão económica do pobre. Houve uma inclusão produtiva do pobre, que se engajou nas questões produtivas formais da economia, gerando aumentos salariais fantásticos para os mais pobres. Houve um aumento grande nos pequenos negócios, a renda do trabalhador melhorou. A agricultura familiar e programas apoiaram isso. A política brasileira de combate à pobreza é abrangente e complexa. O Bolsa Família, por conta das funcionalidades, manteve mais a criança na escola. Porém, em termos de aprendizado e até de redução da evasão, teve uma participação pequena.

DINHEIRO – Uma vez o sr. comentou que as escolas no Brasil não oferecem aos alunos de baixa renda oportunidades de ascensão social. Elas, de fato, reforçam as diferenças?

PAES DE BARROS – Esse é um problema bem específico da educação. Todos gostariam de viver em um mundo onde existisse menos desigualdade, mas ninguém pode ser contra a meritocracia. Então, ao final do dia, aquelas pessoas que acabam tendo um desempenho melhor, produzem mais e têm uma vida melhor, financeiramente falando. Temos de ser bastante cuidadosos como toda essa desigualdade aparece. Talvez, ela vá acompanhar essas pessoas a vida inteira. E um dos lugares onde essa desigualdade pode aparecer é na escola. A gente pode argumentar que grande parte da desigualdade que aparece na escola vem do fato de que um aluno estuda mais ou, que talvez, seja mais talentoso que o outro.

DINHEIRO – Não é isso que acontece?

PAES DE BARROS – Grande parte da desigualdade que aparece na educação, na verdade, foi criada na educação mesmo à revelia do esforço ou do talento do aluno. Por quê? Porque a família exerce um papel importante nisso. Toda família está preocupada com a educação do filho. Portanto, ela tenta ao máximo que o filho tenha um bom desempenho. Existem pais que têm mais tempo, uma formação melhor, são mais ricos, podem ajudar mais seus filhos que os outros. Então, surge a desigualdade de oportunidade, onde crianças igualmente talentosas, prontas para colocar o mesmo esforço, acabam tendo resultados diferentes, porque vêm de famílias diferentes. Um dos desafios da educação é evitar que isso aconteça. A educação quer, por um lado, que a família ajude o máximo possível as crianças a se engajar. Por outro lado, quer evitar dramaticamente que a desigualdade de uma geração seja transmitida a outra geração através da escola. A solução é relativamente simples, mas nem tão compreendida assim pela escola, que deve aproveitar toda a atenção e dedicação dos pais para, depois, condensar isso de tal maneira que, ao final do dia, todos saiam do outro lado com igualdade de oportunidades.

DINHEIRO – Para que isso aconteça, será preciso reformular o sistema educacional?

PAES DE BARROS – É preciso ser sensível à desigualdade e também ser sensível à diversidade. Tem que perceber que uma escola em um bairro pobre vai precisar de mais recursos que uma escola em um bairro não tão pobre, pois lá ele terá todo o apoio da família. Toda criança em um momento ou outro vai ter uma dificuldade de aprendizado. O que isso requer é uma escola sensível, customizada e que entenda que cada criança aprende de um jeito. Não adianta tentar tratar a educação de forma massificada, porque aí gera desigualdade. Em princípio, não é preciso grandes revoluções.

DINHEIRO – Como essa desigualdade na educação impacta no mercado de trabalho e na economia?

PAES DE BARROS – Isso vai impactar muito mais na desigualdade. Pode ter um sistema educacional que é até conectado ao mercado de trabalho, mas que não presta atenção na individualidade. Ele pode gerar, em média, óptimos trabalhadores produtivos, mas vai gerar uma enorme desigualdade. Uns ficam para trás, outros avançam mais. O que estamos discutindo é muito mais a sensibilidade da escola em não deixar ninguém para trás. Tem mais a ver com gerar desigualdades do que propriamente gerar uma massa de pessoas com alta produtividade. Então, uma coisa é a questão da igualdade, outra questão é qual é a melhor educação que é preciso dar para as pessoas.

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Bunkers: onde os ricos se escondem

    Bunkers: onde os ricos se escondem

    Se antes eles serviam para guardar armamentos ou proteger chefes de estado, os complexos de segurança agora abrigam milionários com medo do fim do mundo

    Nos anos 1960, no auge da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o então presidente americano, John Kennedy (1917-1963), recomendou que a população procurasse abrigo “o mais rápido possível”. Era um claro sinal de que as ameaças entre ele e o então primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev (1894-1971), passariam do discurso para a ação – o que quase aconteceu na chamada crise dos mísseis, em 1962, que botou o mundo em alerta. Passadas quase seis décadas, o temor do “fim do mundo” continua a assombrar gente de todos os lugares, mas agora as ameaças não estão apenas concentradas nas disputas entre potências.

    Além do tom belicoso de líderes como o presidente americano Donald Trump, o presidente russo Vladimir Putin e o ditador norte-coreano Kin Jong-un, outros componentes passaram a amedrontar a população: ataques terroristas, crescimento populacional, catástrofes biológicas, terremotos, tsunamis e doenças contagiosas com poder de se espalhar como rastro de pólvora. Com tantas variáveis, os chamados ultra-ricos deixaram de desejar apenas aquelas coberturas, acima dos simples mortais e bem próximas do céu, para reservarem um lugar debaixo da terra. Mas não em um buraco qualquer.

    Muitos têm desembolsado milhões de dólares por um espaço em um bunker de luxo. “A maioria dos meus clientes é formada por médicos, engenheiros e empresários que têm filhos”, diz Larry Hall, CEO e idealizador do Survival Condo, um condomínio de apartamentos adaptados em um antigo silo de mísseis nucleares no Kansas, nos Estados Unidos. Hall comprou o lugar, usado pelo exército entre 1961 e 1965, por apenas US$ 300 mil, em 2008, e investiu US$ 20 milhões para transformá-lo radicalmente. “Depois dos ataques ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, percebi que tinha de fazer isso”, diz Hall.

    Os apartamentos construídos pela Survival Condo estão espalhados em 15 andares debaixo da terra e seus preços variam entre US$ 1,5 milhão e US$ 5 milhões. Todas as unidades já foram vendidas. “Agora estamos construindo em um silo ao lado. Mais de 50% da obra já foi concluída e metade já está vendida”, diz Hall. Tudo no complexo é pensado para acomodar os proprietários por, no mínimo, três anos no caso de uma hecatombe nuclear. Os filtros por onde passam a água e o ar que circulam no ambiente contam com proteção Nuclear, Biológica e Química (NBQ). Tudo alimentado por geradores e também por meio de energia eólica. O lugar também conta com espaços para o cultivo de uma horta hidropônica e com tanques para a criação de tilápia.

    Os proprietários não costumam morar no bunker, mas estão relativamente próximos. Se uma guerra ou um ataque for iniciado, o condomínio dispõe de uma equipe de segurança treinada para resgatar os donos dos apartamentos, a bordo de veículos blindados, num raio de 600 km. Em momentos críticos, de ataques nucleares ou biológicos, os “moradores” também não podem sair na hora que quiserem. Para deixar o local, é necessária a permissão da diretoria do complexo. Os espaços são pensados para que isso não seja preciso. Os apartamentos, com 160 metros quadrados, possuem três quartos, dois banheiros, cozinha, sala de jantar e uma grande sala de estar. No lugar de janelas, telas de LED mostram a paisagem do exterior capturada por câmeras do Survival Condo. Há também piscina, academia de ginástica, parede de escalada e até uma área para passear com os cachorros. Um ambiente para a prática de tiro completa a experiência dos moradores, que são obrigados a fazer um curso de sobrevivência. “É totalmente seguro contra ataques nucleares”, diz Hall.

    Diante da paranoia que tem feito centenas de pessoas gastarem milhões de dólares com apartamentos em bunkers, cabe uma pergunta. Por que este movimento, que havia sido enterrado com a Guerra Fria, voltou com tudo? A estudiosa Andrea Bisker, diretora da Stylus, consultoria inglesa de tendência e inovação, elenca como um dos principais motivos um movimento derivado do fim da Guerra Fria. Trata-se do Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity (VUCA), ou Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade, numa tradução livre, termo cunhado pelo exército americano para designar o mundo multilateral e as incertezas que ele gera. “Os ultra-ricos estão mais paranoicos. Os bunkers servem como uma proteção”, diz Bisker. Ela destaca também o mundo big brother, com câmeras espalhadas em todos os lugares, sem que ninguém tenha privacidade. Nem mesmo dentro de casa. Recentemente, a top model Gisele Bündchen foi flagrada em um momento íntimo com o seu marido Tom Brady. As cenas, expostas na internet, foram capturadas por um drone, que passou pelos altos muros e por um séquito de seguranças que estava ali para proteger o casal-celebridade.

    Para evitar que coisas desse tipo ocorram com seus clientes, os condomínios formados por bunkers seguem a mesma cartilha. Por fora, ou têm o aspecto de bases militares ou se parecem com grandes espaços industriais. O conforto fica só debaixo da terra. O grupo americano Vivos conta com três complexos com esse perfil. Um deles, chamado de Vivos xPoint, está em Dakota do Sul, nos EUA, e funciona em um antigo depósito de munições com 575 bunkers. Mais modesto, para não dizer espartano, ele conta com academia, spa, jardins hidropônicos e espaço para receber, cerca de 20 pessoas por bunker. O outro empreendimento da empresa, O Vivos Europa One, em Rothenstein, na Alemanha, é mais luxuoso, tem espaço para 1 mil pessoas, e mescla a área outdoor com a indoor.

    Há piscina, restaurante, academia de ginástica, serviço de helicóptero e apartamentos que, diante de tanto luxo, poucos imaginariam vê-los em um buraco – o que faz qualquer pessoa esquecer que aquele ambiente é preparado para uma eventual catástrofe. Por lá, os “abrigos” custam entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões. Por último, encontra-se o Vivos Asiana, que está sendo construído na Coreia do Sul, hoje à beira de uma guerra com a Coreia do Norte. Com aproximadamente 23,2 mil metros quadrados, ele poderá abrigar 500 pessoas e será dotado de um cofre com capacidade para guardar todo o material genético dos cidadãos sul-coreanos. A expectativa é a de que o bunker esteja pronto até 2019. “Estamos rezando para termos tempo suficiente para concluir”, diz Robert Vicino, o fundador e idealizador da Vivos.

    Vicino diz que começou a pensar nestes espaços a partir de 1982. Foi quando ele teve uma visão e “Deus disse para construir bunkers debaixo da terra para salvar milhares de pessoas da próxima fase de extinção na Terra”. Desde então, Vicino já investiu US$ 500 milhões no negócio. Indagado pela reportagem sobre o porquê de uma pessoa morar em um bunker, ele é enfático: “Ninguém quer morar em um bunker, mas eles irão quando a catástrofe ocorrer”, diz Vicino. E reforça. “Diante do inevitável sofrimento que a população fora dos bunkers passará, eles irão.” As catástrofes previstas pelo empreendedor americano giram ao redor de ataques nucleares ou químicos, explosões causadas por asteroides, mudanças climáticas, deslocamento dos polos, erupções vulcânicas, tsunamis, entre outras. Mas a preocupação com o fim do mundo como conhecemos não se restringe aos americanos.

    Um empresário tcheco também criou uma espécie de oásis debaixo da terra. Batizado de Oppidum, ele está na República Tcheca e, de acordo com seus idealizadores, é, entre todos os bunkers disponíveis no mercado, o que consegue reunir a mais alta segurança com sofisticação. Em uma área de 30 mil metros quadrados, encravado em um vale de montanhas, ele é protegido por muros altos, câmeras de vigilância e sensores que detectam movimento. Os apartamentos têm entre 160 metros quadrados e 620 metros quadrados, os quartos contam com telas de LED representando janelas e as áreas comuns simulam a vida do lado de fora.

    Jardins e piscina com luzes artificiais que acompanham o dia e a noite, cinema, biblioteca, hospital e uma grande adega fazem parte dos mimos. Os donos de coleções de arte também podem armazenar as obras em grandes cofres. De acordo com o fundador, o empresário do setor imobiliário Jakub Zamrazil, o Oppidum garante suprimentos por 10 anos – sem que seja necessário por os pés para fora. A segurança é comandada pelo general aposentado Andor Sándor. “Este bunker representa o estado da arte na combinação do luxo, da segurança e do conforto”, disse Sándor em uma entrevista à revista americana Forbes. Também representa uma ode à paranoia e ao estilo de vida excêntrico de quem espera sempre pelo pior sem abrir mão da boa vida.

A VISÃO seguiu o rasto do dinheiro apresenta os resultados caso a caso, discriminando os fundos recolhidos por cada entidade

Depois das denúncias dos autarcas, que dizem não saber onde param os donativos para as vítimas da tragédia de Pedrógão Grande, Marcelo Rebelo de Sousa diz que é preciso explicar aos portugueses como é que esse dinheiro está a ser gerido. Perante a polémica, o Presidente da República pede também para que não haja aproveitamento político dos incêndios, pelo menos até às eleições autárquicas

TOTAL ANGARIADO – 13,6 milhões de euros

Governo – €1 milhão no fundo REVITA.

Verba pode ultrapassar os 4 milhões de euros

Origem: Doações de particulares e do Millennium (€423 mil)

Destino: Há 72 intervenções de requalificação simples em processo de entrega em obra

Cáritas Portuguesa – €1,26 milhões

Origem: Diversas doações, incluindo a do Novo Banco (€191 568)

Destino: Cáritas de Coimbra está no terreno a identificar necessidades

União das Misericórdias Portuguesas (UMP) – €1,84 milhões

Origem: 1,342 milhões de euros do concerto solidário Juntos por todos, 467 mil euros do Montepio e 36 470 euros do Santander

Destino: A UMP está a fazer o levantamento das necessidades

Associação Portuguesa de Seguradores – €2,5 milhões

Origem: Doações das seguradoras

Destino: Primeiros pagamentos a familiares das vítimas já começaram a ser feitos

Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande – €150mil

Origem: Doações de particulares e donativo da RTP (€134 mil) Destino: Reabilitação de duas casas de habitação. Ainda decorre o processo 
de identificação

Fundação Aga Khan – €500 mil

Origem: Doação do príncipe Aga Khan

Destino: Verba entregue ao Governo. Não integra o fundo REVITA porque vai ser aplicada na área da educação. Está a ser feito o levantamento das necessidades

Fundação Calouste Gulbenkian – €3,65 milhões

Origem: Doação da própria fundação (500 mil euros); doações da Altri e da Navigator (500 mil euros); e donativo da CGD 
(2,65 milhões de euros)

DESTINO: Fundação ainda no terreno a identificar necessidades

Novo Banco – €191 568

Origem: Doações de particulares para conta solidária

Destino: Verba já foi entregue à Cáritas de Coimbra

Millennium BCP – €423 mil

Origem: Doações de particulares para conta solidária

Destino: Valor faz parte do fundo REVITA, criado pelo Governo

BPI – €1,14 milhões

Origem: 1 milhão de euros doado pelo BPI e pela Fundação La Caixa; os restantes 144 mil euros provêm de donativos particulares

Destino: Banco está a colaborar diretamente com a Câmara Municipal de Pedrógão Grande e com as autoridades competentes no levantamento das necessidades

CGD – €2,65 milhões

Origem: Doação de 
50 mil euros do próprio banco e donativos 
de particulares

Destino: Valor integra o fundo da Fundação Calouste Gulbenkian

Caixa Crédito Agrícola – €218 mil

Origem: Doações de particulares para conta solidária do banco

Destino: Banco disse à VISÃO que “decidiu atribuir os donativos angariados (…) à União das Misericórdias Portuguesas”. A UMP admite que houve contactos mas não confirma que a verba tenha sido entregue

Santander – €573 mil

Origem: Banco doou 500 mil euros. Os restantes 73 mil euros foram angariados através de doações particulares

Destino: Os 500 mil euros vão integrar o fundo REVITA*. Os 73 mil euros de doações vão ser divididos em partes iguais e entregues à Cruz Vermelha Portuguesa e à UMP.

*O banco garantiu à VISÃO que os 500 mil euros que pretende entregar ao Governo já foram transferidos. O Executivo confirma apenas que o “Santander mostrou intenção de aderir ao REVITA”, sem se pronunciar sobre se o montante já foi recebido

Montepio – €617 mil

Origem: Doações de particulares (€467 mil); €150 mil doados pela Associação Mutualista Montepio; e €100 mil doados pela Caixa Económica Montepio

Destino: €467 mil entregues à UMP; restantes €250 mil vão integrar o fundo REVITA

RTP – €134 mil

Origem: Doações através de chamadas telefónicas para a linha solidária da RTP

Destino: Montante já foi entregue à Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande, como confirmou à VISÃO o provedor João Manuel Gomes Marques

SIC – €854 864,79

Origem: Chamadas telefónicas

(€800 299,12); transferências 
(€11 926,67);

e doações públicas (€42 598)

Destino: A SIC, através da SIC Esperança, está a trabalhar no terreno em colaboração com várias instituições para fazer o levantamento das necessidades